A democracia em Krakoa: X-Men e o flerte populista

Se a realidade ofusca e confunde, os quadrinhos ensaiam alguns caminhos.

Já falamos bastante por aqui, Jonathan Hickman é o grande nome da Marvel no comando dos X-Men. Em dezembro de 2020, chegou ao fim a primeira saga sob o comando dele, X of Swords, arco espalhado por várias revistas. A série segue a melhor tradição de outras histórias célebres dos mutantes como Inferno, Massacre de Mutantes ou a Saga da Fênix Negra.

Agora, tendo a realidade como anteparo, a edição mais recente, X-Men n.16, deita o olhar sobre que há de mais elementar, problemático, insípido e ainda assim essencial traço da vida política moderna: a democracia.

Relembrando: nos roteiros de Hickman, Charles Xavier levou a sobrevivência da espécie mutante aos extremos. Sob a liderança dele, os mutantes fundam uma nova nação, Krakoa, ilha consciente que requer energia telepática para viver, ou seja, habitantes. Os mutantes declaram Krakoa um estado soberano, dotado de representação internacional, governo, leis, língua própria e capacidade de auto-defesa. Todo mutante, não importa onde tenha nascido, passa a ter cidadania reconhecida como krakoano.

Entre as vantagens dessa cidadania inclui-se a eliminação da morte, afinal os mutantes aperfeiçoaram a técnica de clonagem e transferências mentais. E mais: em troca de reconhecimento diplomático, Xavier oferece à humanidade um elixir contra qualquer doença e limites de idade. É a promessa, via mercado, de coexistência entre duas espécies e pacificação das diferenças. Mas o capeta está nos detalhes.

Invés de um grupo de heróis, ou uma escola de jovens super-dotados, os mutantes, tanto heróis como vilões, agora compõem uma mesma nação. Necessidades díspares devem ser observadas e sanadas. Assim é criado o governo deste novo estado, o Conselho Silencioso (Quiet Council), formado pelas diferenças que a fauna mutante representa. Tal como um senado, reúnem os pólos “ideológicos” daquela espécie.  Contam com a presença de Magneto, Xavier, Apocalipse, Jean Grey, a Rainha Branca, Sebastian Shaw, Sr. Sinistro e outros.

Quando desafiados pela invasão dos mutantes de Arakko, ilha “irmã” de Krakoa, surgiram os primeiros problemas deste arranjo político. Arakko é uma nação belicista, marcada por milênios de guerras internas. Ciclope, comandante da defesa de Krakoa, e a Garota Marvel, membro do Conselho Silencioso, discordam da decisão da maioria, de não invadir Arakko. Esta decisão levaria à morte do jovem Cable, filho deles e que gritava por socorro em Arakko.

Para os patriarcas do Conselho, uma ação arriscada como a desejada por Ciclope poderia agravar o conflito entre as duas nações. Levaria mais mortes aos cidadãos de Krakoa. Audácia heroica não combinaria com um governo responsável. Ora, restou aos dois heróis a única alternativa coerente: abdicar de seus cargos e agir por conta própria.

Vale a reflexão: embora reúna poderes de criar leis e julgar os crimes contra a nação, o Conselho de Krakoa não chega a ser uma ditadura. Não há decisões monocráticas de uma única pessoa, nem nas emergências. As deliberações são colegiadas e decididas por maioria de votos. Já os vários grupos de heróis, X-Men, X-Force, Excalibur, X-Factor, representam as forças armadas, braços do poder executivo de Krakoa. Nas palavras de Ciclope, eles são os heróis da nação.

O desfecho do dilema entre Ciclope e o Conselho é previsível, uma descida de sarrafo épica, prato cheio para os desenhos de Pepe Larraz na edição que conclui a saga, X of Swords: Destruction n.1.  

Mas se até ali os dilemas da democracia eram apenas insinuados, o mote da edição número 16 avança em um novo paradoxo, uma inflexão antes implícita. O Conselho Silencioso é o governo do povo de Krakoa. Mas os X-Men são os heróis para o povo daquela nação. Assim, defendem Ciclope e Jean Grey, e cabe ao povo votar em quem serão estes X-Men dali em diante, sem intermediários.

