A importância do silêncio no mangá


No meio high-tech, das luzes de neon, das mídias visuais nas ruas, os japoneses também são conhecidos como um povo calmo, tranquilo, zen. Essa cultura vem de uma de suas estéticas, o Ma, presente em diversas expressões da cultura japonesa e também no mangá.

O ocidente obteve conhecimento do ma através de uma exposição em Paris, em 1978, “Ma: Espace-Temps du Japon”, organizada pelo arquiteto Isozaki Arata. A exposição era composta por objetos artesanais, instalações, fotografias, objetos do cotidiano, apresentações de dança e teatro, mostras de vídeos e filmes, todos compostos de forma que o público circulasse de uma obra a outra e explorasse através do corpo um “espaço-tempo” incitando os sentidos.

Com esta exposição, o interesse pelo Ma começou a se desenvolver através de pesquisas por parte dos ocidentais e, para os japoneses, talvez, tenha sido uma redescoberta de algo que até então não se apresentara de maneira visível, de forma sensitiva e perceptiva, ou seja, através da audição, do visual e do tato.

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Ma: Espace-Temps du Japon

Essa estética foi nomerada no período Edo (1603-1868), através das artes marciais, porque a forma certa em utilizar o Ma garantia a vitória, com a estratégia de “roubar o Ma alheio”, ou seja, saber observar o intervalo de distração do oponente possibilitando a ação do golpe, que muitas vezes poderia ser fatal.

O Ma  também está presente nos mangás. O nome dado à sarjeta ou hiato, que são os espaços entre os quadrinhos numa página, são chamado de Ma no Japão. Eles possuem o mesmo significado que no ocidente, é a pausa ou intervalo oferecido ao leitor para que haja um respiro na narrativa e dependendo do tamanho desse espaçamento, a pausa ou intervalo, é maior.

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O Ma também pode estar relacionado com o budismo, principalmente, a estética fundamentada na “transitoriedade e incompletude”, isto é, os vestígios que se encontram “entre a forma e a não forma, ou entre o som e o silêncio”, em outras palavras, no “entre algo”.

O Ma é tão rico em significados mas que carrega uma ambiguidade: o sentido objetivo (uma certa unidade de medida, um ambiente separado por biombos ou portas de correr – fusuma) e o subjetivo (um tempo apropriado, um bom ou mau timing para um certo fenômeno). Ma não apenas é “algo” inserido no objeto como descrição da realidade, mas também implica em significados, é um paradigma “religioso-estético” que distingue o universo objetivo do universo subjetivo, e ainda, distingue espaço e tempo.

O mangá Clover (1999), das meninas do CLAMP, pela sua ousadia gráfica de quadrinização mostra a presença do Ma encontrado no layout das páginas. O corpo do mangá é preenchido predominantemente por branco e preto, linhas finas e os objetos referentes à máquinas (fios e engrenagens). Existe um momento que não vemos estas linhas. Elas somem do corpo do personagem e se inclinam para uma “pausa” da ação, possibilitando absorver a serenidade que ocorre naquele momento com o personagem.

Outro momento que nos deparamos com o Ma nas linhas, é quando alguns personagens transformam parte de seu corpo em máquina. A construção da máquina no corpo se dá lentamente, como se fossem câmeras cinematográficas e as linhas começa a dar forma à máquina, como um “entre-espaços”.

Encontramos o Ma também, nos quadros e páginas dos volumes. Podemos observá-lo em uma página preta e apenas um quadro ou uma frase, ou, numa outra é composta pelo branco e uma imagem. Às vezes, uma página avança para a outra com o intuito de valorizar esta pausa. Existem espaços irregulares de um quadro com outro, um “vazio” ora maiores ora inexistentes, reforçando a desconstrução da simetria. Encontramos ainda a ausência de quadros, espaços fragmentados que sugerem o Ma, colocando o leitor em pausa visual, mas em seguida o remete a completar a imagem na sua mente. É disposta também uma ruptura de um quadro através de outro sugerindo o “entre-espaço”.

O conceito de Ma vem de pressuposições ocidentais, pois os próprios japoneses não sabem como conceitua-la. Para eles, o Ma está incorporado e faz parte do cotidiano, é um elemento abstrato e mesmo os pesquisadores japoneses reconhecendo sua existência, não o consideram possível de ser conceituado. Mesmo assim – e talvez exatamente por isso – é um elemento importante a ser observado na leitura de um mangá.

Para quem se interessou pelo tema recomendo o livro Ma: entre-espaço da arte e comunicação no Japãoutilizado como referência para esse post.

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Sobre Mochi

Atingiu o estado de Olhos Grandes nas ilhas do Oriente Silencioso.
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