O Despertar da Força – o poder do silêncio de J.J. Abrams

35b6c583-24bf-446b-abd0-47c5f3b3f982-620x372A poucas horas de ser assassinado, em 8 de dezembro de 1980, John Lennon legou uma última lição:

Meu papel na sociedade, ou o papel de qualquer outro artista ou poeta, é de tentar entender e expressar o que todos nós sentimos. Não é dizer às pessoas o que elas devem sentir. Não como um pastor, não como um líder, mas como um reflexo de todos nós.”

Será que J.J. Abrams anotou o recado?

SEM SPOILERS – leia sem medo!

Poucos dias depois da estreia, Star Wars – The Force Awakens já desponta como um triunfo em escala global, um sucesso com poucos rivais na história do cinema.

Parece unânime: J.J. subiu àquele olimpo ocupado por Steven Spielberg, Scorsese, Coppola e até o próprio pai da saga, George Lucas, que juntos formaram uma antiga vanguarda que revolucionou o cinema nos anos 70 e 80.

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Enquanto Lucas parece condenado ao exílio de qualquer simpatia que os fãs já dedicaram ao criador da família Skywalker, Abrams surge como um redentor.

Dono de um talento acima de qualquer suspeita, Abrams certamente merece o status de artista, um narrador fluente do cinema. Quem saiu da sessão após ver o filme sem dúvida saiu com essa impressão. O caso de nós, Quadrinheiros, não foi diferente. O volume de insights que ele provocou é quase tão alto quanto o número de midi-clhorians no sangue de Anak… digo, foi muito muito muito muito alto.

Contudo, questiona o Lado Sombrio, teria a excelente qualidade do filme sido resultado direto do talento de Abrams? Ou, de um ponto de vista mais, digamos, místico, a história falou mais alto e Abrams teve até pouca relação com o desfecho da coisa toda?

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– “Acuma?”, diria você.

Sim. Veja…

Assumindo que John Lennon tinha razão, que um artista entende os sentimentos de todos nós, pode-se assumir que Abrams expressou os sentimentos de uma convulsionada diversidade de identidades (de novo: con-vul-si-o-na-da). Tratam-se de inúmeros gêneros e diferentes gerações espalhadas por todo canto onde o filme tem sido exibido neste fim de 2015. O sucesso – e quase total ausência de críticas – é um sinal claro de que a missão foi plenamente cumprida, certo?

Mas teriam estas diversidades variadas canais de fácil acesso? É tarefa simples falar com plateias diferentes? Na sua carreira de diretor e roteirista, Abrams conheceu boa parte delas para estabelecer com facilidade um diálogo com cada uma? As sensibilidades de um espectador na Tailândia, no Uruguai e Finlândia são as mesmas de um americano médio, fã dos Cavaleiros Jedi? Me chame de cético, mas me parece improvável. O truque, eis o talento do moço, me parece ser outro.

Por um lado, Star Wars está fundado no monomito, a narrativa heroica universal e atemporal, muito bem esclarecida por Joseph Campbell e seguida com rigor por George Lucas quando criou a saga de Luke Skywalker por volta de 1972. Ora, a saga do herói é uma história de todos nós, disse o autor de O Herói de Mil Faces.

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Joseph Cambell

Mas por si só, seguir o fluxograma do monomito não segura a onda. Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, assim como os Episódios I, II e III do próprio Star Wars, seguiram o estatuto do monomito e da jornada heroica com a rigidez de um funcionário público na primeira semana de trabalho. O resultado foi desastroso.

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O filme devia vir acompanhado de antiácido.

Por outro lado, desde o lançamento de A Vingança dos Sith, de 2005, aqueles que eram fãs daquela saga quase tão vívida quanto religião, ficaram órfãos, famintos, sedentos e, em último lugar, frustrados. O filme foi o menos pior dos desfechos de algo que deveria ser monumental. Aí está o possível segredo de Abrams: em 2015, quem construiu o sucesso de O Despertar da Força foi o desejo dos fãs. Coube ao diretor apenas “fazer menos”.

Sem dar nenhum spoiler sobre o Episódio VII, o filme não traz nenhuma grande surpresa. O roteiro é bem “redondo”, convencional, e o enredo, se não é uma “rima” do Episódio IV, chega a ser bem semelhante. Contudo, desde o 1º teaser trailer, onde só havia brevíssimas cenas com Finn e a Millennium Falcon, a imaginação dos espectadores agiu freneticamente. Coube a eles, sozinhos, buscarem preencher as lacunas com as mais disparatadas (e divertidas) teorias.

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Mesmo que o marketing seja uma seara separada, onde o objetivo é precisamente incitar a curiosidade do público, é surpreendente que o filme mantenha o estilo daquilo que fica apenas esboçado num trailer. Há momentos de silêncios ensurdecedores ao longo do filme, algo que satisfaz tanto quanto instiga em cada espectador.

Abrams parece ter entendido a história de Star Wars melhor do que Lucas e essa história fala mais alto quando narrada na voz de cada um – nas ausências, nas omissões e nos silêncios dos velhos e novos personagens do filme.

Se cabe ao poeta refletir os sentimentos de seu tempo, J.J. Abrams mostrou um mundo cheio de diferenças, idades, ressentimentos e, no momento, com mais dúvidas que certezas.

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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