Pensando quadrinhos: referências e formação de público

De acordo com Robert McKee no livro Story:

Imagine, em um dia inteiro, as páginas de prosa viradas, peças encenadas, filmes exbidos, o fluxo interminável de comédia e drama televisivo, imprensa escrita e televisionada vinte e quatro horas, estórias de ninar contadas a crianças, conversas de bar, fofocas na internet, o apetite insaciável da humanidade por estórias. A estória não é apenas nossa mais prolífica forma de arte, mas também rivaliza com todas as atividades – trabalhar, brincar, comer, exercitar-se – por nossas horas acordado. Contamos e ouvimos histórias tanto quanto dormimos – até quando sonhamos”.

Excelente livro para aprender algo sobre roteiros de cinema

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Podemos dizer que hoje sofremos uma overdose de histórias e consequentemente de um esgotamento de possibilidades. Muitos autores argumentam que hoje é impossível criar uma nova história, mas apenas contar as mesmas histórias de maneira diferente, dado o esgotamento. Se você disser que isso é errado – que é possível criar algo realmente novo – provavelmente é porque não consumiu histórias o bastante – se é que isso é possível nos dias de hoje. Garanto que se você pensar por no mínimo 5 minutos sobre qualquer história vai lembrar de algo muito parecido se não igual! A acusação mais comum nos dias de hoje é o plágio e já falamos disso aqui. Mas continuando…

Além dessa overdose de histórias, com o advento da internet também temos um maior acesso a vários formatos de história, o que faz com que se torne ainda mais difícil a criação de um novo formato, ou seja, até mesmo criar modos diferentes da mesma história está se tornando difícil.

comics-comixology

Na década de 90 era imensa a dificuldade para se assistir a um anime. Os fansubbers não eram virtuais como hoje, mas grupos que legendavam os animes em VHS e conseguir isso não era tão simples quanto fazer um download. Às vezes a ânsia por conseguir era tanta que víamos os animes sem legenda mesmo. Vi Record of Lodoss War para TV completo e sem legenda! Mangás então eram mais inacessíveis ainda.

[Nota do Velho Quadrinheiro: mentira porque eu emprestei minhas VHSs de Lodoss War e tinha legenda sim, mas em inglês]

[Direito de resposta do Nerdbully: o que você me emprestou foram os OVA do Lodoss. Há também uma série de TV, e é dessa que estou falando no post]

Lembro que o que mais me atraía em mangás e animes era o final. Acostumado que estava com as narrativas americanas que nunca têm fim, ver algo com o ciclo completo (três atos) era novo para mim e também tudo parecia original e inovador.

Hoje, com mangás e animes ao alcance de um clique, já consigo perceber seus vícios de formato (os clichês), coisa que não conseguia fazer quando o acesso à produção era escasso. E parece que as produções Orientais e Ocidentais estão se cruzando cada vez mais. Ou sempre se cruzaram, mas isso hoje é mais perceptível pelo maior acesso às narrativas. Apenas dois exemplos do que quero dizer.

Em Kamen Rider Ryuki, um tokusatsu (o gênero ao qual pertencem Jaspion, Changeman e afins), temos o Kamen Rider Knighto, cujo avatar é um Morcego, dê uma olhada:

Kamen rider knight

A referência é óbvia: Batman, o Cavaleiro (Knight) das Trevas! Agora veja o Cavaleiro ressuscitado na mitologia do Morcego por Grant Morrison:

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Isso mesmo. A referência que faz referência à referência! Um looping infinito que só tende a aumentar!

Outro exemplo é o fato das narrativas orientais se estenderem cada vez mais. Costumo dizer que os americanos aprenderam a dar um final aos seus comics com os mangás e os mangás a estenderem a narrativa ao infinito com os comics! Há cada vez mais produções de comics com final (Y, Irredeemable etc.) e mangás que se prolongam indefinidamente (Berserker, Naruto etc.).

