Mulher Hulk – sexo, hormônios e raios gama

A um tempo atrás David S. Goyer, o roteirista do filme Man of Steel, se envolveu numa polêmica quando afirmou, num painel transmitido on line, que a criação da personagem Mulher Hulk teve o único propósito de fornecer um objeto sexual compatível para o personagem principal (no caso o Hulk). Em suas próprias palavras: uma atriz pornô gigante e verde!

Em defesa da personagem Stan Lee declarou que a ideia veio da hipótese de uma personagem que tivesse os poderes do Hulk, mas que pudesse controlá-los. Jennifer Walters recebe uma transfusão de sangue de seu primo, Bruce Banner, ganha os poderes decorrentes da radiação gama, mas diferentemente de seu primo, a versão verde e agressiva de Jennifer não é uma entidade diferente. Ela mantém as mesmas memórias e depois de algum tempo, pode disparar a transformação de forma consciente.

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No início havia um certo descontrole após a transformação, uma raiva acentuada na personagem (claramente ligada ao imaginário masculino de um periódico descontrole hormonal nas mulheres). Esse descontrole vem com uma dose maciça de sexualidade já que as curvas do corpo pequeno de Jennifer se acentuam e se insinuam entre o que sobra de suas roupas após se transformar na Mulher-Hulk. Mas rapidamente o descontrole é atenuado e Jennifer Walters passa a ser uma advogada que trabalha de dia e combate o crime a noite em sua versão gama (clichê clássico!).

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Num mercado dominado por roteiristas homens e voltado para um mercado consumidor majoritariamente masculino, o comentário de Goyer não é uma surpresa. Existe todo um universo de fãs que debatem em fóruns on line os detalhes mais íntimos da anatomia e da compatibilidade sexual dos personagens de ficção. Será que a coisa do Coisa é de pedra? Será que uma camisinha de kriptonita impediria o ímpeto balístico potencialmente assassino do orgasmo de Kal-El? Até aonde vai a elasticidade de Reed Richads?

Nessa mesma linha de investigação turbinada pelos hormônios seguem as listas das personagens mais gostosas (e isso depende MUITO do artista – ah anos 90!), ou que mais tiveram parceiros sexuais e por isso são safadinhas, fáceis, etc. A Mulher-Hulk entra nessas listas quase todas as vezes porque os roteiristas tendem a ver nela uma devoradora de homens, por sua independência, tamanho e força.

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Estas questões profundas são motivadas pela curiosidade e pela investigação naturais na puberdade, mas perdem um pouco o sentido depois de uma certa idade. O problema é que nossa cultura enraizada em valores masculinos e o recente prolongamento da adolescência reforçam essa leitura imatura e simplista do mundo, e qualquer tentativa de crítica ou de ampliação desse ponto de vista descamba para uma defesa irracional, quase primitiva, como se nossa cultura não fosse uma construção histórica, mas sim um direito inato. David S. Goyer, Tony Harris e outras figuras ligadas aos quadrinhos e a cultura pop, e os fãs que os defendem, muito se assemelham ao personagem que originou tudo isso – o Hulk! Quando contrariados são tomados por uma incontrolável agressividade. Hormônios afogados em raios gama!

No fim o insight que apresenta a mulher como alguém que controla os efeitos da radiação gama em oposição ao homem que é escravo dessa radiação, me parece mais verdadeiro do que toda essa polêmica.

 

 

 

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Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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16 respostas para Mulher Hulk – sexo, hormônios e raios gama

  1. Velho Quadrinheiro disse:

    Picareta (not),

    bela conclusão. Diria que há fatores biológicos/evolutivos que sustentam (mamãe bióloga sempre dizia, as fêmeas de qualquer espécie são identificáveis pela estabilidade e “sincronização” ambiental, seja qual for o micro ou macro-ambiente).

    Se não for a biologia, os sábios são sempre unívocos em reconhecer, só a mulher, e não o Chapolin, tem os recursos capazes de nos salvar do caos, vide “Ensaio sobre a Cegueira”.

