Desenrolando o mangá

O mangá começou em rolo?!

 

Vasculhando a história do mangá, sabemos que possivelmente ele vem dos emakimono (rolos de pintura), arte japonesa muito antiga e datada mais ou menos no século XII com Chôjû-jinbutsu-giga (Pinturas satíricas de figuras de animais e pássaros), que supõe-se ser de Toba Kakuyû (1053 – 1150).

É uma obra de muita relevância para estudos, tanto de mangá quanto para arte, por apresentar peculiaridades representativas.

A pesquisadora Madalena Hashimoto, por exemplo, a considera um trabalho curioso, pois essa obra é “singular na história da arte japonesa, imiscuindo-se no mundo dos setsuwa (breves narrativas orais), onde animais metamorfoseados alegorizam virtudes e vícios humanos”.

Chôjû-jinbutsu-giga, animação feita pelo Studio Ghibli

Hashimoto observa também que essas imagens se constituem das linhas traçadas pelo pincel e de tinta sumi criando um desenho “linear delicadamente manipulado na espessura dos traços, modo chamado de hakubyô (“desenho branco”, sem cores)”.

Essas linhas hakubyô passaram a ser usuais em outras obras e também são encontradas nos mangás, sejam elas figuras de animais imitando seres humanos, quanto personagens humanos semelhantes a animais para demonstrar determinado tipo de personalidade.

Além das linhas e traços, que, por sua vez, não são utilizados pinceis, também nas penas que possibilitam as diferentes espessuras dos traços.

ChojuJinbutsuGiga

Chôjû-jinbutsu-giga

Outra peculiaridade interessante desses rolos de pintura é que não eram lidos totalmente abertos, a forma cômoda de se ler exigia o trabalho de desenrolar com a mão esquerda e enrolar com a direita, observando as imagens por partes como se fossem páginas de histórias em quadrinhos, o que nos remete ao mangá moderno e contemporâneo.

Lady oscar

Rosa de Versalhes

Cabe ainda comentar que alguns emakimono, como o Chôjû-jinbutsu-giga, são desprovidos de texto, são apenas imagens narrativas, porém a maioria dos emakimono posteriores ao Chôjû-jinbutsu-giga, as imagens estão conectadas com textos explicativos, conhecidos por kotobagaki.

É importante salientar que a ligação entre texto e imagem na arte japonesa é diferente da que ocorre no ocidente. Se no ocidente moderno tendem, imagem e texto, a aparecer de modo separado, no Japão, é difícil vê-los sem que estejam conectados, como menciona Ienaga, citado por Hashimoto: “rolos de pintura são a união artística da pintura e da literatura em forma de “livro ilustrado”. Mas não é um livro ilustrado em que ilustrações são subservientes à narrativa.

No caso do emakimono, as ilustrações são essenciais para a vida do livro”, em outras palavras, os japoneses dão importância para as imagens, às vezes, mais do que às palavras, e no mangá isso não é diferente, encontramos palavras e desenhos menores para enfatizar a sensação e emoção do personagem, ou onomatopeias que são os sons do silêncio.

sunday

Pequenas letras e metáfora visuais que enfatizam as sensações e emoções de uma cena

Outra relação próxima entre os emakimono e os mangás, são a estrutura gráfica, ou seja, não há limite de uma imagem dentro de um quadro, muitas vezes, essas linhas limitadoras são inexistente possibilitando o leitor passear e absorver uma sucessão de cenas, que por vezes se misturam dando maior liberdade à narrativa.

kimono e background 11a

Ausência de alguns quadro, possibilitando uma narrativa livre

Os ângulos também provém das características dos emakimono, pois são vistas, conhecidas como o “olho de pássaro”, em que observamos as cenas de cima, permitindo que vejamos todo o cenário e personagens. São vistas aéreas, em que os telhados são retirados (fukinuki yatai), ou seja, as coberturas dos aposentos são excluídas do desenho para que o observador tenha conhecimento sobre o que ocorre em seu interior.

Desenrolamos o mangá aqui para que se possa compreender um pouco mais a sua possível origem. É claro que houve outras influências como as xilogravuras do ukiyo-e, já apresentado nesse post, além de quando se abriram dos portos na Era Meiji (1868 – 1912), com a entrada do ocidente e sua arte e cultura.

Mas isso é para um outro post…

As informações do texto foram retiradas de:

HASHIMOTO, Madalena. Pintura e escritura do mundo flutuante: Hishikawa Moronobu e ukiyo-e Ihara Saikaku e ukiyo-zôshi. 1ª ed. São Paulo: Hedra, 2002.

NATSUME, Fusanosuke. Manga wa Naze Omoshiroi no ka: sono hyôgen to bunpô. (Por que mangá é tão interessante: suas expressões e gramática). Tokyo: NHK raiburari, 1997.

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2 respostas para Desenrolando o mangá

  1. Quiof disse:

    Ainda teve os kibyoshis, que uniam texto e desenhos, Adam L. Kern considera como precursor dos mangás. Os emakimonos deram origem aos kamishibais, de onde vieram alguns mangakás como Shigeru Mizuki, Sampei Shirato e Goseki Kojima

  2. Stefano disse:

    Soube que a HQ japonesa tem parentesco com a chinesa e coreana! Na china e coreia a HQ se chama “manruá” .

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