Lições do Surfista Prateado: menos HQs, mais valor

surfista-prateadoO que eu aprendi com o Arauto de Galactus sobre vínculos e desapego.

Por Maurício Kanno*

O Surfista Prateado é personagem clássico dos quadrinhos da Marvel e sempre foi dos meus favoritos. Trabalha questões muito profundas sobre Inconformismo, Liberdade, Amor e Vínculos.

Afinal, de fato, Norrin Radd, antes de ser a figura cromada com poderes cósmicos, ficava sempre se martirizando em seu planeta perfeitinho – civilização avançada tecnologicamente, tranquilidade, paz, etc. – sobre a falta de anseios de seu povo por buscar algo novo, por buscar algo de fora, por evoluir ainda mais de alguma maneira. Ele questionava a estabilidade que via como demasiada de sua sociedade.

Só acabou por se arrepender um pouco sobre essas preocupações quando virou o Surfista Prateado, com a missão de ajudar seu mestre Galactus a se alimentar de planetas saborosos por aí.

Certamente, o Cromado ganhou uma profissão que lhe permitiu a partir de então conhecer todo o Universo. Porém, perdeu a chance de estabelecer vínculos permanentes com seu povo original, do planeta de Zenn-La; e com sua algo que enamorada Shalla-Ball. Teve que aprender a exercitar o desapego.

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Desenho feito pelo autor em 1995, com 12 anos

ACERVO FANTÁSTICO

E o que podemos aprender com o Surfista, de modo aplicado à nossa vida prática e cotidiana, ainda que não tenhamos poderes cósmicos nem viajemos pelas galáxias voando sobre uma prancha brilhante?

Pois bem, como boa parte dos leitores e autores deste blog, creio, sou e fui um colecionador de quadrinhos, por toda a vida. Os gêneros, títulos e artistas/roteiristas foram mudando, a frequência de obtenção de mais exemplares e títulos foi mudando, assim como o método de obtenção (bancas de jornais, livrarias, sebos, etc.).

Algo, no entanto, não mudou nenhuma vez nesses 34 anos: jamais me separei de algum exemplar de minha vasta coleção de quadrinhos (e livros em geral). Sempre foi como se cada um fosse sagrado. Que era algo que fazia parte imprescindível de minha infância, adolescência e também vida adulta!

Sim, sempre fui muito apegado a bens materiais como esses. Nunca fui de sonhar em possuir um carro último modelo, aliás nem um carro sequer, qualquer modelo que seja. Nunca tive um tablet ou celular da Apple, e nem ligo pra isso. Nunca liguei para marcas de roupas ou tênis – por mais que as roupas também se acumulem.

quadrinhos

Porém, vamos analisar com maior visão crítica. Para quê, afinal de contas, guardar todos esses quadrinhos (e livros, que são muito parecidos no quesito comprar/ganhar e guardar em meu histórico)? Se eu li, vou ler de novo? Se não li, ainda vou ler? É mesmo importantíssimo assim que eu mantenha comigo todos esses quadrinhos? Inclusive considerando o espaço exíguo que disponho para conservar tudo isso? E que vou abarrotando cada vez mais, cada vez mais?

Será que vou conseguir dar conta de ficar lendo e/ou relendo todos esses quadrinhos e livros que disponho comigo? Ainda mais considerando tudo o mais que desejo fazer da minha vida? Como viajar, trabalhar, estudar, escrever, desenhar e publicar meus próprios livros e quadrinhos?

Esse acervo que ardorosamente juntei não está ocupando espaço aqui em casa à toa? Não está sendo desperdiçado pelas duas décadas que passou comigo, desde minha adolescência, acrescido de cada vez mais outros quadrinhos e livros?

Não poderia ser mais útil se esse meu acervo de centenas de exemplares e títulos estivesse disponível para venda a quem desejasse comprar, que seja por um preço simbólico, ou trocando por algum outro quadrinho/livro que ainda não adquiri ou li, e que seja muito mais útil/interessante para mim nesta fase da vida?

