Entre a ética e a ficção: A questão palestina, Death Note, Latuff e House of Cards!

Falar do Palestina do Joe Sacco é bem fácil. Mas reduzir o longo conflito entre Israel e Palestina a apenas um quadrinho seria o mais do mesmo que resume a apatia sob a qual a questão é tratada.

Apatia é o problema.

Sem apatia o Picareta Psiquico foi além. Escreveu um post inteiro dedicado às mais diferentes referências sobre oriente médio que você pode ler aqui. E se quiser uma referência nacional que fala sobre o tema, há uma outra dica que já dei aqui sobre o Lixo da História do Angeli.

Ao contrário de achar que essas obras são ruins ou não concordar, as vejo como referências atemporais. No caso de Palestina, de  Joe Sacco, é uma obra de referência quase acadêmica. Prova disso é a edição comemorativa lançada em 2011,  que trazia em seu prólogo textos de intelectuais renomados, como José Arbex na edição brasileira, e de Edward Said em texto que foi escrito para a versão original.

Leitura Obrigatória para todo quadrinheiro/quadrinista

Leitura Obrigatória para todo quadrinheiro/quadrinista

Mas o ponto que interessa é outro. Ando revendo um anime e acompanhado uma série que me fizeram coçar o cérebro. Eles levaram a uma reflexão um pouco maior. O anime é Death Note, que já foi citado aqui quando o Nerdbully deu medalha de prata como um dos melhores detetives dos quadrinhos. A série é a excelente House of Cards. Pode parecer que ambos não tem a menor relação e que isso não tem nada a ver com Gaza. Mas vamos com calma que eu juro que chego lá.

Prêambulo básico de explicação das obras:

– Death Note: a história centra-se em Light Yagami, um estudante do ensino médio que descobre um caderno sobrenatural chamado “Death Note”, no qual pode matar pessoas se os nomes forem escritos nele enquanto o portador visualizar mentalmente o rosto de alguém que quer assassinar. A partir daí Light tenta eliminar todos os criminosos e criar um mundo onde não exista o mal, mas seus planos são contrariados por L, um famoso detetive particular.

Decidir a vida e a morte com apenas os traços de uma caneta em um papel

Decidir a vida e a morte com apenas os traços de uma caneta em um papel

– House of Cards: Um deputado do congresso americano, Frank Underwood, por meio de jogos políticos inescrupulosos, vai ganhando mais e mais poder, com o objetivo de alcançar um cargo junto à presidência.

Ambas as produções na verdade estão discutindo uma questão de fundo da humanidade, a ética. Pensam esse conceito nos seus mais extremos limiares. Light compreende que é capaz de julgar melhor do que qualquer ser humano. Entende que sua visão de justiça e direitos são superiores. Ele se entende enquanto bastião desses valores mais centrais. Frank é um peso falso da balança, um fiel intencionalmente desregulado. Ele nos mostra como os jogos de poder são complexidades incríveis, onde subjugamos nossa própria ética em nome de bens maiores.

"O dom de um bom mentiroso é fazer com que as pessoas pensem quem você tem total falta de talento para mentir" - Frank Underwood de House of Cards

“O dom de um bom mentiroso é fazer com que as pessoas pensem quem você tem total falta de talento para mentir” – Frank Underwood de House of Cards

O que quero apontar com esses dois casos é que eles refletem justamente algumas posições muito comuns em debates acalorados de questões políticas como Gaza. E no meio delas existem cartunistas, jornalistas, escritores etc.

Alguns se julgam donos da verdade. Capazes de dizer que há um certo e um errado. Levam o debate para o senso comum burro de que é uma disputa religiosa. Deixam de lado justamente personagens escusos como os “Frank Underwood”. De um lado os opressores se pintam de defensores da paz. Do outro os oprimidos são sufocados. De um lado temos a grande mídia, que apoia o discurso Sionista. Do outro alguns poucos cartunistas e artistas, que tentam escancarar o que realmente acontece.

Um caso que acho muito interessante é o de Latuff. Cartunista ativista político desde 1990, após sua própria experiência na região da Cisjordânia passou a fazer charges sobre o conflito. Mas assim como Angeli, suas charges não são engraçadas. São ácidas. São corrosivas. Algumas até nos dão medo. Mas elas escancaram uma questão.

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Encaixaria desta maneira: Frank representa, para mim, os sionistas. Aqueles que realmente sabem o que está acontecendo, mas preferem continuar seus jogos políticos para ganhos próprios e inescrupulosos. O sonho deles era de poder agir como Light. E ironicamente eles praticamente o fazem, uma vez que tem todo o armamento e poder bélico para isso. Basta escrever as coordenadas e não um nome. Se no percurso ocorrer um erro em crianças forem mortas, faz parte das estatísticas. É apenas um efeito colateral do jogo.

