Conto: VR DISCOVERY

Ilustração por Mauricio “Picareta Psíquico” Zanolini

Ficção científica nacional no conto de Ricardo Celestino.

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Ricardo Celestino*

I

Há certos ambientes na cidade de São Paulo protegidos contra os avanços científicos, culturais e tecnológicos da pós-humanidade. A casa de sua avó. O salão de sua igreja. A conversa de WhatsApp de seus antigos amigos. E, principalmente, a escola. Os fones de ouvido de Lis melhoravam o ambiente escolar. A aula que mais detestava em toda a sua trajetória de estudante era a Biologia. A professora gostava de amaldiçoar todas as tentativas de avanços do homem na extensão da vida do reino orgânico para culturas inorgânicas. Todos os profissionais da escola encaravam como uma afronta a suas divindades íntimo-grupais a possibilidade da vida inorgânica nos planetas já colonizados em longínquas galáxias.

II

Se McGregor estivesse em uma loja de cristais, sua sutileza lhe geraria um desequilíbrio financeiro suntuoso. Caminhava pelo movimentado centro urbano como um turista de primeira viagem. Procurava um lugar para jantar. Qualquer lugar. Como um récem-chegado, sua cabeça estava um pouco abobalhada com tanta informação. Os seus implantes oculares récem-instalados foram projetados para fazer uma varredura detalhada no perfil de transeuntes em qualquer lugar. Só que a falta de habilidade de McGregor com a nova tecnologia o levou a espasmos típicos de quem sofria labirintite. Resultado: a conclusão precipitada de que naquele primeiro salão lusco-fusco que avistara, semelhante a um pub subterrâneo, não existia nada que previsíveis níveis semelhantes ao seu.

III

Em uma roda de discussões na aula de Filosofia, Lis questionou sobre as condições de vida dos animais domesticados. Todos se mostraram violentos a sua intervenção e o professor mediou a situação liberando a turma mais cedo para o intervalo. A grande reflexão de Lis foi considerar que as necessidades daqueles gatos, cachorros, hamsters e passarinhos não eram as mesmas que a de seus ‘’donos” e que, muitas vezes, era preferível que os bichanos circulassem livremente pelos centros urbanos, buscando suas próprias necessidades, do que presos às vaidades desses sujeitos tão mesquinhos que só pensavam em ver suas próprias alegrias personificadas em espécies encarceradas. Talvez aquele episódio fora o gatilho que despertou a atenção da Orientadora Educacional.

IV

Elias notou McGregor no instante que o recém-chegado pisou dentro do Pub. O andróide que anotava os pedidos aguardou contados vinte minutos até que o novato se adequasse ao nome dos pratos expostos no cardápio. Finalmente, escolheu o mais caro da casa, como quem ainda não estava habituado com o valor da moeda local. Em seguida, o andróide teve que repetir mais de uma vez que não era possível um pastrami mal passado, o informando que a carne é cozida igualmente, por horas. O recém-chegado não pediu nenhuma bebida alcoólica. Aquilo era contra a lei em certas regiões de certos planetas. Não… aquele sujeito não estava naquele lugar em busca de sidequests. Na cabeça de Elias, McGregor só percebera a hostilidade do ambiente depois que entrara. Então, ele saciaria sua fome diária e seguiria as ordens de uma mainquest previsível. Antes que fosse tarde demais, Elias levantou lentamente, pegou seu copo de uísque e caminhou em direção a sua ordem do dia.

Esta menina está perdida. Mais cedo ou mais tarde, precisará de um psicólogo.

Aquela fala da Orientadora Educacional ainda ecoava na cabeça das mães de Lis. Sophia e Lilian passaram a se convencer que a filha era estranha devido a algum tipo de equívoco na seleção genética. Maldita economia besta. Sabe quando se opta pelos planos de saúde mais baratos, achando que nada daquilo fará a menor diferença? A somatória mal planejada de duas mães e um pai in vitro gerou aquela bagunça toda. Enquanto Sophia caminhava por entre as grandes galerias de lojas no movimentado shopping paulistano, alguma coisa em sua cabeça dizia não ser comum uma garota de dezesseis anos ficar por aí exibindo tiaras de unicórnio e camisetas de desenhos infantis.

Sem amigas nem amigos, sempre socada nos aparelhos eletrônicos…

Sophia entrou na loja de video-games a contra-gosto. Já havia dito que só daria um novo aparelho à filha se ela demonstrasse alguma força de vontade para mudar a maneira como interagia com os outros. Só que, naquele momento, atendia a uma recomendação da Orientadora Educacional:

Será nossa última cartada. Dê o que ela quer, para tirar depois.

Então, era isso. Atenderia ao pedido de Lis e às recomendações da Orientadora Educacional:

Eu gostaria de um VR Discovery. Você parcela em quantas vezes?

V

– Posso me sentar?

– Um pouco de uísque?

– Eu… não tenho costume de beber.

– Nunca é tarde para começar.

– Bem, eu… sabe… muito obrigado.

