Das histórias que não se deve esquecer: Um Sonho de Mil Gatos

Relembre essa história de Sandman.

Por Victor Phols*

Quando falamos em Sandman, a primeira coisa que vem à nossa mente é a imagem de um homem pálido com estrelas ocupando as órbitas, seguido de um grande nome estampado em revistas onde se lê Vertigo. O poder de tal selo associado ao personagem-título costuma evocar um sentimento de terror, e com toda razão.

Apesar de ter sido idealizado como uma reformulação sofisticada de narrativas sobre super-heróis, a própria natureza do protagonista – Sonho dos Perpétuos – dá espaço para o que há de mais macabro no universo da fantasia. Não só de belas histórias nossas mentes se alimentam quando adormecemos. Os pesadelos também estão lá, e os desenhos de Sam Kieth no início da série fazem questão de nos lembrar disso.

Contudo, a escrita de Neil Gaiman, por mais pesada que possa ser em muitas ocasiões, ainda reserva momentos similares a um “respiro”, onde nos permite concatenar certas ideias em meio ao terror e sair com uma solução esperançosa quanto ao futuro. Diversas histórias consagradas da saga como Uma Esperança no Inferno e O Som de Suas Asas seguem por este caminho. Esta última inclusive, apesar de girar em torno de um tema delicado, consegue se manter com uma leveza do início ao fim. Mas é para outro conto que desejo chamar a atenção.

Em agosto de 1990, Sandman #18 veio a público com a história Um Sonho de Mil Gatos. A protagonista é uma gata siamesa que, após ter sua ninhada morta pelos próprios humanos que a acolheram, tem um encontro com o “Gato dos Sonhos”. Ela exige saber o porquê de tudo aquilo. Se havia alguma regra universal que justificasse a morte de seus filhos e a escravidão felina imposta pelos humanos. E a divindade onírica responde com uma história.

A narrativa desvelada por Morfeus em forma de gato fala sobre um passado longínquo onde felinos gigantes reinavam na terra e o homem era a presa destes seres ancestrais, mas tudo veio a mudar quando mil seres humanos sonharam com o mundo onde vivemos hoje.  Teoricamente, para que a raça dos felinos voltasse a reinar e se livrasse dos flagelos do dia-a-dia, pelo menos mil gatos deveriam fazer o mesmo.

Mas, há uma variável nesta história onde Gaiman traça uma ponte ligando o universo de Sandman com o do leitor. O Gato dos Sonhos também explica à siamesa que a atual raça dominante remanejou todo o espaço-tempo, portanto nunca houve de fato um passado glorioso de felinos gigantes.  Isso, entretanto, não anularia o poder da empreitada dos mil sonhadores. Assim sendo, a gata sai mundo afora espalhando a boa nova que transformaria o universo a favor deles.

Mais próximo do final da história de Sandman, após uma comunhão ministrada pela gata siamesa, um gatinho devoto conversa com um vira-lata sobre os ensinamentos do culto.  Este segundo gato não abraça totalmente as lições. Não gosta da ideia de ser “obrigado” a fazer alguma outra coisa só porque outro gato falou. E isso é totalmente válido. Ele ouviu a história. Ela ressoou de uma forma diferente com ele.  Isso indica que a empreitada dos mil gatos sonhadores dificilmente se concretizará, pois nós leitores puxamos esse cenário e o colocamos ao lado do nosso. Várias pessoas entram em contato com as mais distintas egrégoras. Nem todas são tocadas pelas sagradas palavras apresentadas.

Todavia, isso não torna a participação dos devotos menos importante. Estamos falando sobre modelos de vida. Caminhos espirituais dotados de virtudes e promessas de dias melhores. O gatinho mais jovem consegue falar com a siamesa e diz com toda certeza do coração dele que acredita no evangelho. E ela responde dizendo que “então há esperança”. A crença do devoto pode não mudar o mundo da forma magnânima que lhe foi prometida, mas sua base estabelece novos parâmetros para sua vivência.

Um sistema de crenças altera comportamentos, renova pontos de vista e torna o indivíduo mais confiante na procura do dia-a-dia, e isso vai além do que já conhecemos em forma de igrejas. Um sistema de crenças pode surgir a qualquer um baseado em suas referências e opiniões sobre o mundo afora. Trata-se de um fenômeno que vive dentro e fora do espectro religioso “oficial”.

Portanto, leitor, eu o convido a se sentir confortável com o que acredita, pois assim como o gatinho da história, suas virtudes tornarão sua vida mais leve e, mais importante ainda, significativa.

*Victor Phols é escritor iniciante. Quadrinhos, Heavy Metal e Monstros Gigantes são sua santíssima trindade.

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