Colorização e letreiramento em The Wicked + The Divine

Cor e som dando vida a uma mídia estática e silenciosa.

Em qualquer edição de The Wicked + The Divine, série da Image Comics aclamada pela crítica, a primeira coisa que você vê é espetáculo e som.

A arte de Jamie McKelvie carrega de vida as histórias de deuses reencarnados como estrelas pop, que vivem intensamente uma breve existência de dois anos. Quando um deles toca em um show de rock, a energia explode por toda a página, como se estivéssemos em um lugar barulhento e cheio de efeitos especiais. Adicione a isso os diálogos ora espirituosos, ora sinceros, que o roteirista Kieron Gillen põe na boca de seus personagens, e o resultado é um trabalho inteligente de dois criadores no auge do seu talento. Mas sem a contribuição do colorista Matthew Wilson e da letreirista Clayton Cowles, seria tudo meio sem tempero.

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Embora raramente recebam o mesmo reconhecimento que artistas e escritores, os coloristas e os letreiristas são fundamentais para a qualidade das histórias em quadrinhos. Os coloristas são como os cinematógrafos da narrativa gráfica, colocando matizes sobre a arte para equilibrar a atmosfera e o estilo. Os letreiristas podem ser vistos como designers de som, criando fontes, efeitos e balões de fala para materializar o som em uma mídia silenciosa. Ambos trabalham nos bastidores, mas com o aumento da visibilidade da industria dos quadrinhos, esses profissionais buscam mais reconhecimento.

Nos quadrinhos, se convencionou dizer que quando a colorização e o letreiramento são bem feitos você não os nota, já que se imagina que essas duas funções devam apenas se fundir com o arte. Mas para além das convenções, tanto a cor quanto os balões de fala podem acentuar o lado mais autoral dos quadrinhos, transitando entre a invisibilidade e a experimentação.

Young_Avengers_Vol_2_5Matthew Wilson trabalhou no Zylonol Studios, uma empresa de separação de cores. Lá ele digitalizou arte original (em branco e preto) e fez a separação das cores de arte que já chegava pintada (a mão). Esse processo de separar as cores para gerar matrizes de impressão (no mínimo quatro matrizes – preto, amarelo, magenta e ciano), era necessário antes das mesas digitais.

Hoje, como a colorização é feita nas diferentes camadas de um software, as matrizes de cores separadas são geradas automaticamente no final do trabalho.

Wilson se especializou na colorização digital passando por títulos como Demolidor e Viúva Negra. Em 2013 se juntou a Gillen, McKelvie e Cowles para trabalhar no título dos Jovens Vingadores, e no ano seguinte essa mesma equipe lançou o trabalho autoral The Wicked + The Divine.

No início desse novo projeto a equipe optou pelo caminho experimental, buscando criar uma assinatura de cores para os deuses personagens. O consenso era que os poderes deles precisavam saltar das páginas da história em quadrinhos, e por isso Matthew Wilson limitou a paleta de cores de todas as partes que não mostravam as habilidades dos deuses. O contraste amplificava a sensação de deslumbramento quando as cores explodiam na página.

Na edição número 8, a protagonista adolescente Laura Wilson vai a uma rave liderada pelo deus Dionísio. Kieron Gillen queria imagens que comunicassem a sensação de estar sob o efeito de drogas em uma festa. Wilson então criou uma difusão de matizes para eliminar as linhas do desenho e assim comunicar a velocidade e a pulsação da música. “Mesmo quando os deuses lutam entre si, nossa ideia é que o resultado seja diferente de um típica luta de super-heróis”, explicou Wilson. “Nós usamos como referência muitas fotografias de moda, vídeos de música e instalações de arte para compor a estética dos deuses e de seus poderes”.

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Mas outras ideias são mais complexas de desenvolver. “Kieron [Gillen] escreve essas idéias muito abstratas, evocando imagens inusitadas, que às vezes são um pouco difíceis de retratar”, disse Wilson. “O roteiro dele vai pedir algo assim –  poderes que são como ondas de nada se derramando sobre a multidão – e então eu tenho que descobrir a  cor de uma onda de nada!”.

A forma como os personagens falam também muito importante, e esse é o oficio de Clayton Cowles, que já trabalhou como letreirista em títulos como Bitch Planet (também da Image Comics) e Batman. Cowles diz que sua filosofia para trabalhar o letreiramento é “melhorar, não distrair”, embora seu trabalho em The Wicked + The Divine ofereça muitas oportunidades para ousar. Um exemplo de efeito de som tratado de forma mais invisível é o recorrente “KLLLK” de um estalar de dedos, que inicia a narrativa e se repete em muitos de seus momentos chave.

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16Já para os diálogos, enquanto os personagens civis falam em balões tradicionais,  as vozes dos deuses apresentam as mesmas cores que Wilson usa para seus respectivos figurinos. Cowles também usou estilos de letras personalizados para personagens específicos, como Woden, um assustador deus inspirado na iconografia do Daft Punk. “Kieron queria que a voz de Woden imitasse o som de um sintetizador”, disse Cowles. “Eu adicionei alguns detalhes, como fazer os balões quadrados … Eu uso essa mesma abordagem  para vozes de personagens e efeitos sonoros. Através de fontes, formas e cores, tento representar graficamente a maneira como eles soam “.

Apesar do sucesso desse e de outros títulos que tem o mesmo tipo de refinamento artístico, a compensação financeira ainda é instável. A DC Comics incluiu os coloristas no seu programa de pagamento de royalties há alguns anos, mas no mesmo período as porcentagens e os valores pagos diminuíram, mesmo para títulos que vendem bem. E ainda é muito comum que coloristas e letreiristas sejam negligenciados pelos editores, se comparados aos escritores. Muitas vezes esses profissionais ficam sabendo pelo Twitter se o título em que estavam trabalhando foi cancelado.

A contrapartida é que é cada vez mais comum que coloristas sejam entrevistados por sites especializados e que letreiristas tenham muitos seguidores nas redes sociais. Essa visibilidade que mostra que o processo de trabalho desses profissionais está levando as editoras a buscar projetos que tenham esse refinamento estético, mesmo nos títulos comerciais de super-heróis.

 

(Este post é uma adaptação da matéria assinada pelo escritor Asher Elbein para o The Atlantic).

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2 respostas para Colorização e letreiramento em The Wicked + The Divine

  1. Pingback: Colorização e letreiramento em The Wicked + The Divine | O LADO ESCURO DA LUA

  2. Comic Review disse:

    Esse Clayton Cowles é um monstro. Ele trabalhou também em Visão e atualmente faz o letreiramento de Mister Miracle. Acho o trabalho dele sensacional nas páginas de abertura das edições. Excelente, texto!

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