As ciências exatas podem contribuir para os quadrinhos?

 Leia e descubra.

As ciências exatas e os estudos de tecnologia são temas que pouco aparecem no mundo dos quadrinhos a não ser de maneira muito vaga, quase como uma espécie de magia (salvo raras exceções), apesar de existirem alguns universos de ficção científica que convergem com esses mundos, ainda falta algo. Apesar das histórias tratarem vagamente de temas dessas áreas, as discussões dos leitores pouco recaem sobre tais assuntos, talvez pela constante afirmação de ser algo chato ou cansativo e dessa forma não causam interesse. Podemos ver muitos conceitos aplicados em histórias, às vezes de forma inconsciente, porém a lógica de alguns aspectos da própria mídia e das histórias são parecidas com as de outros sistemas.

O The Police talvez não saiba o nó que essa imagem dá na cabeça de um estudante de eletrônica digital.

Diversos quadrinhos tratam de temas políticos, isso é comum ao ponto de não nos importarmos em ver personagens usando a bandeira de seu país como uniforme. Transmetropolitan, Guerra Civil, V de Vingança, Os Invisíveis deixam as posições políticas de seus autores evidentes, não que seja algo ruim, apenas um fato fácil de constatar pois acontece de forma muito natural.

Um ponto engraçado é ver quando Moore e Morrison falam de dados e informações e não nos damos conta de que eles falam conceitos muito próximos de um banco de dados – claro que não nas partes técnicas, mas no conceito – inclusive lembrando em alguns pontos o documento Relational Model of Data for Large Shared Data Banks publicado em 1970 pelo cientista Edgar F. Codd.

As HQ’s podem ser relacionadas com os conceitos aprendidos em uma aula de banco de dados. Uma das primeiras coisas que se aprende é a definição de dado, informação e conhecimento, com esses conceitos em mente fica interessante pensar num quadrinho.

Dado: O dado é algo que sozinho que não serve para nada, tal qual um nome, um endereço ou a idade de alguém.

Ex: João, José, Maria, 15 anos, 17 anos.

A informação é a junção de dados que geram algo que pode nos dizer alguma coisa, como por exemplo saber que alguém tem tal idade, está empregado e tem tal renda média.

Ex: Pedro Henrique / 19 anos / estagiário / média salarial 1000 reais

Com essa junção de dados temos alguma informação sobre Pedro Henrique.

O conhecimento é a conclusão que se pode tirar dessas informações, utilizando Pedro Henrique que possui 19 anos e é estagiário com tal faixa salarial, podemos analisar em qual público alvo ele se encaixa e assim ver quais tipos de produtos e serviços são mais adequados para vender para ele.

Agora pensando nos dados de um quadrinho, tais como balões, texto, desenhos, ou seja, diversos componentes que juntos criam diversas informações que utilizamos de base para  tirarmos nossas próprias conclusões e interpretações. Temos narrativas com os estilos mais diversos possíveis, porém as possibilidades de se contar uma história em quadrinhos certamente não acabaram e temos ainda diversas formas de reorganizar dados para criar novas informações para gerar um enorme conhecimento aos leitores.

Outro aspecto que é sempre tratado nos quadrinhos – tanto nas histórias quanto pelos teóricos – é a linguagem, a linguagem dos quadrinhos, linguagem como magia. A programação pode ser tratado como uma conversa entre o ser humano e o computador, você ordena e ele compila e executa seus comandos, as relações humanas de trabalho são mais próximas à programação do que imaginamos.

No software de programação você diz “escreva: Os Quadrinheiros!”, já para seu funcionário você pode dizer para que escreva “Os Quadrinheiros!”, ou seja, se você seguir as regras em ambos os casos o resultado é o mesmo, ambos vão escrever e você poderá ler “Os Quadrinheiros!”.

No caso do computador o que vai determinar se a tarefa será realizada ou não é usar todas as regras da linguagem corretamente; já com seu funcionário existem outras variáveis como a forma que pede, o respeito, entre diversas outras coisas, porém a linguagem é algo em comum nos dois casos. Cada linguagem tem suas particularidades, porém entendendo a amplitude e o poder que ela possui, você pode aplicar sua lógica não só em sua fala ou em seus quadrinhos, mas em qualquer área que deseje atuar.

“Linguagem” Portugol, utilizada geralmente para aprender a lógica da programação.

As ciências exatas e principalmente as partes de tecnologia fazem falta em discussões dentro dos quadrinhos, as possibilidades são enormes o que está faltando no momento é explorar essa outra visão, este outro túnel de realidade para se criar novas histórias em quadrinhos.

Apesar de parecer um mundo complicado, poucos exemplos como a programação e o banco de dados já nos mostram que com novas visões, novas possibilidades podem vir e criar algo interessante dentro das HQ’s. Então coloque um pouco de lado o bom e velho “pra que vou usar isso na vida?” e dê uma chance para coisas que parecem distantes, porém podem complementar muito seu conhecimento e sua visão, tanto do mundo quanto dos quadrinhos…

 

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Sobre John Holland

Procurando significados em páginas de gibi enquanto viaja pelos trilhos do conhecimento e do metrô. Sempre disposto a discutir ideias e propagar os quadrinhos como forma de estudo, adora principalmente a Vertigo, está sempre disposto a conhecer novos quadrinhos e aprender o máximo de coisas possível!
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5 respostas para As ciências exatas podem contribuir para os quadrinhos?

  1. xjoaogabrielx disse:

    Ah, queria ter a mesma criatividade para escrever textos que vocês… =)

    Muito legal essa abordagem. Me lembrou um livro do Gian Danton, Watchmen e a Teoria do Caos, que saiu pela editora Marca de Fantasia (que aliás possui ótimos livros, vale a pena conferir).
    http://www.marcadefantasia.com/livros/quiosque/watchmen/watchmen-2ed.htm

    Nele, o autor analisa Watchmen pelo aspecto da divulgação de teorias científicas através dos quadrinhos. É um viés que pouco vemos por aí sendo abordado, mas muito interessante.

    Parabéns pelo artigo John. Mandando bem, como sempre…

    • John Holland disse:

      Muito obrigado! 😀
      Vi sobre esse livro uma vez, mas não cheguei a ler. Tenho vontade de conhecer, esses livros sobre quadrinhos geralmente são interessantes, o Goes vive me recomendando “Watchmen e a Filosofia”. Tem um sobre Transmetropolitan que só é vendido em mídia digital e em inglês, se já tem muito conteúdo legal no Brasil, procurando lá fora encontra muito mais.

      Fico feliz que tenha gostado da abordagem do artigo, valeu hehe

  2. Um quadrinho que notei essa proximidade com exatas foi o do arco “Som e Fúria” do Demolidor de Mark Waid. O roteirista usou conceitos de Telecomunicações para descrever as condições físicas em que o vilão Garra Sônica se encontrava. O personagem era nada mais, nada menos do que uma representação da Série de Fourier, com várias versões de ondas (sinais) harmônicas de si mesmo. curti muito quando li esse material!

    • John Holland disse:

      Sim, verdade. Super legal quando os autores utilizam esse tipo de conhecimento e ideia na construção das histórias, ainda mais no Demolidor do Mark Waid que é tão leve e divertido, ali ele mostra que esse tipo de coisa não precisa ser apresentada de forma densa.

  3. Pingback: Quando você não é o público-alvo | Quadrinheiros

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