BoJack Horseman e a depressão na cultura pop

O último programa de TV que me fez chorar como um bezerro não foi uma novela ou um melodrama e sim um desenho animado sobre um ator em decadência que, só por acaso, é metade homem, metade cavalo.

 

*Spoilers de todas as temporadas no post. Só leia se você assistiu TODOS os episódios*

Por Nathalie Lourenço*

O seriado em questão é BoJack Horseman, produção original da Netflix que chegou à sua quarta temporada em setembro deste ano. Centrado em uma Hollywood onde pessoas dividem espaço com animais humanizados, o desenho acompanha o personagem título, estrela de um famoso sitcom familiar nos anos 90 chamado Horsin’ Around, em que um cavalo adotava e criava 3 órfãos. Durante as 3 temporadas anteriores, acompanhamos BoJack em sua tentativa (bem-sucedida) de voltar a ser relevante e (mal-sucedida) de se tornar um ser humano/equino melhor.

Talvez BoJack Horseman seja um dos melhores retratos da depressão na cultura pop. Ele está constantemente machucando todos à sua volta, se sentindo mal com isso e tentando melhorar. Mas, por alguma razão, termina sempre recaindo nos mesmos hábitos e buscando refúgio no afastamento em drogas e bebidas. Não por acaso, o mais perto que temos de um antagonista na série é basicamente a felicidade personificada: Mr. PeanutButter, um homem labrador, otimista, gentil, longe da angústia que vemos em BoJack ou Diane, por exemplo.

Na quarta temporada, a família se torna o tema central. Em seus pontos mais baixos na trama, o tema já existia como pano de fundo: BoJack sempre buscou refúgio em assistir as velhas fitas de Horsin’ Around: a família estereotipada, com problemas que podiam sempre ser resolvidos nos 20 minutos de um episódio. Com a morte de Sarah Lynn no fim da terceira temporada, que interpretava uma de suas filhas adotivas, causada de certa forma pelo próprio BoJack, até mesmo esse refúgio ganha um gosto amargo.

Curiosamente, a fórmula da família improvável vivendo sob o mesmo teto se concretiza na vida real de BoJack, com a chegada de HollyHock, uma garota de 16 anos que bate à sua porta em busca de seus verdadeiros pais. Pouco depois, Beatrice, a mãe do personagem, passa a viver com eles, após ser expulsa do asilo onde foi colocada.

As duas fazem um contraponto interessante: Hollyhock é boa e doce, talvez a mais madura dos três, constantemente colocando BoJack no caminho certo e despertando o melhor nele. Beatrice sempre foi distante emocionalmente abusiva com BoJack, desde que ele era criança, fato que desperta rancor no filho apesar do estado fragilizado da mãe. Essa trinca é a responsável pela alta carga emocional da temporada.

HollyHock é fonte de ansiedade constante. BoJack quer ajudar e protegê-la, mas a ideia de arruinar tudo (como fez com Sarah Lynn, Todd e outros) o apavora. Isso tudo desperta dois efeitos em BoJack. O primeiro, esperado, é a rota de sempre: a fuga e a bebida. No episódio 6, um dos mais reveladores da série, entramos na cabeça de BoJack e somos forçados a ouvir por quase 20 minutos  um ciclo de ódio a si próprio, impulsividade e arrependimento. Ao fim do episódio, ele é confrontado pela garota e acaba por descobrir que ela também escuta em sua cabeça uma voz como aquela. Outro motivo de preocupação: será que a miséria dele é hereditária?

O outro efeito de HollyHock é positivo. Ao compartilhar o mesmo DNA que ele, e, ainda assim permanecer boa, ela é ao mesmo tempo um exemplo e uma motivação para fazer melhor. Além de fornecer uma espécie de alívio existencial.

“A vida não tem um objetivo. Isso é o que existencialistas chamam de “a angústia da liberdade”. Temos, portanto a definição alternativa para o que é um jogo: qualquer coisa que proporcione um alívio temporário da angústia existencial. (…) é por isso que, quando alguém atinge seus objetivos, corre o risco de que a angústia existencial retorne antes mesmo que a emoção da vitória surja: a angústia de ser jogado imediatamente de volta na incômoda questão de o que fazer com a vida.”

Escreve Brian Christian em O Humano mais Humano, e podemos ver essa questão no protagonista.

A busca pela mãe da garota dá a ele um propósito, pela primeira vez um que não é egoísta. Aqui vale lembrar que a pior crise do personagem acontece quando ele alcançou tudo o que estava buscando na temporada anterior (a indicação ao Oscar) e se deu conta de que nem assim conseguia ser feliz. HollyHock dá a ele a chance de ser importante e útil. E desta vez ele se importa o suficiente para não estragar essa oportunidade. Ao encontrar a chave para o passado de Hollyhock, prova para si mesmo que pode ser melhor.

Ao contrário de Horsin’ Around, não existe família perfeita, ou finais com risadas pré-gravadas em BoJack Horseman, mas isso é o mais próximo de um final feliz que podemos esperar.

 

*Gosta de letrinhas em livros, quadrinhos e na sopa. De vez em quando, escreve umas groselhas aqui.

Anúncios

Sobre theredshirts

Blogueiros convidados ou que se convidam. Fale com a gente em nossa página no Facebook.
Esse post foi publicado em Red Shirts e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s