PLANETARY: Virando o jogo (ou “Por quê a CBF deveria ler gibis”)

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AUTO_sonDerrotas são desagradáveis. Algumas são até fáceis de engolir, principalmente quando a esportividade é mais importante do que o placar. Outras são arrasadoras, destruidoras, nos forçam a escolher entre enfiar a cabeça num buraco, procurar quem possa levar a culpa ou admitir uma dura verdade sobre nossas limitações. Pensei em escrever isto logo após o famoso 7×1 do Mineirão. As circunstâncias (o rodízio de escritores do blog, na verdade) me deram o tempo que eu precisava para pensar melhor no tema. (Mas não fiz isso e, portanto, este é mais um post meia-boca que escrevo).

Superman75Entre todas as coisas sem importância, futebol e quadrinhos são as coisas mais importantes para mim. (Sério, eu nem sei qual das duas vem primeiro. Suspeito que seja o futebol). Além de toda a diversão, da distração, volta-e-meia me pego pensando em como a vida pode ser entendida com mais clareza quando comparada a um gibi ou a uma partida. O gibi e o futebol, porém, têm uma grande vantagem sobre a vida: a derrota nunca é definitiva. Sempre haverá um outro jogo, um outro campeonato e o herói pode sofrer muito, pode até morrer, mas sempre vai vencer no final.

Penso que Planetary é um bom quadrinho para se ler agora que tentamos entender o que acontece com o futebol brasileiro. (Planetary é um bom quadrinho para se ler por si só, mas eu precisava de um tema para escrever. Então, deixa eu ser feliz em acreditar que tive uma idéia muito inteligente e que ninguém mais teve). (Ah! Talvez seja bom eu avisar que os parágrafos a seguir contêm spoilers).
2602395-planetary_26Somos apresentados a Elijah Snow quando ele é recrutado pelo Planetary, uma organização científica privada especializada em fenômenos inexplicáveis. O subtítulo da série, “os arqueólogos do impossível”, traduz muito bem o que parece ser o tema principal. Sobre Snow, sabemos apenas que tem poderes congelantes e que é muito mais velho do que aparenta. Ao longo da série, vemos como Snow e seus companheiros percorrem o mundo encontrando pessoas e enfrentando situações que são grandes homenagens às várias fases dos quadrinhos e da cultura heróica pop. Basicamente, a função do Planetary é resgatar um conhecimento perdido sobre eventos e pessoas que mudariam radicalmente o mundo se fossem amplamente divulgados.
planetaryn1-p02Em dado momento da série, percebemos que todo esse conhecimento não foi realmente perdido, mas escondido por quem tem intenção de se beneficiar sozinho dele. Não só isso, Snow era a verdadeira inspiração do Planetary e tinha aceitado ser colocado no ostracismo (após lavagem cerebral) para que sua organização não fosse destruída e pudesse continuar cumprindo seu papel, ainda que não de maneira plena. Quando o Planetary perde um de seus operativos e se torna impotente, Snow é chamado de volta e só aos poucos recupera parte da memória.
Reunindo todo o conhecimento que ele já havia coletado e esquecido com o novo conhecimento compilado durante sua ausência e logo após o retorno, Snow elimina seus inimigos um a um, até finalmente dar um ultimato ao que parecia ser uma força invencível e colocar o Planetary como uma marca indelével na história.

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Assim como Elijah Snow é a alma do Planetary, o futebol brasileiro também tem uma essência: o jogo bonito. Foi ele quem tornou o nosso futebol tão amado e temido no mundo inteiro. Em algum momento, em nome do resultado, o jogo bonito perdeu espaço em nosso futebol e só de vez em quando fez algumas aparições. Ainda assim, o futebol brasileiro continuou alcançando algum sucesso e, principalmente, gerando ganhos imensos a quem (não tão) por baixo dos panos se beneficia da pauperização econômica e técnica do esporte. Quando sumiu de vez, muita gente até acreditou que o futebol brasileiro poderia sobreviver sem sua essência. Até que veio o Mineiraço.
Por enquanto, a trajetória do futebol brasileiro combina com a do Planetary. Resta saber se, assim como Elijah Snow uniu o conhecimento antigo e novo para se afirmar novamente diante do mundo, o futebol brasileiro será capaz de resgatar o jogo bonito e somá-lo a tudo o que a ciência esportiva e a evolução tática do esporte produziram nas últimas décadas. Infelizmente, duvido muito que os cartolas da CBF leiam gibis.
E ainda temos que agüentar isso...

E ainda temos que agüentar isso…

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Sobre Quotista

Filipe Makoto Yamakami é historiador, professor, músico amador, twitólatra, monicólatra, etc. E realmente precisa de um emprego que lhe permita pagar as contas. @makotoyamakami
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