Vida e linguagem no Diomedes de Lourenço Mutarelli

Hoje temos um Red Shirt para variar um pouco. Os Quadrinheiros apresentam Henrique Marson, professor de Filosofia em São Paulo, comentando a obra Diomedes do mestre Lourenço Mutarelli.

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Roland Barthes escreveu que toda linguagem é fascista. Fascismo não é impedir, mas sim obrigar: de modo que a linguagem sempre nos obriga a dizer, pois a língua é, num primeiro momento, assertiva, ela afirma como devemos dizer; sujeita-nos a um nomos repetitivo e gregário. O questionamento, a dúvida, a suspensão do juízo, a inquirição somente são obtidos mediante a subversão desse fascismo que impetra a tudo e todos e que estabelece a norma do “como deve ser dito”. É isto a banalização da língua. Ela se torna castrada, infértil e esvaziada, pois diz muito sem nada dizer. Uma das maneiras de fazer frente ao já sempre presente fascismo da linguagem é a arte, em especial a literatura, afinal é com a arte literária que se pode revolucionar a linguagem permanentemente; escapando, então, desse fascismo quase congênito que a acompanha. Em Diomedes, Mutarelli consegue fazer isso em duas frentes: através da escrita e da ilustração

Diomedes é uma trilogia em quatro partes (a última parte foi dividida em duas) cujo protagonista é um detetive fracassado e incompetente de nome homônimo. A primeira coisa que chama a atenção é a independência entre texto e ilustrações, há uma autonomia irredutível entre escrita e desenho. O que não compromete a coesão da obra. Se pudéssemos depurar o texto dos quadrinhos teríamos uma escrita formidável, caracterizada por um ouvido muito atinado aos diálogos e ao domínio da sonoridade – experimente ler o texto e perceber-se-á que as ondas sonoras dos diálogos são vida. O mesmo acontece com os desenhos, isole-os do texto e ver-se-á que funcionam perfeitamente. Essa independência entre texto e imagem não só é prova patente do virtuosismo de Mutarelli em ambos, mas também atesta a linguagem antifascista que o autor emprega nos dois âmbitos, afinal o texto não detém precedência sobre a imagem, tampouco a ilustração a tem sobre o texto, em verdade há uma simbiose muito bem feita que imiscui texto e imagem de uma maneira muito própria e original.

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Arte se faz com técnica. Segundo Ariano Suassuna é indispensável também o domínio do ofício. Tem-se que guardar observância ao domínio duplo que há em Diomedes, pois lá há o ofício do escritor e do ilustrador, há as técnicas pertinentes a cada um, que permitem dar a forma à obra de arte. Assim, através da sabedoria do ofício e do domínio técnico, o artista obtém meios para imprimir sua marca, dar a forma tão cara ao objeto de arte; a técnica é o que faz com que a imaginação não seja tolhida, é o impulso para que seu voo seja duradouro e chegue às alturas almejadas. Diomedes transborda técnica apurada na escrita e no desenho, este em especial é de uma agudeza sem par, que através de apenas duas cores – preto (de tinta) e branco (da folha) – evidenciam incontáveis nuances do humano, o desencantamento, a decadência, o fracasso, o sofrimento, a loucura, o desespero, a angústia: caracteres inexcedíveis de nossa existência.

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Quadrinhos são arte. O eminente crítico literário Antonio Candido define literatura de forma muito abrangente como sendo todas as criações com caráter poético, ficcional ou dramático em todos os níveis da sociedade, ou seja, a literatura é algo manifesto universalmente pelo homem em todos os tempos e lugares, ela é fabulação sempre assegurada em última instância pelo sonho, que remonta a tempos imemoriáveis. Ainda recuperando ideias do mestre, a forma é mais determinante na arte que o conteúdo, de modo que o conteúdo só é profícuo caso esteja bem ordenado, isto é o que determina a Grande Arte, é preciso unir a mensagem à sua forma mais intensa.

Ora, diante do exposto podemos analisar Diomedes como sendo obra de arte por excelência, a forma pela qual o autor cria e organiza é a mais adequada possível para o conteúdo que trabalha, a escrita cortante, veloz e às vezes arrevesada converge para o conteúdo caótico, cáustico, insondável e niilista da história. Mesmo as ilustrações ricas em elementos, dotadas de um simbolismo intenso, formatam bem os temas do caos e da inexorabilidade das coisas que não conseguimos compreender bem devido a sua natureza mesma que é incognoscível, as ilustrações muitas vezes mostram incontáveis elementos, a leitura da imagem nos escapa sempre e revela a cada nova visita elementos antes não percebidos. O recurso da erudição filosófica, a multiplicidade de interpretações para o mundo e para a vida também passam a impressão de caos, de tragédia cumprida e não compreendida que o quadrinho trabalha.

