MADE IN USA: Heróis importados e seu acolhimento no Brasil

“Mostrai-me os heróis da história e literatura de um povo e apontarei as qualidades de seus homens e mulheres.”
Geikie & Cowper

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Tenho pouca, quase nenhuma experiência de leitura de quadrinhos super-heróicos brasileiros. As poucas histórias que li eram tentativas muito mal-feitas de transportar as fórmulas narrativas americanas, européias ou japonesas para nosso cenário. Bons quadrinhos de ficção científica, fantasia, terror e outros gêneros existem aqui, mas realmente não consigo me lembrar de ter lido alguma história de super-heróis que me animasse a ler mais. Mas, como eu disse no começo, li tão pouco que é bem possível que eu só tenha dado um pouco de azar.

horiz_macunaimaDo modo como entendo as coisas, a figura do super-herói não combina muito com o que temos como imagem do brasileiro típico. E não estou tentando dizer que nossa figura heróica é mesmo o Macunaíma. Só estou dizendo que você muitas vezes já pensou mesmo que o Superman dificilmente seria o escoteiro que é se sua cápsula tivesse caído no Brasil. E isso não significa que você pense que os americanos são moralmente superiores a nós. É só que, de supetão, sua primeira idéia é que um brasileiro jamais seria capaz de usar seus poderes de maneira tão desinteressada como faz o Super. E, se você é suficientemente honesto (e quero acreditar que seja), você sabe muito bem que nem mesmo você seria tão heróico e responsável se estivesse na pele de seus super-heróis favoritos (deixando claro que não estou pensando nos anti-heróis que se tornaram tão comuns dos anos 80 pra cá). Talvez nossas intenções fossem até muito boas, mas dificilmente seríamos tão benevolentes, principalmente no tratamento que dispensaríamos aos criminosos.
merchIsso nos deixa com uma questão complicada: por quê, então, histórias de super-heróis fazem tanto sucesso por aqui? Se a identificação não existe no sentido de sermos capazes de nos enxergar de capa, colante e cueca por cima da calça, defendendo os fracos e oprimidos e preservando a vida até dos que não têm qualquer respeito por ela, o quê enxergamos nos super-heróis para acolhermos tão positivamente milhares de páginas, horas e horas de projeção e toneladas de produtos relacionados? O conceito de massa-véio só funciona porque existe algum apelo bem-sucedido à nossa visão-de-mundo, ainda que não seja consciente para a maioria. E é claro que tenho minha teoria.

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Primeiro, temos que pensar na figura do herói nacional. Chamamos de herói nacional aquela figura lendária (geralmente real, mas que pode muito bem ser fantasiosa) que é celebrada por ter feito alguma coisa muito importante, que mudou os rumos da história de um povo. Se ele (ou ela) é real ou se é produto de uma construção ideológica muito bem-sucedida não importa tanto agora. O importante é que o herói nacional representa os valores mais elevados de um povo e as pessoas, de certo modo, acreditam que têm esses valores em si. Em tese, o herói nacional inspira o povo a uma certa atitude diante dos acontecimentos.
Tiradentes3 (1)Uma segunda coisa que precisamos pensar é nos tipos de heróis nacionais. São basicamente dois: o anônimo e o messias. O anônimo, o nome já diz, ninguém sabe exatamente quem é. Quase sempre faz parte de uma multidão, que realiza um grande feito espontaneamente e que só mais tarde vai ter sua importância compreendida. Já o messias (em hebraico, “o ungido”) todos sabem quem é e o quê fez. É o modelo heróico mais comum em qualquer parte do mundo. Muitas sociedades (se não a maioria) têm os dois tipos em sua tradição heróica.
francesa_revolucao2O terceiro ponto importante é a função política do herói nacional. Por inspirar valores e atitudes, o herói nacional é um dos elementos que ajuda a construir a percepção do povo acerca de sua relação com o Estado. Nesse aspecto, a presença do messias e do anônimo na mesma tradição heróica é importantíssima. O messias nos ajuda a compreender que o Estado tem atribuições e capacidades que estão além de nós, cidadãos comuns. Portanto, cabe a nós confiar no Estado. Por outro lado, o anônimo nos mostra que coletivamente temos o poder de fazer com que o Estado nos atenda e, quando isso não ocorre, simplesmente mudar o Estado. Resumindo, celebrar o messias é exaltar o Estado e celebrar o anônimo é exaltar o Povo.
Crowd Follows the Funeral Procession of Tancredo NevesA tradição heróica brasileira carece de heróis anônimos. Eles existem, mas são pouco estudados na escola, não são lembrados com feriados, nenhum grande momento de nossa história é realmente associado a eles. Mesmo no passado recente, os grandes movimentos populares acabam associados a figuras messiânicas. É Getúlio na Revolução de 1930, MMDC(A) na Revolta Constitucionalista, Lula nas greves do ABC, Tancredo nas Diretas Já!, o Movimento Passe Livre e as manifestações de 2013, Sininho e os Black Blocs… Estamos sempre projetando em alguém o papel de conduzir o povo às mudanças que esperamos, construímos a imagem dessas pessoas como se fossem absolutamente virtuosas, muito melhores do que todos nós. E, quando as mudanças não vêm e/ou esses líderes se revelam menos virtuosos do que imaginávamos, simplesmente abandonamos o messias-que-não-foi e esperamos o próximo-que-será.

