Causos Quadrinheiros

Diversão e Rigor é nosso mote. Mas antes de sermos Quadrinheiros, éramos apenas fãs, palavra que deriva de fanático. Portanto temos uma relação passional com quadrinhos. Aqui estão algumas aventuras e desventuras envolvendo essa paixão.

Revisão literária por Nathalie Lourenço. Conheça os textos dela aqui. 

Leitura ritual

Por John Rolland

Chovia. A água tinha derrubado galhos. Os galhos tinham derrubado fios elétricos e o resultado era que a minha casa estava em escuridão total.

Sozinho, resolvi preencher o tempo com as poucas coisas que continuavam a funcionar sem a bendita eletricidade: Um celular com 20% de bateria, algumas velas e uma pilha de quadrinhos. Estava claro que a bateria do telefone seria suficiente para poucas páginas – e provavelmente ia apagar bem na melhor parte da história. Optei pela saída mais analógica, deixar duas velas, uma em cada ombro para iluminar meu último volume de Hellblazer Infernal. Parecia um ritual digno de Constantine. Sob vento forte, frio, chuva, silêncio e solidão, tive uma das experiências mais marcantes com o selo Vertigo. O Filho do Homem é uma história bizarra, assustadora e contém aquele toque Garth Ennis de violência, ela puxa para um horror mais clássico da série, inclusive lembrando e referenciando em alguns momentos a fase de Jamie Delano. Era difícil enxergar as páginas escuras da HQ sob as luzes amareladas, que se moviam com cada sopro.

Todo o cenário daquele dia contribuiu para uma atmosfera única na leitura desta edição de Hellblazer. Minha lembrança da história vem sempre acompanhada de sombras inquietas e barulho de chuva. Tudo isso potencializou a leitura e o clima do mundo de John Constantine,  e naquele momento eu finalmente entendi o motivo do que está escrito na capa número 1 da série: “Do macabro mundo do Monstro do Pântano”.

 

Do Céu ao Inferno e para o Céu novamente

Por Nerdbully

Não era Natal, era só um dia qualquer. Ou quase. Naquele dia, cheguei da escola e encontrei um cesto cheio, CHEIO, de gibis. Todos de super-heróis, Marvel e DC.

O próximo quadro vocês podem adivinhar: Devorei aqueles quadrinhos avidamente, sem sequer me importar de estarem fora de ordem e incompletos. No meio de tudo aquilo, a imagem mais emblemática da Crise das Infinitas Terras que me traumatizou: a morte de Barry Allen. Demorei algum tempo para entender o que aquilo significava. As palavras de Barry como se estivesse perdendo sua consciência, sua identidade, e desintegrando-se…

Mais ou menos nessa época comecei a minha própria coleção de gibis, que foi ganhando cada vez mais espaço em casa. Colecionei dos 8 até por volta dos 16 anos, quando, por algum motivo, daqueles que se perdem no tempo, parei. Os gibis ficavam em um quartinho bagunçado, mas não pense que eu os esqueci por lá. Volta e meia ia lá visitá-los, para reler ou folhear a minha coleção.

Até que um dia (também não era Natal) abro a porta do quartinho e a bagunça não está mais lá. Pior: nem os quadrinhos. Fui até minha mãe, a guardiã daquele lugar sagrado para buscar respostas. Não gostei nem um pouco da que recebi: ela tinha jogado tudo fora. Oito anos de leituras, recordações e aventuras no lixo, junto com cascas de ovo, garrafas PET e sabe-se lá mais o quê. Se eu teria revirado o lixo atrás das revistas, nunca saberemos. Quando descobri a tragédia, ela já tinha acontecido há duas longas semanas.

Por quase 20 anos pensei que aqueles quadrinhos estavam perdidos para sempre. Até que recentemente meus pais se mudaram da nossa antiga casa e, na mudança, eis o que descubro… não toda, mas parte considerável da coleção que, de alguma forma, sobreviveu à minha mãe. Não sei se eles criaram vida e se esconderam na época, se algum duende nerd se compadeceu e os resgatou, só sei que estavam lá A Morte e o Retorno do Super-Homem e também A Queda do Morcego, Wolverine, X-Men 2099 e Homem-Aranha 2099 entre outros. Um verdadeiro final feliz e, espero, duradouro.

Vamos torcer para que minha mãe não os encontre de novo.

Foto tirada no dia que reencontrei meus gibis, 23/04/2016

 

Contexto, impacto emocional e nostalgia

Por Picareta Psíquico

Eu estava indo mal na escola. É claro que isso não tinha nada a ver com o fato de eu comprar tudo que a Editora Abril publicava de Marvel e DC, quadrinhos impressos em papel de baixa qualidade e no formato pequeno que chamávamos de “formatinho Abril”. Juro.

Acontece que justo eles, os quadrinhos, iam ser os mais afetados pelas minhas notas baixas. Afinal, eles eram o principal destino da mesada que minha mãe estava ameaçando cortar.

O que resultava num problema grave. Mesmo que eu começasse a estudar, as notas mais altas ainda demorariam algumas semanas para aparecer, e enquanto isso eu perderia várias edições. Nessas horas, até um mau aluno vira um bom advogado. Fiz um acordo com ela: eu continuaria comprando os quadrinhos todos os meses, mas não leria nenhum. Ela guardaria todos e eu só os leria bem depois. Quando meu boletim provasse por A + B que meu desempenho escolar tinha melhorado.

De todos os quadrinhos que eu comprava, um que me chamava a atenção em especial era o título solo do Wolverine. As histórias dele usando a identidade de Caolho, no submundo da cidade de Madripoor, eram muito boas (roteiro do Chris Claremont e desenhos do grande John Buscema). Comprar e não poder ler era uma tortura, mas eu descobri onde minha mãe guardava os quadrinhos e, sem que ela soubesse, eu devorava clandestinamente aqueles gibis.

A soma do papel de baixa qualidade, dos roteiros cheios de becos escuros, ilegalidades e segredos, do formato pequeno e claustrofóbico da revista, da clandestinidade da leitura proibida, criaram um contexto único. A emoção que aquelas leituras me proporcionaram não é possível reproduzir. Qualquer tentativa de comparar outras histórias lidas em outros momentos da minha vida com aquelas será injusta.

A nostalgia positiva é algo que até hoje me preenche de lembranças e saudade, mas sou consciente da peculiaridade de cada momento e de cada contexto, e por isso não caio na nostalgia negativa que vê no passado um ideal que não volta mais. Sou feliz por ter tido aquela experiência, mas também sou hoje o resultado dela e de uma infinidade de outras vivências. Que venham novas leituras e novos contextos!

*

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Sobre Nerdbully

Mestre do Zen Nerdismo.
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