The Bad Batch: a estética da derrota no Vietnã

the bad batch star wars disney plusQuando a essência e aparência se confundem.

Pense rápido: dê 3 motivos para reconhecer no Império uma força política negativa no universo de Star Wars.

Não, aqueles uniformes semelhantes aos da SS não contam.

Não, o fato de Darth Vader ser um ciborgue mascarado vestido de preto também não conta. Estamos falando de projeto político e não de vestuário.

Não, o fato de que o imperador tem cara de uva passa e uma voz sinistra tampouco importa. Estamos falando de administração pública e não de carisma.

Da mesma forma, aponte 3 causas defendidas pela Aliança Rebelde. Quase tudo se resume a “derrotar o Império”, mas os detalhes do porquê são vagos.

Mais de uma vez, George Lucas esclareceu o cenário de Star Wars:

Na verdade era sobre a guerra do Vietnã, e aquele foi o período em que Nixon estava tentando vencer uma segunda eleição, o que me fez pensar historicamente… como democracias se tornam ditaduras? Porque democracias não são derrubadas; elas são abandonadas.”

Não se deve esquecer, Sheev Palpatine, o ex-senador que virou imperador, a despeito de suas preferências religiosas, chegou à liderança galáctica de forma, digamos, legítima, dentro dos normas da Velha República. Não houve nenhum golpe, nenhuma violação de ritual senatorial. Ele foi eleito chanceler. A ordem 66, que lançou os cavaleiros Jedi na ilegalidade, apenas abreviou o inevitável, a substituição de uma guarda republicana por uma força armada regular leal ao imperador.

Para o público fica fácil reconhecer em Luke, Obi-Wan, Han Solo e Chewbacca causas mais legítimas, afinal eles são pessoas simples, um fazendeiro órfão, um eremita e dois contrabandistas. São sobreviventes da periferia galáctica, sem nada a perder, levados à precária Rebelião por motivos bem pessoais. Mas se reúnem na oposição ao Império, tecnologicamente robusto e organizado. Todos desejam que a Força, essa raiz religiosa, esteja operando a favor deles. Nas mesmas circunstâncias, quem de nós seria diferente?

Desde o fim das Guerras Clônicas e a ascensão do Império, até o choque entre a Nova Ordem e a Resistência, os motivos políticos e os projetos de cada lado nas disputas em Star Wars permaneceram opacos, exceto por dois critérios: o religioso e o material. Sabemos quem é bom ou mau quando vistos sob a posição que os virtuosos Jedi e os perversos Sith ocupam nos conflitos. Sabemos quem são os heróis ou vilões na medida em que a Rebelião/Resistência é uma força tecnologicamente insípida comparada com a magnitude do Império/Nova Ordem.

Conforme Lucas:

Acima: citação de diretor comunista. (#ironia)

Nós estamos combatendo o maior império do mundo e nós somos um bando de fazendeiros com chapéus de palha que não sabem nada. E foi a mesma coisa com os vietnamitas. A ironia era que nos dois casos o cara mais fraco venceu. E o grande império tecnológico, o império britânico, ou o império americano, perdeu.”

De acordo com a BBC, entre 1968, quando oficialmente passou a enviar tropas, e 1975, com a retirada de Saigon, o governo americano destacou um total de cerca de 2,5 milhões de combatentes para guerra contra o Viet Minh, o exército de libertação do Vietnã do Norte. Destes, 58 mil soldados americanos foram mortos. Do lado vietnamita, foram cerca de 1,1 milhão de mortos. Após a assinatura dos acordos de Paris em 1973, o desfecho do conflito ficou marcado pela reunificação do país em 1975 e como o maior fracasso da história militar dos Estados Unidos. As cicatrizes emocionais e políticas dessa guerra, percebemos graças ao cinema, custaram para fechar.

Jovens: este é o Rambo. Procura no Netflix que tem.

Alegorias dos eventos históricos reais, as séries derivadas de Star Wars têm explorado as lacunas deixadas pelos acontecimentos centrais dos filmes. A mais recente delas, lançada no Disney+, é The Bad Batch, continuação direta da animação The Clone Wars, ambas criações do produtor Dave Filloni. A série se passa pouco depois de Episódio III – A Vingança dos Sith. E eis que o personagem central é justamente este cara:

Sutil

A série aborda a vida do Clone Force 99, um destacamento de cinco soldados para operações especiais, após o fim da Guerra dos Clones. Geneticamente modificados, eles têm mais individualidade e autonomia que os demais clones que lutaram durante a guerra.

Dotados de livre arbítrio até mesmo para desobedecer ordens, os membros do “Bad Batch” (“cepa ruim”, numa tradução livre) percebem contradições na transição da República para o Império Galáctico recém formado. Por exemplo, por que caçar e matar antigos aliados como os Jedi, camaradas de trincheira ao longo de anos de guerra? A eles caberá decidir que rumo tomar diante dessa nova realidade. O desafio é ainda maior porque os soldados estão submetidos ao olhar atento de Ômega, uma clone ainda criança, admiradora do famoso esquadrão de elite.

Arriscando o palpite, as histórias de The Bad Batch devem visitar locais, temas e personagens já conhecidos. Afinal eles habitam o mesmo período de outras histórias, como Rebels, Solo e Rogue One. Fatalmente eles devem se envolver nos primeiros passos do Aliança Rebelde, na expansão da Frota Imperial, na ocupação de Jedha, na construção da Estrela da Morte…  O que repete uma tradição de Star Wars: o protagonismo fica ao lado da rebeldia, da oposição ao sistema, o lado mais fraco e minoritário das circunstâncias. O que não podia deixar de ser, afinal o drama narrativo, o que faz a história avançar, exige a alta probabilidade da derrota.

Relembrando a máxima de Claus von Clausewittz, de que a guerra é a política por outros meios, pode-se pensar que Star Wars é um teatro sobre a disputa política. A forma de expor essa disputa é revelada nas decisões tomadas e consequências sentidas pelos personagens. Diante deles há opções de projetos políticos diferentes, mas que só reconhecemos por suas expressões estéticas. Assim, Star Wars, mais que mera franquia, continua apresentando questões caras ao ambiente Quadrinheiro: uma ideologia, um projeto político tem estilo próprio? Qual é o conceito estético por trás de diferentes ideologias? É possível distinguir uma posição política por sua materialidade?

Talvez não responda nenhuma questão, mas The Bad Batch pode ajudar a enxergar um elemento importante. A guerra, em especial o desajuste, a rebeldia e o antagonismo contra uma situação estabelecida continua sendo um dos melhores produtos no mercado do entretenimento. A derrota vende.

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
Esse post foi publicado em Velho Quadrinheiro e marcado , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s