Ou até doando para uma instituição de caridade, por alguma boa causa, como para crianças carentes numa periferia da cidade, ou num hospital (seja infantil, para as obras voltadas a esse público, ou adulto)?

lendo-quadrinhos

VOCAÇÕES E AURAS DESPERDIÇADAS

Refletindo sobre essas questões, cheguei a uma teoria, ou arremedo de teoria, que talvez não seja novidade, ou absurda/digna mesmo de um fã de quadrinhos, ou nada acadêmica, ou tudo isso junto, mas que me serviu para ao menos compreender melhor o problema e colocar em prática algum esforço para começar a resolvê-lo.

A teoria é de que os objetos, inclusive os quadrinhos (e livros) têm “vida”. Sim, isso tem tudo a ver com o animismo, uma vertente espiritual e filosófica oriental, penso.

E essas obras de arte, ainda que no tempo da reprodutibilidade técnica (lembrando o clássico texto do imortal Walter Benjamin), possuem algo como uma aura. Essa aura nos atrai. De fato, cada um dos meus quadrinhos e livros me atraiu, como ímã. E não permiti jamais então que partissem.

Para Benjamin, essa característica aurática era o que conferia ao objeto o sentido de autenticidade. E isso era destruído quando fazíamos uma cópia dessa obra.

O próprio

O próprio

 No entanto, oras, eu tenho certeza de que existem milhares e dezenas, centenas de milhares de outros quadrinhos e livros como os que possuo em casa, também em outros lugares pelo Brasil e pelo mundo afora. Mesmo assim, tal objeto ainda merece ser cultuado, como um artefato religioso, por mim (e por outros colecionadores fervorosos de quadrinhos e livros).

Deste modo, ao considerarmos esses preciosos quadrinhos como seres com vida, como nós, poderíamos imaginar que, assim como cada um dos humanos (para quem acredita nisso), eles teriam uma certa “missão” a cumprir na Terra. Na verdade, você nem precisa ser religioso nem nada pra pensar assim. Pense em vocação, profissional ou ideológica, qualquer coisa parecida. Imagine um Jack Kirby, Frank Miller ou Stan Lee sendo forçado a ser engenheiro, bancário, médico ou advogado a vida inteira.

Não precisa viajar muito pra pensar o quanto isso se aplica, por extensão, aos quadrinhos, livros e outros produtos culturais produzidos pelos seres humanos. Afinal, oras, eles são marcas humanas. São fruto do esforço, talento e criatividade de artistas que os produziram. E o que será de um artista, ou quadrinhista, especificamente, sem a concretização de seu trabalho?

 Se esse trabalho, tornado real, fica preso em uma única moradia ou até num depósito, não público, sem continuar a circular, qual é a influência e impacto que essa obra estará causando? Zero. Ou seja, estamos matando ao menos um dos braços do artista criador. Ao invés de, com generosidade, permitir que siga circulando e influenciando, causando impressões cômicas, dramáticas, aventurescas, medo, ou até mesmo excitação sexual ou pensamento crítico, etc.

CADA DIA TEM 24 HORAS; 1 MÊS TEM 30 DIAS; VIVEMOS NO MÁXIMO UNS 90 E POUCOS ANOS

Então, repensemos generosamente sobre o tamanho de nossas coleções.

Aliás, e-books resolvem? Eles não vão abarrotar o espaço de nossa casa, não é mesmo? Ok, você vai ganhar em espaço físico. Mas não ganhará em espaço mental, psicológico e temporal. Em energia, em inspiração concentrada.

Tem um livro que ganhei do Nerdbully, o Roube como um artista, que entre as dicas para os criativos ou potenciais criativos, destaca algo como: “Cerque-se de tudo o que lhe inspira.”

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Ok, você pode gostar de muita coisa e querer ter tudo isso perto de você. Porém, sejamos francos: você realmente consegue dar atenção contínua para toooodos os quadrinhos, livros, filmes, etc. que você mantém junto contigo? Duvido. Você provavelmente dá uma espiada, às vezes, se acontecer, de vez em quando, em somente alguns que gosta mais. Até porque o nosso tempo é tão limitado… E tem tantas coisas novas acontecendo que mereçam nossa atenção, né?