– Você parece… inseguro?

– E você parece querer saber demais!

– Calma… eu só estava ali, sentado, sozinho… e pensei: aquele rapaz recém-chegado pode precisar de um guia para, quem sabe, um tutorial desse novo planeta?

– Quem disse que sou um recém-chegado?

– Me desculpe… mas isso parece estar estampado em cada um de seus gestos.

– Você pensa que sabe demais.

– Novato… não adianta tentar me monitorar com esse olho voador. Eu estou utilizando criptografias, assim como todos nesse bar.

– É… como você…

– Quer dar uma volta por aí?

– Tudo bem. Só vou terminar de comer…

VI

Lis passava o intervalo escolar assistindo ao Explorador Intergalático Sedentário. Um canal de youtube de um adolescente introspectivo com muitos views e likes, que exibia  as mainquests de cinco CsOs em cinco diferentes planetas de cinco diferentes galáxias. O programa era patrocinado pelos principais desenvolvedores de softwares e andróides da VR Discovery. As mainquests organizadas pela IA da VR Discovery permitia que Lis acompanhasse a jornada diária daqueles seres pós-humanos sintéticos controlados pela memória rizomática daquele adolescente sortudo. Para quem não tinha ideia do que Lis assistia, enxergava uma adolescente sozinha, sentada no canto mais inóspito da escola, vislumbrando a tela de seu celular, ignorada por quaisquer tipos de vida a sua volta.

VII

Todos aqueles transeuntes daquela avenida de nome estranho, naquela cidade que McGregor não lembrava muito bem o nome, lhe encantavam e lhe desafiavam. Nunca estivera em um lugar tão cosmopolita como aquele. A mutação genética permitia homens com traços felinos, mulheres com dois pequeninos braços a mais. Os implantes inorgânicos também possibilitavam a existência de transeuntes ciborgues, exibindo olhos biônicos, elmos de metal no lugar de cabelos, braços e pernas robotizados. Cada uma daquelas alterações condicionavam a habilidades distintas e a subjetividades singulares. Elas pareciam vestir aquelas diferenças como identidades tão significativas quanto o nome ou uma linhagem familiar. Enquanto caminhava ao lado de Elias, McGregor já cogitava substituir uma de suas mãos reais por uma daquelas robotizadas e multifuncionais. Ou seria mais adequado começar com um upgrade em seus implantes oculares?

VIII

Lis abriu o pacote de presentes para saciar a ansiedade de suas mães, sentadas no sofá da sala, abraçadas entre si. Sim. Era um VR Discovery. Sim. Precisava testá-lo imediatamente. Sim. Pulara em cima das duas mães, se emocionara, prometera que seria muito mais sociável do que era naquele momento. Ponto para a Orientadora Educacional, dizia o olhar de Sophia. Você tinha razão, espero, dizia os olhos marejados de Lilian. Desfrutaram de um jantar em família e Lis foi autorizada a testar seu novo aparelho, que carregava a bateria nesse meio tempo. Vestiu os óculos que automaticamente desembutiram os microfones e os fones de ouvido. Um menu de inicialização apareceu em sua visão, misturando o real com o virtual.

Novo jogo

 Gênero: masculino

 Primeiro nome: Liam

 Segundo nome: McGregor

IX

Elias se sentia satisfeito. McGregor era carne-nova e essas eram as mais fáceis de se converter. A ordem do dia fora: encontre alguém disponível a se criptografar, para ampliarmos a Divisão de Recrutamento da Comunidade Criptografada. Como toda sidequest, a ordem do dia nunca contava com direcionamento em mapas ou tutoriais autoinformativos da central VR Discovery. Procurar por CsOs dispostos a se criptografarem era uma tarefa que poderia levar longos dias de caçada e observação. Elias também imaginara que McGregor fosse mais resiliente. No entanto, bastou apresentar as possibilidades da vida em sidequests e ambos pareciam compactuar de grandes cumplicidades e de uma longínqua parceria.

A criptografia permite que você ande por aí, sem necessariamente ter um dono ordenando o que você deve fazer e o que você não deve fazer.

 O conceito de mundo aberto em contraponto à corrupção de todo um sistema institucional complexo provido pela matriz VR Discovery parecia atrair McGregor. Elias notou que o novato tinha uma predisposição à vida em experiências plurais, onde se prender a um pseudo-paraíso lúdico moldado por mainquests previsíveis não era seu objetivo ideal de vida.

Tecnologia alguma deveria ser monetizada! Não vamos permitir que a VR Discovery conduza os players e seus CsOs a uma vida previsível e limitada.

*

* Ricardo Celestino é professor de língua portuguesa e pesquisador em Análise do Discurso. Leitor visceral de quadrinhos e ficção científica desde a adolescência. Publicou o conto Orientação Sexual na antologia Eros Ex Machina: Robôs Sexuais, organizado pelo escritor Luiz Brás. Você pode ler outros textos não literários do autor em revistas acadêmicas especializadas em linguística e crítica literária.

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