Para além do mangá: quando a ficção toca a realidade

real-gundamAs fronteiras entre realidade e ficção se tornam cada vez mais tênues…

No Japão, o mangá abre caminho para o animê que teve ascensão na década de 60 com a popularização da televisão no país. Muitas vezes, esse gênero parte do mangá ou do game para ganhar outra forma de circulação, mas não é uma regra. O animê aparece como séries de televisão em episódios sequenciais; como filmes longas e curtas-metragens; para vídeo como  o Original Video Animation, conhecido como OVA.

O fascínio pelos mangás e animês vai além do sentido de criar histórias apenas para entreter o leitor ou telespectador, pois alguns autores colocaram o observador na proximidade entre o irreal e o real, ao construir personagens, máquinas ou objetos para que existam de verdade, como por exemplo, Mobile Suit Gundam, Macross Plus e a cantora Miku do Vocaloid e mesmo os Cosplays. E são esses que apresentaremos aqui.

Kidô Senshi Gundam ou Mobile Suit Gundam

Criado por Yoshiyuki Tomino em 1979 e com o intuito de atender a empresa japonesa Sunrise que estava à procura de uma nova linha de produtos centralizada em robôs para suas vendas, surgiu Gundam. Foi Tomino quem colocou um novo conceito dos mecha como robôs reais, ou seja, que se transformam em figuras semelhantes a humanos. O robô Gundam foi desenhado com todas as placas e parafusos para que ele existisse no mundo real. O argumento para a não construção do robô (que voa e tem armas a laser no mangá) seria a falta de energia que o impediria de ser o Gundam dos quadrinhos.

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Gundam RX-78-2

Contudo, em comemoração aos 30 anos do mangá, foi construído no tamanho real de 18 metros, em fibra de vidro e aço em 2009 na cidade de Tóquio, o primeiro Gundam, o modelo RX-78-2. Ele está localizado ao lado do shopping Center Diver City Tokyo e como atração, tem um espaço chamado “Gundam Front Tokyo” em que um dos ambientes lembram o interior de uma espaçonave. Há também uma cúpula com diversas imagens de Gundam, um stand com mil tipos de garage kit, exposições dos animês e alguns vídeos, cabines fotográficas, lojas de roupa e um café dedicado ao Gundam, em que todos os produtos do café, inclusive comidas, têm a imagem do Gundam.

É visível o gosto e a tentação dos japoneses em reproduzir algo que durante anos foi apreciado e não esquecido, por mais que os personagens tenham mudado para agradar as diferentes gerações. O clássico se manteve como pioneiro de um gênero e assim, a melhor forma de homenageá-lo foi através da reconstrução do mesmo em tamanho real, acompanhado de variedades interativas a fim de satisfazer tanto os fãs quanto aqueles que apenas visitam o espaço. Assim, diante de um Gundam “real” todos poderiam notar sua grandiosidade e, quem sabe, sentir-se como Amuro Rei, personagem do primeiro Gundam diante do seu mecha.

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Gundam RX-78-2 em Odaiba

Macross Plus e Vocaloid

Macross Plus é um derivado do animê Macross, criado por Shoji Kawamori. Macross também é uma série do gênero mecha, tendo seu início em 1980 e seguido por Macross Plus na década de 90. O dado interessante em Macross Plus é a personagem cantora Sharon Apple que é inteiramente virtual e que – como em toda saga Macross, consegue através da música combater os inimigos alienígenas. Nesta saga, os pilotos do Macross precisam deter essa cantora virtual que passa a ser autônoma nas suas atitudes, e acaba se apaixonando pelo mocinho da história, Isamu Alva Dyson, o qual, na verdade, sempre foi uma grande paixão de Myung Fang Lone, personagem criadora de Sharon Apple.

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Sharon Apple

No desenvolvimento da história, Sharon Apple consegue encantar o público que passa a interagir e a idealizá-la como real dentro do universo Macross. Esse comportamento é semelhante ao dos expectadores reais da cantora inteiramente virtual no mundo em que vivemos – Hatsune Miku, do programa Vocaloid.

Hatsune Miku não foi criada a partir de Sharon Apple, mas se assemelha pela ideia: foi construída por um programa. Vocaloid foi criado pela Yamaha, com o objetivo de ter uma cantora virtual sem que haja um modelo real. Para isso, uma biblioteca eletrônica com fragmentos de vozes de diversos cantores reais foi elaborada para que se pudessem escolher diferentes tipos de timbres para uma determinada música. É, aliás, através desse programa que os japoneses pretendem recuperar a voz de um cantor japonês falecido em 2007, Hitoshi Ueki.

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Miku

Os vídeos da cantora virtual Hatsune Miku fizeram muito sucesso, foram os mais carregados no site Nico Vídeo, obtendo assim um grande público. Miku tornou-se uma das cantoras mais famosas do Japão e entre os apreciadores da cultura pop japonesa, seus shows têm grande audiência, e seus fãs apreciam o programa como se ele fosse inteiramente real. Assim, é possível compreender como Sharon Apple, personagem de mangá e animê, totalmente virtual, encantou seus fãs, e Miku, do mundo real, totalmente virtual, encantou seu público do mundo real.

Cosplay

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Sen e Haku – Viagem de Chihiro

A palavra vem do termo inglês costume play, que poderia ser traduzido em algo como fantasia na ideia de jogo, interpretação ou mesmo representação como performance. O cosplay surgiu nos Estados Unidos da América na década de 70 nas convenções de quadrinhos, e os japoneses ficaram encantados com o universo dos cosplay americanos, começando a aderir também a esta forma de expressão. Isso fez tanto sucesso no Japão por meio dos personagens de mangá e animê, que eles expandiram os cosplay para seus ídolos de banda, game, filmes etc. Embora o cosplay tenha surgido nos Estados Unidos da América, foram os japoneses que difundiram em grande escala o cosplay para o mundo através da divulgação do mangá e do animê na era da globalização.

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Cloud – Final Fantasy VII

Uma das grandes diferenças do uso do cosplay no Ocidente com o Japão, é que para os japoneses, vestir o cosplay ou mesmo outro tipo de caracterização de moda incomum, não causa estranheza na sociedade, pois são acostumados a conviver com diversas “tribos”. Quando um indivíduo usa um cosplay, ele entra num mundo comum para aqueles que também estão de cosplay. Eles entram nas características, não somente físicas do personagem, mas no psicológico e se comportam como tal, tentando ser o mais semelhante possível ao personagem. Mesmo aquele cosplayer  que entra numa convenção de mangá e animê sozinho, logo encontra os outros personagens do mesmo mangá e animê etc. que estão também caracterizados. Dessa forma, mesmo que nunca tenham se visto anteriormente, todos começam a andar juntos, formando o grupo do respectivo mangá, animê etc.

Estas são algumas peculiaridades não só do mangá e animê, mas dos japoneses em extrapolar o que é ficção, e ainda, torná-la realidade.

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Sobre Mochi

Atingiu o estado de Olhos Grandes nas ilhas do Oriente Silencioso.
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Uma resposta para Para além do mangá: quando a ficção toca a realidade

  1. Mariano disse:

    Muito Interessante. Escolhi minha profissão assim.
    Ainda não conhecia o site mas pode ter certeza que ganhou um novo leitor

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