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A obra detém uma erudição bastante explícita, mas que não resvala em momento nenhum em eruditismo ou pedantismo gratuito. É notória a rede de influências de Mutarelli. No aspecto filosófico é possível perceber um existencialismo de verve sartreana e ascendência nietzschiana muito presente. O nada que somos, a angústia que aflora ao lidar com o nada irremediavelmente constante na experiência humana, o aspecto sujo, execrado do homem, a falta de sentido da vida e a negação perene que o ser humano realiza e traz ao mundo, o salto de um trapezista no nada é símbolo candente do homem lidando com o nada.

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Nietzsche dizia, através da tese do eterno retorno do mesmo, que tudo retorna sem cessar, a figura da roda da fortuna no início de cada história parece pontuar o destino de fracasso do detetive Diomedes, todos os casos, como num círculo vicioso da sua sorte, estão fadados a serem insolúveis, mesmo a busca pelo mágico Enigmo, que é o único caso que atravessa toda a história, obteve a única solução possível: a certeza de que a solução não mudou nada e que um novo caso é apenas mudar o cenário da mesma tragédia. Não há redenção pois a esperança – mesmo sendo a última – também morre, e a vida não passa de uma piada de mau gosto, disse o próprio Mutarelli. Há um desfile de autores, Borges, por exemplo aparece num dos diálogos, que parece corroborar a tese de que o destino não está, pelo menos completamente, sob o nosso controle.

No que toca ao traço, personagens vários aparecem numa sequência de grande versatilidade técnica, pois não surgem com o traço que mostra Diomedes: o autor emula com propriedade o traço de cada cartunista que traz à festa de banda desenhada de Amadora. Incrível, um tributo aos cartunistas que parecem tê-lo influenciado. O traço de Mutarelli detém um aspecto barroco, tanto na técnica que abunda na feitura dos detalhes quanto na quantidade assombrosa de elementos que figuram em certos quadros, ressalvo apenas que há quadros simples também, o que prova o repertório da técnica de Mutarelli.

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Outro tema que tem constância na saga de Diomedes é a violência. Parece que desde Rubem Fonseca a violência faz parte da literatura produzida por autores urbanos no Brasil. Críticos categorizaram a escrita de Fonseca como um realismo feroz ou brutalismo, e o mesmo vale para Mutarelli: pancadas, tiros, destruição, morte, entorpecimento, traições, mentiras estão presentes na obra de forma inequívoca, sem descontos, sem exceções, não há nenhum tipo de suavização da violência. Em algum sentido, podemos falar de um niilismo forte na obra mutarelliana.

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Chama a atenção o caráter autobiográfico da obra. O próprio autor diz que Diomedes é inspirado em sua vida, mais precisamente em seu pai. Há quem diga que literatura não passa de autobiografia. Nietzsche proferiu pela boca de Zaratustra que só lhe agradava os livros escritos com sangue, que o sangue era o que fazia a obra ter espírito; as criações de Mutarelli são exemplares que transbordam seu sangue, seu ser, um universo próprio, talvez doentio, mas que funciona como um espelho do que somos e escamoteamos de nós mesmos, numa repressão que só encontra catarse pela arte, esta, sim, a verdadeira psicanálise. Estamos submetidos a certos padrões, de modo que não só a linguagem é fascista, a vida também o é. Há certas vigências que clamam pela formatação do nosso ser. Com a arte podemos subverter esses padrões.

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Em Diomedes os temas são os mais execráveis, tudo que erige a narrativa concorre para mostrar o que há de mais perturbador na existência humana. Acho que a maior insurreição que Diomedes opera é contra o dogma do sucesso. Vivemos um tempo da obrigação do sucesso, o fracasso não é admitido. Prova cabal disso é a literatura de autoajuda, que nos ensina a “vencer na vida”, mal sabem que a vida sempre nos vence… pela morte – do nada viemos e ao nada retornaremos. Diomedes, ao se mostrar como anti-herói, como corrompido, traído, fracassado, gordo, bêbado, cruel, vingativo etc., só faz ver aquilo que, a despeito da presença irrefutável, insistimos em negar, em não ver. E assim o espelho refletindo a imagem do arquétipo platônico perfeito se estilhaça e mostra, em fragmentos, a quase maldição que carregamos.

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A literatura de Mutarelli é inquiridora, problematizadora, crítica, que nos faz pensar, que expande nossa percepção, nos liberta, e desse modo nos humaniza como toda Arte deve fazer.

Henrique Marson

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