O heroísmo como propaganda e ato falho

wolvyorigins01Espere!

Pare.

Pense.

Como ter certeza de que o herói está do lado certo? E se ele tem outros motivos para fazer o que faz?

Poucas coisas são mais irresponsáveis ou são politicamente mais perigosas do que ele, o herói! Hulk? Homem de Ferro? Superman?? Nas mãos deles o mundo pode estar à beira da ruína!

Indo na contramão do que ensinou Joseph Campbell, na realidade o herói pode ser um agente da desordem, um irresponsável arrogante, um aspirante a aristocrata, um atrevido afortunado, um picareta bem posicionado!

O problema é: como resistir ao fascínio que ele suscita?

Como diz a frase famosa de Bertold Brecht, “pobre é a sociedade que precisa de heróis.” A ideia tem um sentido ambíguo, dual. Por um lado, bom seria que houvesse alguém para restaurar uma ordem perdida. Por outro é terrível a ideia de que a sociedade não tenha recursos de se salvar sozinha. Confiar nas mãos de um único sujeito para resolver todo o problema é quase um suicídio.

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Tampouco adianta torcer por milagre

O dilema não é novo.  A histórias de dezenas de HQs, são uma narrativa de como o herói faz o serviço que devia ser da humanidade. Em dado momento fica claro que a humanidade precisa caminhar sozinha, por seus próprios meios. Especialmente nos desfechos, essas histórias mostram o herói saindo, discretamente, pela porta dos fundos, voluntariamente. “A humanidade deve seguir o próprio caminho”, diria o moço da fita.

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Ora, natural, não?

Não. Esse é o final da história, quando houve uma alteração da consciência coletiva induzida por algum evento traumático. E uma ficção.

A ficção é a sombra das vontades reais. E nem todas são iguais. Algumas ficções têm o genuíno objetivo de promover uma alteração da consciência do leitor, um esforço artístico que exige enorme talento, disciplina e cuidado dos autores. Porém, a maioria dos quadrinhos (não todos!) não tem tempo, disposição ou o objetivo de chegar a tanto. Então recorrem a uma fórmula comum, variações do monotema do ciclo heroico descrito por Joseph Campbell.

Como já dissemos várias vezes aqui, a narrativa heroica é essencialmente uma história de três atos: começo, meio e fim. Apresentação, “queda” e “ressurreição” do herói.  É uma forma eficiente de alcançar o maior número possível de pessoas. Assim como arroz e fejuca alimentam o corpo, fascínio e heroísmo alimentam a alma.

Favor não confundir

Favor não confundir. Ou vai estragar seu gibi.

No monomito de Campbell, a história dos heróis é um conto de auto-descoberta, crescimento e fortalecimento. As buscas pessoais do herói e inúmeros “falsos finais” o levam a um enfrentamento final, onde sua sede de vitória se confunde com as necessidades de todos. A justiça pessoal é a justiça para um povo. Bem contra o Mal e uma solução violenta, talvez morte. Essa é uma fábula inebriante. E aí está o problema, ela também é paralisante. Isso acontece pois fascina, reduz toda complexidade de uma situação ao seu mínimo denominador comum: Bem x Mal.

Veja bem, para além dos adjetivos artísticos, essa é uma fórmula de marketing. Em outras palavras, é uma propaganda, uma forma de narrar que incita um desejo onde antes ele não existia. E que desejo é esse? Um desejo por proteção. Um desejo por salvação. De anulação do pensamento. Um desejo pela anulação da responsabilidade.

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“O que você chama de ‘amor’ foi inventado por caras como eu. Para vender meias de Nylon.” Don Draper

“Há alguém zelando por nós.”, é a mensagem implícita. Nesse sentido elas têm uma característica fundamental, basilar: histórias de heróis são histórias paternalistas. Oferecem modelos de conduta adequadas a “pais” responsáveis. Em inglês, “cautionary tales”, elas são didáticas. E repetem-se tanto quanto for possível o leitor acompanhá-las.

Não é por acaso que as histórias de heróis façam tanto (ou certamente mais) sucesso entre crianças do que adultos. Noções de “mocinho” e “bandido” não exigem grandes elaborações mentais.

Mas, da mesma forma que leite A fortalece os ossos na infância, não é demais pensar que as narrativas heroicas têm o potencial de fixar seu “DNA” no inconsciente adulto. E não há nenhum mal nisso.

Do ponto de vista psicológico, amadurecer é o processo de se desfazer das fantasias e frustrações infantis para alcançar autonomia e habilidade de lidar com o mundo, sempre hostil, repleto de crises inevitáveis.

Reduzir tudo a uma relação de Bem/Mal e reagir com violência é manifestação de uma neurose. Imputar fantasias simplistas na realidade, que é sempre complexa, é, nesse sentido, um retrocesso, um ato falho.

Assim, já que é isso que fazemos aqui, é de se especular…

Na Alemanha, em 1919, Brecht foi premonitório. O  anseio coletivo por soluções rígidas, rápidas, pela ação de um “herói” numa época de crise grave, pode ter um resultado tenebroso…

O que acontece no mundo quando, diante da crise, a reação coletiva passa a ser uma história de “Nós x Eles”, “Bem x Mal”? Um enorme ato falho de proporções continentais?

Ingmar Bergman chamou isso de “O Ovo da Serpente“.

Bonbon in meinem kleinen Salon

Há uma insinuação aqui. Se você não entendeu, você matou aula de história

A história está repleta de episódios singulares, impossíveis de serem repetidos (quem se repetem são os historiadores, que usam os mesmos modelos para explicar coisas diferentes). Mas alguns sinais são evidentes demais para ignorar: crise material, polarização política, inflação… A tentação do heroísmo como solução é latente.

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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3 respostas para O heroísmo como propaganda e ato falho

  1. Thomas disse:

    Gosto dos textos postados neste espaço. Também achei esse post muito interessante. Só tenho uma ressalva: acredito que o termo “ato falho” não se ajusta ao contexto em que foi utilizado.

  2. Sidiomar Santos disse:

    Acredito que toda forma de mídia em sua essência se torna uma propaganda, independente do tema abordado. Se for filme, desenho ou HQs onde o tema é ecologia, a mensagem vai ser absorvida da mesma forma. Seguindo o raciocínio onde o heroísmo tem o seu lado ruim, onde eu concordo, até por que tudo tem um lado ruim, assim como existe o lado bom.

    É compreensível pensar que não seria bom uma única pessoa (ou herói) ser a consciência de uma grande população. Mas acredito que seria muito pior não existir alguém que nos lembre o que é realmente importante para todos. Se não fosse assim a historia mundial não teria seus heróis reais, como Nelson Mandela por ex.

    Outro exemplo, em países ricos como o continente europeu, onde os povos são muito bem esclarecidos onde a educação esta no alicerce da formação de cada cidadão. Nesses países a participação coletiva do povo é bastante forte, por que conhecem seus direitos como cidadãos e contribuintes. No Brasil, a educação e falha e não chega a todos pelo menos como deveria, e em nosso pais poderia ou deveria surgir alguém esclarecido, que não seria seduzido pelo dinheiro ou ameaçado pela intimidação, aos olhos do povo brasileiro ele seria considerado um herói, mesmo tal pessoa não se sentindo assim. Justamente por ele agir de forma correta, tentando ser um pequeno ex para desencadear no povo o poder que sempre teve.

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