    Outra. De tudo que From Hell pode ser classificado, pra mim, é e a obra máxima do cutucão na ferida do “patriarcalismo” na cultura ocidental. Precisamos reler aqueles catatais de texto com letrinha pequenininha no final das edições. Lá está a mulher.

    • Promethea talvez seja o melhor exemplo de um retrato profundo do feminino. Além de Mina Murray (Liga extraordinária) que é uma das personagens/protagonistas dos quadrinhos mais tridimensionais que eu já vi. Acho que não resta dúvida – Alan Moore é um mangina! Hahahahahaha

  2. Stefano disse:

    cheguei a ler a fase savage dela…
    como é ke ela conseguia voltar pra casa trajando farrapos ?? hehehehehehe

  3. Pingback: Mulher-Aranha, a sofrida (e sexualizada) cobaia da Marvel | Quadrinheiros

  4. Stefano disse:

    se as mulheres combatessem plenamente o estereótipo de objeto sexual… dificilmente veríamos heroínas “hot”…

    • Mameha disse:

      Culpabilização da vítima mode on. 😦

    • A questão nem é o desejo sexual. Isso é humano e perfeitamente normal. O problema é associar o desejo sexual a uma relação de dominação X submissão, força X fragilidade, onde o papel da mulher é pré-definido socialmente. A busca da igualdade, onde esses papéis não são pré-definidos, é responsabilidade de todos. No caso dos quadrinhos, onde 90% dos produtores e dos consumidores são homens fica meio difícil dizer que as mulheres tem qualquer peso nessa decisão…

  5. God Zamiel disse:

    Nunca foi das minhas personagens preferidas

  6. Mameha disse:

    Tem certeza que o público alvo deste blog é mais maduro? Porque não é o primeiro post em que o autor fala ‘alho’ e alguns leitores entendem ‘bugalho, baralho e caralho’.

    Agora a culpa é das mulheres por conta da hipersexualização? Isso só pode ser brincadeira.

  7. Não é fácil! Ideias tão arraigadas são muito difíceis de ser questionadas. E para além disso, admitir a própria parcela de responsabilidade diante de uma injustiça requer um grau de auto crítica que é bastante escassa.
    Escrevemos para todos os públicos porque achamos que o diálogo é a única forma de avançarmos, mesmo que na maior parte das vezes tenhamos que começar explicando o que é um diálogo.
    Obrigado pelo comentário que enriquece nosso blog, e continue colocando suas ideias no vento!

  8. Luiz André disse:

    Fico pensando que a maturação da arte sequencial tem de partir de uma ideia chave que consiga juntar opostos e promover reflexões dos roteiristas, desenhistas, arte-finalistas e demais equipe editorial para os leitores e críticos em geral: diversidade. Se há diferentes formas de se contar uma mesma história, existe, por outro lado, outras diferentes maneiras de senti-la, de apreendê-la, de gostar e desgostar, de quebrar velhos paradigmas a fim de apresentar certo personagem ou trama para novos públicos a cada geração. É esta característica mutacional que não se pode perder durante o folhear das páginas de HQs. Quanto à questão da sexualização da mulher, sim, ela existe, sim, o público que consome e a equipe que produz são masculinas em sua maioria (aqui, levando em conta as grandes editoras, porque, se formos pensar nas editoras independentes ou artistas que produzem sazonalmente, talvez a equação se inverta um pouco, quero acreditar), mas isto não quer dizer que esta deva ser o ideal dominante nas HQs, não nesta época em que vivemos. Prefiro pensar que as mulheres são partes relevantes e indeléveis na realização de uma história a ser publicada, seja de forma indireta (ou até mesmo inconsciente e não imputando a mulher um papel de musa inexpugnável em um pedestal inalcançável), procedendo de uma experiência do autor, do contar de uma história que prescinde da presença feminina para desabrochar, ou, melhor, de forma direta, tendo as próprias mulheres, roteirizando e desenhando suas histórias e concedendo a nós, leitores, material suficiente para apreciar uma arte que dialoga com os tempos kairótico e cronológico que vivemos.

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