Os heróis e a arte contra a falta da Razão

O público não entende mais seus heróis ou os heróis não entendem mais seu público?

Todas as formas de arte estão atualmente sob ataque em uma onda de pouca razão humana. Os artistas, as obras de arte e todos os movimentos do passado e do presente que de alguma forma lutaram e lutam pela liberdade hoje são atacados e subvertidos pelo seu próprio público.

Mas esse é um problema com a arte ou com o público consumidor?

Recentemente tanto os filmes quanto os quadrinhos da Marvel sofreram ondas de ataques de possíveis consumidores da marca que teoricamente se revoltaram com mudanças em seus heróis clássicos. Inicialmente o grande problema foram os quadrinhos que haviam realizado uma substituição temporária dos personagens originais por versões deles com protagonistas que representam minorias.

Os filmes foram acusados de estarem criando alterações nas histórias dos heróis para agradar um público que não são os “verdadeiros fãs” da marca. A associação entre o problema racial e Pantera Negra, e a questões das mulheres apresentada em Capitã Marvel são colocadas como tramas fora do escopo dos quadrinhos, inclusive é citado que isso não era feito nas HQs e estão mudando os personagens para agradar um público novo, criando assim histórias ruins.

É fato que os quadrinhos de super-heróis sempre foram políticos. Capitão América criado durante no contexto da Segunda Guerra Mundial; o Superman como resposta à Crise de 1929 e a reestruturação da economia dos EUA com o New Deal,  retratando diversas explorações sofridas pelos trabalhadores; Planeta Hulk com a libertação de Sakar (praticamente um  Spartacus); a criação do Pantera Negra etc. São alguns exemplos clássicos e contemporâneos da indústria. O problema com as reclamações não são uma exclusividade da Marvel, mas a indústria do entretenimento no geral tem lidado com os fãs preconceituosos dos X-Men e simpatizantes da Ditadura amantes de Star Wars.

Provavelmente os consumidores não conseguiram passar de suas interpretações infantis onde o herói captura o vilão da semana, não conseguem entender que por trás daquelas empresas, produtos e histórias, existem seres humanos escrevendo, estes tem seus pensamentos e filosofias, geralmente inseridos em suas histórias. Os quadrinhos, as músicas, os games, os filmes, etc, possuem pessoas participando do processo de criação e essas pessoas estão em contato com o mundo fora das histórias, opinando, pensando e criando em cima disso tudo. E os pensamentos desses artistas vem gerando ódio contra eles e contra as histórias que manifestam ideias políticas contrárias à maioria, uma certa ignorância parece dominar parte do público que não está conseguindo interpretar corretamente o que vê, lê e assiste.

Essa ignorância é alimentada por um problema antigo, o ódio. Manifestações por direitos de minorias e qualquer pensamento progressista andam sendo repudiados. Nos quadrinhos é possível perceber essa reação pelas mudanças com novos personagens, e no mundo pela ascensão da extrema direita, inclusive pela América Latina. Vários aspectos são utilizados para reforçar esse ódio e ignorância, desde ataques diretos de xingamentos e tentativas de humilhação, até revisionismos históricos e científicos delirantes. Isso podemos perceber tanto na interpretação dos personagens quanto no mundo.

 

O público não está tendo olhos para perceber que seus heróis sempre foram políticos e sempre serão, porém a parte política deles lhes faz negar tudo que acreditam no momento. Os heróis dariam um soco na cara de parte dos seus “fãs” por agora serem o cara que faz mal aos outros com mentiras e ataques gratuitos. Essa mistura de nostalgia com delírios interpretativos, gera visões dos heróis mais assustadoras que alguns vilões.

Andy Khoury é editor na DC Comics. Entre seus trabalhos como editor destacam-se Aquaman e Green Arrow na fase Rebirth. Tradução livre do tweet: “O que as pessoas querem dizer quando dizem querer quadrinhos ‘não políticos’, como quando eram crianças, é que elas estão devastadas por acordar um dia como adultas, ler um quadrinho, e perceber que cresceram para se tornar o tipo de pessoa que seu herói de infância daria um soco na cara”.

Esse delírio não é exclusividade dos quadrinhos ou da música, atualmente é um fenômeno que vem tomando cada vez mais relevância, a ignorância como fator determinante para estar certo sobre os rumos do convívio social.

A melhor parte das obras de arte estão sofrendo uma tentativa de supressão por parte do público que não aceita quando algo lhe presta a fazer uma reflexão. Se na Segunda Guerra Mundial o papel do Capitão America foi representar um herói de guerra contra a ameaça nazista e o do Superman a defesa dos trabalhadores, hoje o que está em discussão é a representatividade e a opressão sofrida por minorias.

Com o tempo a sociedade se transformou e a discussão político-social das histórias em mídia de massa também mudaram.  Os heróis não foram alterados, seu teor ou sua essência, eles evoluíram com o tempo para discussões e assuntos contemporâneos, enquanto seu público continua com a cabeça de pensamento binário e estagnado dos anos 50 e 60, aliado a teorias da conspiração e revisionismos históricos que elegem presidentes, matam, ensinam teorias anti-científicas e a cada dia mais arrasta a humanidade para um buraco de escuridão e medo. Espero que os heróis tenham calma para rever essa onda fervorosa e dessa vez apenas com ideias, salvem o mundo mais uma vez.

 

Sobre John Holland

Procurando significados em páginas de gibi enquanto viaja pelos trilhos do conhecimento e do metrô. Sempre disposto a discutir ideias e propagar os quadrinhos como forma de estudo, adora principalmente a Vertigo, está sempre disposto a conhecer novos quadrinhos e aprender o máximo de coisas possível!
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