O fato é que o maior acesso do público a histórias com diferentes formatos leva à formação de um público cada vez mais exigente e por que? Simplesmente porque ele vai conseguir reconhecer a inspiração e referência muito mais rápido devido à abundância  de material à disposição!

A saída dos autores hoje em dia é, ao invés de mascarar as referências, jogá-las na cara. Peguemos Apolo e Meia-Noite, que são Superman e Batman ou o pastiche que são os filmes do Tarantino, ou o Supremo de Alan Moore que escancara sua referência ao Superman. É como se os criadores de histórias dissessem “eu vi que você viu – talvez mais -, eu conheço todas as referências, veja o que eu consigo fazer com elas”.

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E se você acha que alguém é original eu realmente o invejo. Mas lembro que meus primeiros sinais de saturação se deram por volta dos 25 anos. Essa geração que nasceu conectada, que lê quadrinhos nacionais, americanos, japoneses, coreanos, que vê filmes blockbuster, cinema japonês e de outras nacionalidades, que joga videogame sem parar certamente vai saturar-se bem mais cedo e, consequentemente, será um público mais exigente.

Boa sorte àqueles que tentarem cair no gosto da nova geração.

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Sobre Nerdbully

Mestre do Zen Nerdismo.
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5 respostas para Pensando quadrinhos: referências e formação de público

  1. Luiz André disse:

    Vivemos em um tempo bastante engraçado: se por um lado, há a diversidade de produtos voltados ao mercado consumidor proveniente de várias culturas distintas as quais culminam em livros, filmes, HQs, mangás entre diversas outras obras, permitindo que nós, famigerados leitores e espectadores, tenhamos a possibilidade de conhecer outras histórias sobre diferentes abordagens e formas narrativas (ou, como diz o texto, reconhecer nestas histórias elementos extraídos de outras influências culturais), por outro lado, esta homogeneização globalizada da cultura pode se tornar um problema daqui a alguns anos, já que a originalidade genuína passa a ser escassa, o que se pode fazer é pegar diversos elementos que à princípio não se relacionam, amarrá-los de alguma forma a fim de que seja apresentado ao grande público como algo superficialmente “original”. Sim, é possível recontar a mesma história, inserindo um ou outro detalhe que possa fazer a diferença, da mesma forma que também é possível explorar detalhes que passaram despercebidos ou que poderiam acrescentar um algo mais à mitologia de um personagem ou universo de histórias. A questão é: mas até quando? Quantas vezes teremos de ver a mesma cena dos pais de Bruce Wayne sendo mortos em um beco escuro? Eles não poderiam sofrer as mesmas consequências trágicas, mas de uma maneira diferente? Dizem que durante uma jornada, o que realmente é aprendido como lição não é o destino final, mas sim a viagem per se e as mudanças que ocorrem até seu desfecho. Por ora, aproveitemos as boas histórias e critiquemos as más histórias, enquanto ainda for possível apreciar sem ser afundado por uma maré autorreferencial;

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  5. Rafael B. disse:

    uma coisa bonita na vida é o otimismo, haha. não acho que haja essa relação necessária entre excesso de oferta e consumo de narrativas e maior exigência por melhores e mais originais histórias (ainda que os conceitos de melhor e original sejam muito fluidos e variáveis, dá uma série de posts sobre isso, hehe). ao contrário, até pelo próprio ritmo frenético de consumo, o tempo de reflexão pode resultar menor e, até pelo próprio modo como a internet estratifica e favorece (veja que não digo que a internet inventou isso) a formação de grupos com gostos/atitudes/modos de percepção similares, pode o “consumidor de narrativa” ficar preso em histórias similares, numa zona de conforto do gosto (“gosto disso, disso e daquilo, não gosto daquilo outro” – que é uma atitude em geral da fase adulta, mas sinto presente já em adolescentes, de 18 a 80 anos, hehe).

    enfim, tomara que você esteja certo.

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