Latuff age como uma oposição a essas deturpações éticas. Assim como age L no Death Note. Porém não existem poderosos por tras do cartunistas, assim como existem por trás do detetive. Ele apenas pode mostrar aquilo que viu e vê. E devemos então, por uma questão de essência de justiça, engrossar o coro. Permitir que alguém decida pela morte de inocentes, permitir que políticos usem de discursos mais diversos para defender interesses privados.

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Usei os dois exemplos por que queria trazer um pouco de distância do fato. Não adianta e nem é meu papel aqui contar a história do conflito. A minha intenção era tentar mostrar que a ética, ou neste caso a anti ética, é o cerne do problema. A disputa é um genocídio, não uma guerra. E nada melhor do que ir atrás de outros exemplos, que estão presentes no nosso dia a dia, para tentarmos elucidar o que está acontecendo.

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Quando o ato de um papa nos faz lembrar de coisas que preferíamos esquecer

 

 

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6 respostas para Entre a ética e a ficção: A questão palestina, Death Note, Latuff e House of Cards!

    • Sidekick disse:

      Devo discordar do Veríssimo.
      Afinal mesmo quem não se posiciona, numa situação como essa, na verdade está escolhendo sim uma posição.
      Escolhe o lado do opressor…

      • Velho Quadrinheiro disse:

        Eu discordo que haja muro.
        Não acho que matar centenas de pessoas, crianças ou famílias seja mais grave do que matar uma única delas.

        Não sei… Não me dou bem com linhas traçadas do tipo “conosco ou contra nós”. Me lembra colegial, coisa pessoal, desculpe. Mas isso é uma armadilha retórica, enorme potencial pra tragédias. Isso aconteceu com frequência demais em meros cem anos (mesmo que muitos leitores do blog achem que isso é “muito tempo atrás”).

        Fácil é escolher lados, especialmente aquele que fala mais alto. Falam de guerra aqueles que nunca chegaram perto dela… Eu já senti o cheiro pra saber que é uma merda.

        Dor e sofrimento não escolhe lados, rico ou pobre, Israel ou Palestina…

        Essa coisa toda só me dói…

  1. Stefano disse:

    Mandei recado aos sionistas num site:
    “Sionistas.. vocês são cínicos demais
    Vocês chegaram na Palestina em 1918 como agentes britânicos. (Lord Balfour)…
    Vocês praticaram terrorismo contra os seus miguxos britânicos na época do Mandato Britânico na Palestina (especialmente o atentado contra o King David Hotel em 1946). vocês também cometiam atropelos contra os palestinis na mesma época… vocês tinham grandiosos acordos com Hitler (Acordo Haavara) nos anos 1930.Vocês chacinaram palestinos em Deir Yassim em 1948… Vocês mataram o Conde Bernadotte no mesmo ano. Vocês promoveram 1 atentado no Egito(Lavon Affair) contra os seus aliados britânicos e estadunidenses no intuito de culpar Nasser e jogar os EUA e RU contra ele ! Vocês destroçaram o USS Liberty durante a guerra dos 6 dias no intuito de culpar o Egito e envolver os EUA na guerra! Vocês foram aliados do apartheid sul-africano e inclusive deram bomba atômica pra essa ditadura infame (Por isso que Netanyahu não compareceu ao funeral de Mandela, não queria ser vaiado). Vocês estão envolvidos em atividades criminosas como o tráfico de órgãos.
    Vocês discriminam os negros em israel.;..mas no ocidente vocês se posam de antirracistas.
    vocês agrediram recentemente a Síria…. vocês roubam sistematicamente terras palestinas (bulldozers )etc etc etc…
    e vocês ainda querem que acredite em vocês ??!!! é muita cara de pau !!”

    • Sidekick disse:

      Concordo em muitos pontos com você Stefano. Mas tenho medo de qualquer radicalismo. Quando apoio a causa Palestina é por que no meu íntimo entendo isso como justiça. Acreditar no discurso sionista é um tanto quanto ingênuo. É o que coloquei no post. Mesmo que um tanto exacerbado pelas angústias do momento, temos que escolher um lado que entendemos como justo e esse lado não é o dos sionistas….

      • Stefano disse:

        dizer a verdade não é radicalismo !
        bom… se israel joga sujo com os aliados…imagina com os inimigos !

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