Os três pais de Barry Allen, o Flash sem destino

90s-flash-vs-10s-flashFaz parte da Jornada Heróica o encontro e assassinato simbólico do pai. Matar o pai é, metaforicamente, encontrar o próprio destino. Mas o que acontece quando temos um herói incapaz de fazer isso?


A busca pelo pai é um tema arquetípico que se repete em diversas mitologias. O encontro do pai é o encontro com o próprio caráter e o caráter é o destino do herói. Portanto, quando o herói procura pelo pai, simbolicamente está procurando pelo próprio destino. Isso não sou eu quem digo e sim Joseph Campbell, um dos maiores estudiosos de mitologia que já existiu. Já falamos muito dele aqui nesse blog.

E não só Campbell. É o próprio Freud quem diz que “o destino, em última instância, não passa de uma projeção tardia do pai”. Portanto esses dois grandes pensadores estão de acordo com a importância do pai para a construção de quem somos.

Não é simplesmente a procura e o encontro. Seguindo com Freud e o Complexo de Édipo, a mãe é o primeiro objeto de amor de todos os homens e o pai está lá como o grande obstáculo desse desejo. Quando introjetamos essa primeira regra, a de que não podemos ter nosso primeiro objeto de desejo, estamos também introjetando a primeira regra cultural: a proibição do incesto. Portanto, o pai simboliza também a primeira regra, a primeira sujeição do indivíduo à coletividade, à cultura. A primeira submissão.

"Édipo em Colono", de Jean-Antoine-Théodore Giroust

“Édipo em Colono”, de Jean-Antoine-Théodore Giroust

 

Matar o pai – simbolicamente, é claro – é o momento em que superamos essas imposições sociais, momento de afirmação de quem somos como indivíduos. Mas claro que mesmo essa morte simbólica acarreta alguma culpa e essa culpa será um lugar de referência, a própria condição da cultura.

Então o ponto principal é: a procura pelo pai faz parte da jornada heróica e arquetípica. Ao encontrar seu pai, você também deve matá-lo para encontrar seu próprio caminho. É o que Luke Skywalker faz ao entrar na caverna em seu treinamento com Yoda: ele encontra Darth Vader e o mata. Mas o terror de sua epifania na caverna é o risco de tornar-se como seu pai, ou seja, não encontrar o próprio caminho.

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O que nos leva diretamente ao novo seriado do Flash. Não vou comparar o Barry Allen do atual seriado ao dos quadrinhos, até porque depois de seu retorno nas mãos de Geoff Johns e, mais recentemente, com os Novos 52, eu nem sei mais ao certo quem é o Barry Allen “dos quadrinhos”. Mas vou comparar com o Barry Allen do antigo seriado dos anos 90, esse inspirado no saudoso Barry Allen dos quadrinhos que morreu na Crise nas Infinitas Terras.

O Flash do seriado dos anos 90 era um homem já na casa dos seus 30 anos. Ele havia decidido fazer parte do que era chamado no seriado de “polícia científica”, era um “cientista forense” , que hoje nós conhecemos – graças ao seriado – como CSI (Criminal Scene Investigation). Barry Allen se ressentia pelo pai não o considerar um policial “de verdade”, como seu irmão. Barry já encontrou seu próprio destino, já matou seu pai ao decidir ser um cientista forense, e pôde ser um herói – a necessidade da aprovação do pai faz parte daquela culpa de matá-lo simbolicamente, o que não invalida o triunfo de encontrar seu próprio destino.

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O Barry Allen do atual seriado é um garoto. Uma criança mesmo. Perdido no meio de três pais: seu pai verdadeiro (que é interpretado por John Wesley Shipp, o Barry Allen do seriado dos anos 90), Joe West, seu pai de criação, e o Dr. Wells, seu mentor. Para quem acompanha o seriado: repare como Barry Allen é incapaz de tomar qualquer decisão sem a aprovação de um dos três.

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Ok, faz parte da Jornada do Herói esse encontro e a morte simbólica do pai e Barry ainda não completou a sua, mas já é um herói na série, tem seus super-poderes, mas toda e qualquer ação que toma tem que ser aprovada por seu pai, por Joe West ou pelo Dr. Wells.

O Flash atual é a melhor metáfora para essa nova geração que entra precocemente na adolescência e retarda ao máximo a entrada no mundo adulto: tem o bônus, os poderes, as liberdades do adulto, mas sem arcar com o ônus, ou seja, as responsabilidades – pois há sempre um pai por perto para dizer o que é preciso fazer e protegê-lo quando for necessário.

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Sobre Nerdbully

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7 respostas para Os três pais de Barry Allen, o Flash sem destino

  1. Jarvis disse:

    Gostei muito do texto,Nerdbully.De fato,já não sei mais quem é o Flash(aliás,não sei mais quem são os personagens das DC,com tantas idas e vindas).Esse seriado é interessante,mas preferia o antigo.

    • Nerdbully disse:

      Veja, eu gosto desse seriado novo, mas me incomoda essa questão do Flash toda hora ter que se reportar aos seus Pais. Essa infantilização do herói é complicada. Sem dúvida o antigo era mais interessante, claro que hoje em dia os efeitos especiais são melhores e os roteiros mais ágeis, mas ainda prefiro o Barry Allen do seriado antigo. Enfim… é só o começo, vamos ver como o novo seriado evolui.

  2. Excelente análise, bem sintética e verdadeira.

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