O Idiota expressionista de André Diniz

id5A versão de André Diniz para O Idiota de Dostoiévski é um passeio por referências estéticas. 

 

A adaptação de uma narrativa literária para os quadrinhos é sempre um desafio. As diferentes características de cada meio podem tirar a força e a relevância da obra original, criando uma versão pasteurizada na nova mídia, que no máximo servirá como um “facilitador” de leitura para o público escolar. Porém, se o responsável pela adaptação conhece os pontos fortes da nova linguagem, ele pode usar essas características para revelar aspectos menos óbvios da obra original. Esse é o caso da adaptação para os quadrinhos do clássico da literatura russa O Idiota, de Fiódor Dostoiévski, pelas mãos de André Diniz (Companhia das Letras, 2018).

O livro de 1868 é um tijolo de mais de 500 páginas, que foi publicado originalmente em folhetim. Dostoiévski se inspirou no Dom Quixote de Cervantes para escrever a história do príncipe Míchkin que retorna a São Petersburgo depois de passar anos na Suíça tratando sua epilepsia (daí o nome do livro que denominava pessoas com essa condição). A compaixão, bondade e sinceridade do personagem se chocam de forma trágica com o mundo de egolatria, dinheiro e poder que ele encontra.

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Esse mergulho na essência psicológica de seus personagens e nos contrastes entre essa essência e o verniz social fazem de Dostoiévski um precursor de Freud, assim como do Expressionismo que, através da pintura, da xilogravura e mais tarde do cinema, retratariam o inconsciente humano em contrastes de luz e sombra. Especialmente nas telas,  o Expressionismo se destacou influenciando até hoje a 7a arte. Não por acaso O Idiota tem várias versões para o cinema, uma das mais interessantes feita por Akira Kurosawa.

Diniz nos mostra camadas que só são possíveis numa linguagem como os quadrinhos. Ele mesmo declarou que sua obra é uma versão de O Idiota, mais do que uma adaptação. Abraçando a estética dos filmes expressionistas, ele cria uma narrativa silenciosa (quase sem diálogos), se desvencilhando de toda a verborragia da obra original, concentrando a ação na expressividade dos rostos e dos olhos, na posição dos corpos e no alto contraste do preto e do branco.

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André Diniz (esq) e Oswaldo Goeldi (dir)

Nos momentos mais tensos ele inverte o fundo (do branco para o preto) fazendo referência ao artista expressionista/modernista brasileiro Oswaldo Goeldi (1895-1961). As xilogravuras desse importante artista são reconhecidas por serem um retrato invertido da tropicalidade solar dos modernistas de 1922, como Tarsíla do Amaral e Di Cavalcanti. Goeldi ilustrou algumas edições brasileiras de livros de Dostoiéviski, entre eles O Idiota.

id2Para além das palavras do autor russo, André Diniz ilumina as emoções dos personagens, através da expressividade dramática e da representação gráfica que nasceram inspiradas pela obra de Dostoiévski. Mais do que isso, ele opta por um traço geométrico que remete à literatura de cordel. Essa escolha pode ser lida tanto como um comentário sobre o medievalismo da mentalidade russa naquele contexto (ainda muito presa a superstições e rituais da igreja ortodoxa) assim como uma referência ao formato folhetinesco que a publicação original impôs à obra (com ganchos no final de cada capítulo para fazer o leitor comprar o próximo número do jornal).

Ao optar por uma versão cheia de referências estéticas, André Diniz acrescenta camadas de significado para a obra de Dostoiévski, que funcionam tanto para quem nunca leu a obra do autor russo, quanto para quem conhece o texto original e a influência que ele tem na filosofia e na arte do século XX. É portanto uma ótima oportunidade para quem quer ampliar sua leitura do mundo e da cultura.

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Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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