O Capitão América e o 11 de Setembro

Quando o Sentinela da Liberdade enfrentou o terrorismo.

O dia 11/9 de 2001 mudou a História para sempre. O atentado terrorista do grupo Al-Qaeda causou um trauma nos americanos e colocou o mundo num debate sobre segurança versus liberdade que, em certa medida, perdura até os dias hoje.

A primeira forma de representação desse acontecimento, salvo melhor juízo, foram os quadrinhos. Amazing Spider-Man #36, lançado no mês seguinte aos atentados. Fizemos um post sobre esse quadrinho. Para ler é só clicar aqui.

Mas a Marvel não parou por aí. Seguindo sua tradição de estabelecer contatos estreitos com a realidade, pouco menos um ano depois foi a vez do Sentinela da Liberdade enfrentar o problema.

Sob o selo Marvel Knights, pelas mãos de John Ney Riber (roteiro) e John Cassaday (arte), o arco New Deal (traduzido aqui como Novo Pacto) mostra a reação do Capitão América ao 11 de Setembro e seus desdobramentos.

O título já sugere a superação do trauma pelos americanos: New Deal é o nome dado às políticas de Franklin Delano Roosevelt que reestruturaram a economia dos Estados Unidos após a quebra da bolsa de Nova York. Mas também sugere que algo nos Estados Unidos mudou. E que nunca mais será o mesmo.

Mas, ao contrário das expectativas, Steve Rogers não parte para a Segunda Guerra do Afeganistão, como quer Nick Fury. E ele é enfático: ficará ao lado do povo americano.

A hq também mostra a reação dos americanos contra um descendente de árabes, porém, como é ressaltado, um americano. O recado do Capitão é claro: a Nação deve permanecer unida. Os Estados Unidos são fundamentalmente uma nação de imigrantes. Deve-se permanecer fiel ao American Dream, ao Sonho Americano de uma terra livre que pode realizar os potenciais individuais por meio do trabalho duro. É por esse sonho que deve-se lutar, e é por esse sonho que os americanos devem permanecer unidos – não importa sua origem.

Há uma clara intenção de estabelecer uma comparação com a chamada “Guerra ao Terror” com outras guerras já vividas pelos Estados Unidos. Chamar os desdobramentos do 11 de Setembro de “Guerra ao Terror” já sendo uma interpretação enviesada – poderíamos dizer ideológica – dos fatos. Nesse sentido outro ponto de destaque é a intenção de estabelecer um paralelismo histórico com a 2ª Guerra Mundial. Em grande parte, os americanos construíram sua identidade no combate ao nazi-fascismo durante a guerra, e agora deve-se entrar em confronto novamente. Criar a sensação de que o combate ao terrorismo é equivalente ao combate ao nazi-fascismo é um importante ponto para legitimar a guerra e as ações do governo americano.

Porém, é importante lembrar que a última guerra em que o povo americano de fato participou foi a Guerra do Vietnã. Após o fracasso retumbante, o alistamento militar obrigatório foi extinto, sendo voluntário desde então. Faz sentido que o Capitão América recuse-se a ir para o front: ele deve proteger o povo americano e seu sonho. A imagem da família vendo um atentado terrorista pela tv também evoca o Vietnã, a primeira guerra amplamente televisionada, que a família americana pôde acompanhar no jantar.

A relação entre o Capitão América e o povo americano é um ponto que merece destaque. Todos poderiam ser o Capitão América se se importassem. O que diferencia o Capitão América não é o uniforme, nem o soro do supersoldado, mas o fato de quem se importa com o Sonho. Algo que os americano parecem não se importar. Ao menos não o suficiente para ir à guerra.

Mas voltemos ao tema central da hq: o terrorismo, personificado no antagonista Al-Tariq, que ataca impiedosamente em solo americano. No conflito é importante mostrar a diferença moral entre o americano e o terrorista que emprega crianças em sua guerra. É necessário ressaltar a superioridade moral dos americanos frente ao inimigo.

A hq também assimila duas críticas recorrentes aos Estados Unidos, especialmente após o 11 de Setembro: 1. Os Estados Unidos é o maior agente terrorista do mundo (lembremos que o Terror surge durante a Revolução Francesa como um mecanismo do Estado contra a população) e 2. Em grande medida, são as ações da política externa norte-americana que cria as condições para o surgimento de terroristas.

Quando confrontado com essas questões, a resposta do Capitão América é simples e simplista: o povo americano jamais soube dos atos de seu governo.

Mas, mesmo não sabendo, apoiavam (e apoiam) as ações de seu governo, conforme a pesquisa abaixo:

O embate final entre o Capitão América e Al-Tariq ocorre em Dresden, reforçando o paralelo com a 2ª Guerra Mundial. Digno de nota é a necessidade de mostrar o Capitão América soterrado em escombros, reerguendo-se e afirmando a luta pelo Sonho e pelo Povo. Uma alegoria perfeita para os Estados Unidos que desejavam superar o trauma do 11/9.

Como dissemos sobre a hq do Homem-Aranha que também abordou o tema: é interessante notar que a 9ª Arte foi a primeira a retratar tal acontecimento, talvez tentando tornar assimilável o horror para o público americano e teve o mérito de tentar fazê-lo no calor dos acontecimentos. Porém, em New Deal já é possível ver alguns contornos ideológicos ao explicar e justificar a política externa da “Guerra ao Terror” por meio das ações do Capitão América.

Sobre Nerdbully

AKA Bruno Andreotti; Historiador e Mestre do Zen Nerdismo
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3 respostas para O Capitão América e o 11 de Setembro

  1. stephanogta disse:

    O 11/9 foi “falsa bandeira” como Mukden, Reichstag e o Riocentro.

  2. Pingback: O Homem-Aranha e o 11 de Setembro | Quadrinheiros

  3. Pingback: 9 hqs políticas ao longo das Eras dos super-heróis | Quadrinheiros

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