A importância do formato: de Alan Moore à Shakespeare

Os painéis de 6 ou 9 quadros dão ritmo a Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, e  são uma referencia ao formato clássico dos quadrinhos de super heróis (by the way, discutimos o que seria um clássico aqui). Mas muito mais que isso: têm uma relação direta com formas de linguagem erudita, assim como como os sonetos de Shakespeare.

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O soneto foi criado no século XII e aperfeiçoado por diferentes escritores até se consagrar como o porta voz da poesia lírica. William Shakespeare escrevia sonetos compostos por três quartetos e um dístico, mas flexibilizava essa forma rígida de poesia quando o momento dramático da história pedia. No famoso monólogo de Hamlet, “Ser ou não ser, eis a questão” (Hamlet – ato 3 – cena 1), a poesia não segue a regra rígida do soneto, intensificando assim o estado mental conturbado do personagem. A mesma coisa acontece com Ricardo III na noite antes de sua morte (Ricardo III – ato 5 – cena 5) quando o personagem mostra todo seu desequilíbrio num texto sem métrica ou rima clássica.

Mas antes de compararmos o soneto de Shakespeare aos painéis de Watchmen cabe a pergunta: Qual o propósito de se produzir arte usando estruturas rígidas? As 14 linhas do soneto ou os 9 quadros da página de uma história em quadrinhos são melhores ou mais interessantes do que poesias ou narrativas gráficas mais livres? Voltaremos a isso…

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O verso livre/improvisado na poesia de hoje está para as páginas duplas (splash pages) das histórias em quadrinhos modernas, assim como a métrica rígida da poesia lírica está para a tradicional página de 9 quadros de quadrinhos como  no Príncipe Valente de Hal Foster ou no Homem Aranha de Stan Lee/Steve Ditko.

Essa poesia livre representada hoje pelo RAP é uma forma de música, como era também música o soneto rígido. Os bardos que recitavam a poesia lírica chamava ela de cantiga e usavam um instrumento musical para acompanhar sua declamação, mas diferente do RAP que usa uma base percussiva como ritmo, a cadência do soneto está na sua métrica. Por ter essa qualidade de música, de ritmo, o soneto cria uma atmosfera, fazendo o espectador/ouvinte mergulhar numa espécie de hipnose.

Os páginas de 9 painéis são também uma forma de linguagem rítmica hipnótica que cria a atmosfera onde o leitor entra. As variações dentro dessa estrutura rígida podem aumentar ou diminuir o ritmo da ação como nos exemplos abaixo de uma cena de ação frenética sem falas em 9 painéis (Capitão America de Jack Kirby) ou de uma cena conjugal mais lenta em 6 painéis, 3 deles dividindo o tempo de uma mesma cena (Watchmen de Gibbons).

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Ao nos acostumarmos com a divisão da narrativa em constantes páginas de 9 painéis ficamos muito mais atentos a mudanças. Se uma mesma cena é dividida por 2 ou 3 quadros, se metade da página é tomada por uma única imagem, ou especialmente se a página toda é um único painel, o impacto dramático dessas quebras de ritmo é mais forte.

O propósito da forma rígida é portanto conduzir o leitor/espectador/ouvinte. Por isso o gênio Alan Moore abusa desse recurso. Na história do Coruja em sua relação com a Espectral algumas páginas chegam a ter 12 ou 17 painéis, mostrando o ritmo da pulsação do personagem diante do seu objeto de desejo. Os quadros da história do Dr. Manhatan têm uma flutuação grande na quantidade de painéis por página, especialmente quando a narrativa pula de forma não linear entre passado, presente e futuro.

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Ozymandias tem sua história praticamente estável com exceção de alguns momentos de ação como quando ele sofre um atentado (mas sempre em perfeita simetria), reforçando o controle que o personagem exerce na história. Já Rorschach não tem variação alguma, sua história é narrada em constantes 9 painéis por página para mostrar  a incapacidade do personagem de expressar sentimentos. No topo de tudo isso Alan Moore usa uma forma consolidada de narrativa em quadrinhos para contar uma historia que é mais sobre super heróis do que de super heróis.

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Por isso é tão importante dominar formas rígidas em qualquer arte antes de se aventurar por estilos livres. Técnicas de pintura e composição clássicas antes de arte abstrata e conceitual, métrica e ritmo antes de verso livre, grades com um número constante de painéis antes de páginas duplas e geometrias desconstruidas. Arte é ofício, não uma dádiva.

Saibam mais sobre o que pensamos sobre Watchmen de Alan Moore aqui:

fonte: basta clicar aqui

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Sobre Picareta Psíquico

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5 respostas para A importância do formato: de Alan Moore à Shakespeare

  1. Só um adendo: hamlet e Ricardo III não possuem métrica específica porque não são poemas, mas sim peças dramáticas. Shakespeare escreveu 154 poemas publicados em 1609, numa época onde muitos teatros foram fechados e ele ficou “desempregado”. Estes sim seguem uma métrica específica de soneto Shakespeariano. Muito boa a matéria. Parabéns!

  2. Jarvis disse:

    Gostei muito do texto.Parabéns.

  3. filipetavora1 disse:

    Texto magnífico! Muito esclarecedor e com importante mensagem!

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