Você admira igualmente cada um dos 500 quadrinhos e 300 livros que você guarda? Duvido. Certamente aprecia mais uns que outros.

E aí é que está então. Nossa atenção é limitada. Digamos que temos 10 pontos de atenção por mês. Ao invés de dedicarmos esses 10 pontos para os 10 ou 5 quadrinhos que são realmente geniais, que têm tudo a ver com o que queremos que nos inspire pra nossa vida, etc., se tentarmos dedicar esses 10 pontos para nossos 500 itens… o que será de nossa atenção? Ficará dividida e dissipada entre todos esses exemplares, muitos deles que nem valem tanto assim para nossa atenção. Teremos apenas décimos ou centésimos de unidades de atenção para cada obra que guardamos.

Reavaliemos o valor dos bens que juntamos. Pergunte-se: quanto vale este item? Ele é nota 10,0 ou nota 7,5? É nota 5,0 ou nota 3,0? Ok, todos eles valem alguma coisa. Certamente valiam algo pra você especialmente na ocasião em que você o adquiriu. Mas e hoje, ainda vale? Você mudou. O mundo mudou. E você continua guardando tudo, com esse apego todo, sem prestar atenção que quadrinho ou livro não presta mais pra você?

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E pode ser ainda que tenha sido um presente que você ganhou, não gostou, e ficou sem graça de recusar ou passar pra frente logo de cara… Ok, agora aproveita que o generoso presenteador que te deu o “presente de grego” (do seu ponto de vista) não está olhando. Dá um jeito de passar essa batata-quente pra frente, rápido!

Assim, perceba, sinta, converse com seus objetos. Pergunte a eles se preferem ficar contigo mesmo, se estão felizes onde estão. Se eles sentem-se mais como num presídio lotado de gente amontoada. Ou se seus quadrinhos sentem-se de fato como numa família feliz, numa comunidade de apoio mútuo.

Estou nesta jornada. Reduzindo tudo, para aproveitar mais e melhor os melhores exemplares de minhas coleções. Sejam eles quadrinhos, livros, roupas, amigos e grupos de Facebook e até meu próprio tempo.

Vamos nos valorizar. E também a todos aqueles que nos rodeiam. Inclusive nossos estimados quadrinhos.

Nota: Não teria escrito esse texto sem o exemplo de minha amiga Fernanda Moreno (que tomou a decisão de se desfazer de vários de seus livros e me inspirou a fazer o mesmo) e sem o conto de minha noiva, A Estrangeira, que motivou meu conto Raízes: O Surfista de Papel Celofane. Obrigado.

*Jornalista, mestrando em Estética e História da Arte pela USP, com pesquisa sobre os quadrinhos de Mauricio de Sousa. Publicou o romance “A Menina que Ouvia Demais”, alguns contos de fantasia e terror e produziu um tanto de pinturas espalhadas pelo Brasil e pelo mundo.

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2 respostas para Lições do Surfista Prateado: menos HQs, mais valor

  1. Nano Falcão disse:

    Acho que você está muito preocupado com o que outros fazem ou deixem de fazer. Não existe certou ou errado nessa questão. O Mais certo pra você pode se desfazer de sua coleção. Mas outras pessoas que já tem um bom espaço e condições materiais não precisam. É certo que não se pode ter tudo. Existe uma diferença entre ser um colecionador e ser um colecionista. Comprar de tudo não é colecionar, é sofrer de colecionismo, o que é doença diagnosticada, diga-se de passagem. Mas colecionar em si não é problema se não afeta negativamente sua vida, seja econômica ou mentalmente.

    Sobre que pessoas querem ter sua coleção, ora, como você mencionou, as suas revistas não são as únicas no mundo. Existem milhares por aí. E o problema hoje dos quadrinhos não é a falta de acesso, afinal há os scans por aí, por exemplo. É a falta de interesse mesmo pelo leitura. O que é um fenômeno mundial, não só brasileiro, diga-se de passagem. Não vai ser dando suas revistas que vai resolver o problema, pois talvez só caiam na mão com alguém que só queira mesmo cancelá-las.

