Mangá e animê na arte contemporânea japonesa

GEro tan

Tan Tan Bo Puking – a.k.a. Gero Tan. Técnica: acrílico sobre tela. Dimensão: 360 X 720 X 6,7 cm. Ano: 2002. Obra adaptada do mangá Ge Ge Ge no Kitarô (1966-70) de Shigeru Mizuki.

Mangá e animê em museus?

Já nas décadas de 50 e 60 a Pop Art enfrentava a questão “qual é o lugar do artista e do seu produto?”, com expoentes como Andy Warhol e seu efeito “linha de produção”, ao criar mais de vinte obras repetidas baseadas em uma única foto da atriz Marilyn Monroe.

Outro expoente, Roy Lichtenstein, procurava “um estilo com que se sentisse confortável ou que fosse reconhecidamente seu”, deparando-se com o estilo das histórias em quadrinhos. Ele buscava por cenas dramáticas, pelo estilo gráfico das letras e dos balões e pelas retículas encontradas nas histórias em quadrinhos, ou seja, procurava trabalhar com a mesma linguagem visual das HQs.

Décadas depois, em 1990, no Japão, formou-se um novo estilo de arte conhecido como Neo Pop, com trabalhos semelhantes ao da Pop Art, no ocidente. Os artistas do Neo Pop tinham como recurso uma ideia já existente e a partir dela seria concebido outra interpretada num contexto diferente. A obra era “[…] adaptada e modificada e, como citações de arte tradicional, servia como material disponível a partir do qual gerava, num processo de mostras individuais, imagens contemporâneas em sua própria artificialidade”, emergindo de um mundo visual como a televisão e o computador.

Alguns artistas japoneses contemporâneos como Mr. Makoto Aida e Hideomi Fukuchi se apropriaram de elementos e linguagens do mangá e dos otaku para fazer a sua arte, mas o artista Takashi Murakami foi e é um dos artistas contemporâneos mais polêmicos tanto no meio artístico, japonês e ocidental, como da cultura pop japonesa, pois, se para alguns ele não é artista para outros eles não é mangaká.

Estrategicamente Takashi Murakami mostra com precisão como a “arte” pode funcionar mediante um projeto com objetivo fixo e como sendo ela “[…] um conglomerado de criatividade, produção, distribuição, economia, teoria, marketing e não menos a expressão da contemporaneidade […]” podem caminhar juntos.

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Obra: Kawaii!! Vacance d’été Técnica: tinta acrílica sobre tela. Dimensão: 300 x 900 x 7 cm. Ano: 2002

Desde o início de sua carreira Takashi Murakami pretendia ser bem sucedido comercialmente. A pretensão era trabalhar com entretenimento, mas sua vida tomou direções diferentes. Foi como artista que ele conquistou o sucesso tanto na indústria da arte quanto na do entretenimento, suas estratégias de pesquisa foram desde o mercado ao tipo de pintura que deveria fazer para causar efeito. Para ele, até uma entrevista pode ser considerada boa para ajudar nos negócios.

Esse tipo de pensamento também pode ser encontrado dentro da indústria e mercado do mangá e animê: quanto mais se pode ser comercializado com outros produtos, melhor ele será visto e consumido na sociedade.

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Miss Ko2 (Senhorita Ko2) Técnica: fibra de vidro e ferro, tinta óleo e acrílica, Dimensão: 187,9 x 88,9 x 6,3 cm. Ano: 1997

Em entrevista para o Journal Contemporary Art, em 2000, o artista diz esperar que, um dia, o mangá, o animê e os games convirjam para a arte e lamenta que essas subculturas funcionem como empresa e a arte não. Para ele, se essas formas culturais caminhassem juntas poderiam dar existência a uma nova representação de arte.

Assim são suas obras, com muito conteúdo para ser observado e compreendido. O artista retira elementos dos mangás, animês e games com o objetivo de defender a luta de seus consumidores discriminados.

A importante relação das obras de Murakami com os animês e mangás, que geraram a exposição Super Flat (sob curadoria do próprio artista,) surgiu do comentário entre dois galeristas em Los Angeles ao observar uma pintura de Murakami: “How about this painting? It’s super flat, super high quality, and super clean!”, cueja tradução é: “Que tal esta pintura? Ela é super plana, alta qualidade e super limpa!”.Apoiado nessa reflexão, o artista entendeu que os ocidentais viam a cultura japonesa por essas vias.

Vale observar que nesse período os trabalhos eram produzidos através da computação gráfica e, como se desenvolveram monitores planos, deu-se o auge dos animês e mangás, o progresso da moda, ou seja, uma geração flat (plana). A influência principal sobre o conceito de super flat foi a da cultura japonesa dos animês e mangás, não só por serem meios bidimensionais, mas porque também atraíam os artistas “[…] para um reino mágico divorciado da realidade”.

Entretanto, essa realidade flat esbarrou no declínio quando o pop começou a enfraquecer, o que provocou o artista a compreender o que era flat e porque tinha que ser super. Foi quando Murakami redigiu o Manifesto Super Flat que concebeu um movimento cujo estilo se revela pela influência dos mangás e animês.

discípulos para análise

Takashi Murakami. The 500 Arhats (White Tiger – detail) 2012. Acrylic on canvas mounted on board 302×10,000cm Private collection

Pode-se dizer então, que o Super Flat ganhou espaço e se desenvolveu junto à cultura otaku dos mangás, animês e games no campo das artes visuais contemporâneas e, sobretudo, as obras de Takashi Murakami que admite sua influência por estes meios de entretenimento, buscando romper a dicotomia entre “arte” e “mercado”.

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Atingiu o estado de Olhos Grandes nas ilhas do Oriente Silencioso.
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