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Super-heróis funcionam muito bem no mercado brasileiro exatamente por esse papel messiânico que representam. Eles têm capacidades e determinação muito acima das pessoas comuns, vencem desafios que nenhum de nós seria capaz de enfrentar, parecem (e alguns são) deuses, esperamos que eles salvem o dia porque é isso que eles podem fazer e nós não. É verdade que quadrinhos sempre focam a história de indivíduos excepcionais. Mesmo V de Vingança não é uma exceção. A simbologia da máscara — qualquer um pode estar por trás dela — não tem nenhuma importância para nós.
cappresEstamos muito próximos de mais uma eleição presidencial. Alguns ainda terão o 2º. turno das eleições estaduais. E não vai demorar muito para passarmos pelas próximas eleições municipais. E, ao contrário do que aconteceu em alguns gibis, não é possível eleger Superman, Capitão América ou Mitch Hundred. E mesmo eles não poderiam resolver todos os problemas de alguém, muito menos os de um país inteiro.

vv

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Sobre Quotista

Filipe Makoto Yamakami é historiador, professor, músico amador, twitólatra, monicólatra, etc. E realmente precisa de um emprego que lhe permita pagar as contas. @makotoyamakami
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3 respostas para MADE IN USA: Heróis importados e seu acolhimento no Brasil

  1. Conheçam o projto do Catarse que tem o objetivo de publicar um graphic novel com mais de 20 Super-Heróis Nacionais em uma edição de 100 páginas coloridas – A ORDEM – Financie! Divulgue! – http://www.catarse.me/pt/albumdqb

  2. Bom, de certa forma essa matéria está certa. Existem sim muitas tentativas frustradas de se criar universos de super-heróis brasileiros. Mas, ao mesmo tempo errônea, pois ao contrário do que foi dito aqui (provavelmente por que o autor do texto não leu muitas histórias brasucas – como ele mesmo citou) – existem sim muitos trabalhos bons e de conteúdo que expõem a nossa cultura e elevam a brasilidade do nosso povo. Basta que procuremos por essas histórias sem nos preocuparmos em criticar antes mesmo de realmente se aprofundar nesse maravilhoso mundo da nona arte.
    Posso citar ótimas HQs disponíveis para leitura online ou download grátis representadas pelo selo HQ Quadrinhos no ISSUU, postadas pelo grande Lancelott Martins. Ou histórias de outros heróis criadas a todo instante por quadrinistas independentes com o intuito de mostrar que temos muito potencial ainda a ser explorado e vou citar aqui o exemplo do meu próprio trabalho que está sendo acessado de maneira exorbitante, provando que o brasileiro ainda procura por algo seu, por leituras que tragam a excência das suas raízes culturais: http://issuu.com/scanscomics/docs/xam___issuu_pdf.
    Só posso desejar que os leitores brasucas nunca desistam de procurar por materiais que lhes mostrem a realidade do seu país. Que nunca desistam de incentivar as gerações que estão nascendo a procurar por histórias que trazem conhecimento do seu povo. Que nunca deixem de dizer: eu sou brasileiro e sinto orgulho de ler os quadrinhos nacionais!

  3. Pingback: O SINGULAR ASTRONAUTA: Mauricio de Sousa apresenta seu Übermensch | Quadrinheiros

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