    A despeito de eu achar colecionar revistas em si um pouco de colecionismo – pois elas são produzidas para consumo rápido, essa é a verdade – não julgo quem as coleciona. Tem gente que coleciona moedas, outros colecionam selos, miniaturas de automóveis, action figures. Conheço mulheres que colecionam bonecas, bichos de pelúcia, sapatos…

    Ter uma biblioteca, principalmente quando você tem uma biblioteca que não é só para si, mas toda sua família, é algo que deveria ser estimulado, não renegado. Quem trabalha com mídia como eu, sabe o valor que é poder se afastar um pouco do computador, do smartphone ou do tablet, e abrir algo artesanal, impresso, material em mãos. É por isso que o vinil voltou também com tanta força no mercado. O livro em si é uma obra de arte em si, não apenas o texto contido, mas sua impressão, fontes usadas, diagramação, papel, capa… E o que dizer dos quadrinhos e suas encadernações? Vale lembrar que mais que a literatura, quadrinhos são uma mídia física, em geral projetada para ser impressa em determinada dimensão. Nenhum tablete substitui o visual original a que foi destinado uma história em quadrinhos com ambições realmente artísticas – o que não é o caso de 90% do material da industria que é realmente para consumo rápido, e nem deveria mesmo ser colecionado, ao meu ver. Acredito que a tendencia é as revistas em quadrinhos sumirem, com aconteceu com as revistas de literatura décadas atrás; e que haverão apenas em capitulos nos meios eletronicos, até serem encadernadas em livros, nos meios impressos.

    Colecionar ou não colecionar vai de cada um. Para quem gosta de reler, rever o que já leu, e lembra do aspecto artistico das hqs – que assim como pinturas são pra serem visualizadas mais de uma vez, o mesmo pode ser dito sobre várias hqs – é extremamente imprescindível. Quanto ao tal “desapego”, é preciso tomar cuidado para não cair no que parece apenas o discurso ideológico de uma geração imediatista sem lastro histórico, que valoriza apenas o momento, sem apego a qualquer passado, e por isso sem base cultural pra construir um futuro mais inovador de fato. O que adianta se desapegar da arte, se isso é feito com objetivo de angariar mais status na sociedade e mais conta financeira?

    • Olá, prezado. Não estou preocupado com o que os outros fazem necessariamente. Vai de cada um, claro. Porém, compartilho a experiência que eu tive. Pra mim, foi libertador esse desapego. E foi muito difícil compreender isso e aceitar. Sugiro a leitura dos dois contos acima citados (no rodapé do artigo) para compreender melhor esse processo.

      Acho que tem vezes que a gente se apega a certas coisas que não precisaria. E poderia dar mais valor para outras coisas, como passear, curtir a natureza, sua namorada, sua família, seus amigos. Mas claro, cada um com sua vida. É apenas uma reflexão que faço de minha experiẽncia que quem desejar também aproveite para si.

      Sim, se pra sua vida for super importante o colecionar, colecione. Se você tem dinheiro para construir um prédio e uma biblioteca com todos os livros e quadrinhos do Brasil e do mundo, também ótimo. Apenas sugiro que permita visitação pública. Porque, como argumentei, é um desperdício que tanto material bacana fique confinado, sem uso de quem poderia desfrutar dessa obra.

      Concordo também sobre o valor da mídia física. Porém, o que ressaltei no texto não é que se desmanche TODA sua coleção. Não falei nem que eu estou fazendo isso. Mas apenas para “cortar a gordura”; ou em termos botânicos, “podar”, para que a planta cresça melhor. Ressaltei que nós temos no meio de uma coleção aquelas obras que REALMENTE apreciamos e outras que nem tanto assim. É legal priorizar. Assim a gente revẽ valores e o que é de fato valioso pra cada um de nós.

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