Distopias em V de Vingança e Admirável Mundo Novo: lições para uma realidade nacional

Depois do conturbado século XX, o medo da aproximação de uma distopia é cada dia maior.

Distopias são histórias onde o mundo é tomado por uma onda negativa. Um futuro no qual padecem a tolerância, individualidade, segurança e liberdade. V de Vingança, de Alan Moore e David Lloyd, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, apresentam mundos distópicos onde o controle das condutas e até mesmo do pensamento tomaram a realidade como refém. Hoje, tal como nas ficções, teme-se pela chegada de um governo autoritário e distópico.

Em V de Vingança o controle social é promovido por meio da violência estatal, uma vez que a polícia possui plenos poderes e prerrogativas, e os cidadãos, alguns parcos direitos, como de ir às missas. Não existe liberdade de trânsito, nem de ideias. Já em Admirável Mundo Novo, através da felicidade, do constante estado de êxtase, de um artificial propósito para viver e envolvimentos emocionais superficiais, a opressão se realiza pelo êxtase induzido.

V de Vingança, lançada originalmente entre 1982 e 1983, tem raízes tanto na ficção, em obras como 1984, de George Orwell, quanto em eventos reais como a ascensão do nazifascismo no período entre-guerras do século XX.

Admirável Mundo Novo, lançado em 1932, retrata uma sociedade que ao invés de condenar, celebra um conformismo inebriado, situação “protegida” por um Estado que vigia e pune o questionamento e a dissenção de opinião.

Senão como política de Estado, certamente nas condutas daqueles que sentem legitimados a agir com violência, o fascismo, ou a ascensão de uma expressão fascista, hoje, é latente. Nas distopias citadas há aqueles que defendem o sistema em vigor e aceitam o que é estabelecido pelo Estado.

E tanto nas histórias quanto no mundo real, o medo é uma poderosa força motriz para o controle mental da população. Criar um “inimigo” e a ele associar os receios do povo, garantem controle sobre as mentes daqueles que buscam soluções rápidas para aflições sufocantes. Ensina a ficção, quando não existe reflexão e a escolha é feita pelo medo, não demora para a realização de que o que era ruim tornou-se tanto pior.

 

A pouco mais de 50 anos, no coração da Guerra Fria, o medo da “ameaça” comunista no território brasileiro foi pretexto para o início da ditadura militar. Em V de Vingança, o pretexto foi uma aludida guerra mundial, que levou à uma política de higienização moral e social. Os interesses de uma minoria radical foram fortalecidas pela fragilidade das pessoas e de seus pensamentos por meio do medo e do ódio.

Sentimentos assim são forças tão poderosas que, transformadas em postulados, parecem propostas concretas para um país e, contudo, são vazias, pois não passam de palavras de ordem.

Página 22. Notem que não há nenhuma menção em como fazer tais coisas.

Uma tela como a acima, com dizeres genéricos e resumidos, exortando seguidores para a ação em relação à segurança por exemplo, beira o ridículo. Mas ante ao medo do “oponente” e de uma agravada situação de insatisfação popular, a frase torna-se uma proposta real, pois incita o combate a violência e defende a eliminação da corrupção, que é exatamente o defeito atribuído ao inimigo.

Observando as distopias da ficção e o mundo real é possível considerar que parte dos medos retratados pelos autores em suas obras já aconteceram ou podem vir a acontecer. V de Vingança e Admirável Mundo Novo desnudam contradições cruciais, implícitas ao incauto defensor de causas restauradoras da estabilidade. São obras que trazem o potencial de abrir a mente para uma onda distópica em nossa realidade. Revelam que a visão de mundo mais sombria e pessimista pode estar à espreita.

Entre aqueles mais céticos é frequente ouvir que a ascensão do fascismo e de medidas autoritárias são impossíveis de se tornar realidade. Porém, a quem se sente ameaçado pela postura hostil que se manifesta como rotina, este ceticismo torna-se angustiante para quem conhece uma boa distopia. Resta preservar a memória daqueles que combateram o fascismo, o ódio e a falta de solidariedade como medida para conter a concretização de uma distopia.

 

Sobre John Holland

Procurando significados em páginas de gibi enquanto viaja pelos trilhos do conhecimento e do metrô. Sempre disposto a discutir ideias e propagar os quadrinhos como forma de estudo, adora principalmente a Vertigo, está sempre disposto a conhecer novos quadrinhos e aprender o máximo de coisas possível!
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Uma resposta para Distopias em V de Vingança e Admirável Mundo Novo: lições para uma realidade nacional

  1. Eduardo de Carvalho Braga disse:

    Belas escolhas distópica, e de fato, a adoção do medo, de Thomas Hobbes, passando por Noam Chomsky, Hannah Arendt e até, inclusive, o caso recente envolvendo Judith Butler, pontuam como a degradação social propositada constitui ambiente fecundo para políticas severas caracterizadas como “atitudes extremadas de exceção”, e o poder do medo conduz ao pensamento diametralmente oposto ao debate de idéias, pois idéias novas pressupõe discutir bases, fundamentos, e compreender causas e consequências, e a decisão baseada em medo supõe o estado atual como o pior cenário possível, a pior consequência.

    Acho que me estendi, más parece razoável essa colocação?!

    Abraços,

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