Invés de questionar a autoridade do Conselho, incitando uma votação para outro governo, Ciclope avocou a eleição daqueles que farão parte das forças armadas. Algo como se Marinha, Exército e Aeronáutica chamassem a população para votar nos seus soldados e comandantes.

Quem acha isso absurdo, vale lembrar que a República Romana chegou ao fim justamente quando os senadores desfrutavam de menor prestígio do que seus generais, entre eles, Júlio César. Indisfarçável, há um elemento perigoso nas entrelinhas de X-Men: a sedução carismática da ação militar.

Quando Cable pediu a ajuda dos pais, no dilema entre o salvar uma única vida ou a vida de milhões, seria ingênuo pensar que Hickman não tenha opinião. Como ação política, a opção de Ciclope é obviamente condenável. Mas foi motivo de tácita validação de Xavier e Magneto, uma projeção do que eles mesmos gostariam, embora não pudessem admitir. Nessa vizinhança de reflexão, vale lembrar as palavras do Prof. Oliveiros Ferreira quando examinava as relações entre o Exército e o Estado brasileiro:

Do golpe de 1937, e do que a ele se seguiu, o Exército tirou as lições que lhe interessavam. A primeira, que se revelou impertinente em 1964, era de que ao não assumir diretamente o poder conseguira evitar que a sociedade ficasse contra a instituição. […] Outra lição que o Exército soube tirar dos oito anos do Estado Novo foi a de que seu apoio a um governo forte, ditatorial, não permitiria realizar aquilo que suas lideranças consideram indispensável para justificar a ruptura institucional de 1930 a 1937. […] A lição era clara: sem o apoio do Exército, não haveria Estado Novo; este se efetivou, mas o Exército continuou em posição subalterna, devendo contentar-se com a criação da Usina de Volta Redonda, que não permitiu, apesar das expectativas, o reequipamento da Força Armada, que teve que ser feito pelos Estados Unidos durante a guerra. A conclusão lógica da lição foi tirada em 1964: o Exército foi ao poder.

(FERREIRA, Oliveiros. Elos Partidos – Uma nova visão do poder militar no Brasil. São Paulo: Harbra, 2007, p. 62)

Não vamos esquecer: quadrinhos é uma mídia voltada para crianças para vender camisetas e brinquedos. A estratégia de Hickman traz uma chuva de possibilidades – inclusive com a participação do público-leitor na hora de escolher quem serão os X-Men ao longo do ano. Mas é fascinante a forma com que o ele transforma um tema tão delicado – e cada dia mais relevante – em objeto de entretenimento narrativo. Se a realidade falha ou ofusca, a ficção não esconde cores nem detalhes.

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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3 respostas para A democracia em Krakoa: X-Men e o flerte populista

  1. Gazy Andraus disse:

    O texto e a referência ao texto do professor Ferreira são ótimos e instigam a leitura desta obra de Hickman. Só discordo um pouco do final, quando o velho quadrinheiro menciona que os quadrinhos são voltaos à criança. São, claro, mas não muito depois de virarem revistas após a década de 1920 (e mesmo antes quando eram em sua gênese para a mídia jornal), as HQs também passaram a existir para jovens e para adultos (especialmente na França). Só quis dar esta complementação aos incautos que lerem seu excelente artigo mas não conhecem muito da área dos quadrinhos.Parabéns de novo pelo excelente texto e a referência que dá ótimo respaldo à análise.

    • Velho Quadrinheiro disse:

      Prof. Andraus!!
      Pois é, falta de aviso não foi! O editor pontuou o tema do público-alvo antes da publicação mas fui em frente! O risco valeu o custo pela honra da sua leitura!

      Mas convenhamos, nem mesmo as HQ da Marvel/DC têm crianças como público-alvo principal.

      Abraços!

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