The Fucking Joke: Grant Morrison, Nietzsche e a arte da interpretação

Ok, você já deve saber da polêmica. Mas caso não saiba é só clicar aqui.

Então… Grant Morrison está certo? Sim e não, na verdade.

Existem várias maneiras de interpretar um texto, uma imagem e uma narrativa composta por ambos, como são os quadrinhos. Ou melhor, existem vários níveis de interpretação. Vou me ater a três níveis (pode haver mais ou subdivisões, mas não vou me estender):

1. O que o texto diz?

2. O que o autor quis dizer com o texto?

3. O que esse texto diz para mim?

Um nível não é melhor que o outro, nem mesmo mais profundo. São apenas modos diferentes de entender um texto (vou usar a palavra texto de maneira genérica, mas aqui você já entendeu que a palavra se encaixa também para as histórias em quadrinhos, compostas por textos e imagens).

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Então Grant Morrison está errado no nível 2. O roteiro de The Killing Joke já foi exposto aqui. Vê-se claramente que Moore não tinha por intenção que o Batman matasse o Coringa. Além do mais, recapitulando o óbvio, a história fez parte da então cronologia do personagem, não sendo possível que o Batman tivesse realmente matado o Coringa.

Agora, Morrison está errado nos níveis 1 e 3? Não. É possível que o texto tenha dito algo que seu autor não queria que dissesse? Sem dúvida. Uma coisa é o que queríamos dizer, outra coisa é o que dizemos. Numa narrativa gráfica o peso do roteirista, no caso, Moore, é tão importante quanto o desenhista e Brian Bolland já disse aqui que seu desenho dava margem a essa  interpretação. Então sim, o Batman, se levarmos em conta apenas o texto (texto e imagem, que fique novamente claro), poderia ter matado o Coringa. É possível que ele tenha feito isso, o texto dá margem para que pensemos isso.

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E Morrison também está certo no nível 3. O nível 3 implica que eu coloque minha própria subjetividade no texto, compondo a narrativa. Filmes com roteiro aberto são desse tipo, gerando debates intermináveis sobre o que teria acontecido. Talvez o exemplo de um “texto aberto a interpretações” mais conhecido na nossa literatura seja o de Dom Casmurro. Capitu traiu mesmo Bentinho? Ninguém sabe.

Nietzsche dizia que a interpretação é a arte da vaca. É preciso ruminar para interpretar. E com isso ele queria dizer que deve haver um tempo e uma dedicação à interpretação, se quisermos fugir do óbvio e do banal. O problema é que somos formados no “padrão Hollywood”, que teima em deixar tudo tão bem explicado para uma audiência que se pressupõe incapaz de fazer inferências, que quando vemos uma interpretação diferente da óbvia automaticamente dizemos: está errada.

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 Não quero cair num relativismo extremo aqui. Toda interpretação deve ser embasada em elementos concretos. Exemplo cretino: estou vendo um filme em que há alguém prestes a pular de um prédio e um policial estende a mão para salvar o potencial suicida. Se o filme termina aí, não é possível saber se o potencial suicida foi salvo ou não e haveria um debate. Análises sobre as duas personagens choveriam e tentariam provar porque o suicida aceitara ou não a ajuda do policial. Agora, se o suicida de fato pula, argumentar que ele sobrevive no final estaria além de qualquer interpretação sustentável.

Se você quer conhecer mais sobre essa obra é só ver o vídeo abaixo:

Reli The Killing Joke antes de escrever esse texto. A interpretação do Morrison é plausível, é bem embasada e é possível. Há algo de autoritário em querer ter o monopólio sobre a verdade, afinal, uma vez que eu estou certo, ninguém pode me contradizer. Nietzsche já dizia: a verdade é a centelha entre duas espadas. Querer escapar disso é querer se reconfortar na Verdade Absoluta. E para relembrar um ensinamento de meu antigo  mestre Obi-Wan Kenobi: só um Sith pensa em termos absolutos.

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Sobre Nerdbully

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6 respostas para The Fucking Joke: Grant Morrison, Nietzsche e a arte da interpretação

  1. Marcelo Bragança Rua disse:

    A interpretação de Morrison seria perfeitamente plausível se a história não tivesse sido incluída na cronologia oficial da editora com suas consequências. Neste caso ficou bem explícito nos textos posteriores à A Piada Mortal de que Batman não matou o Coringa naquela história.

  2. Pingback: A trágica piada do amadurecer: algo sobre roteiros com final aberto | Quadrinheiros

  3. Ronald Marçal disse:

    Acho que a galera não sabe ler… nem letras nem quadrinhos….
    como que pode alguém com percepção visual mínima entender que o Batman mata o Coringa nessa história, não há a mínima possibilidade.
    Os nove últimos quadros que compõe a última página mostram um coringa e um batman rindo juntos que é representado pelo desenho e a onomatopeia “HaHa..”, enquanto uma viatura da polícia se aproxima,a como podemos perceber pelas luzes que se aproximam e pela onomatopeia “wwweeee…”.
    O quadro central dessa página mostra o batman apoiando o braço em uma área abaixo do pescoço, que pode ser o ombro ou o peito, e mostra um coringa gargalhando e um bat rindo, enquanto a viatura está mais próxima.
    A câmera nos próximos quadros mostram um movimento descendente, mostrando que os risos já cessaram no sétimo quadro e que as sirenes são desligadas no 8º, acabando por fim a história da “piada” que é o cerne da trama, não se preocupando com o que vem em seguida.
    Toda a teoria de que o coringa era assassinado se baseia numa leitura torpe do quinto torpe, como se o batman enforcasse o palhaço, e no entendimento de que riso era abafado, mesmo que as onomatopeias nada indiquem nesse sentido (não há diminuição ou deformação, não há retiscencias que é amplamente usada na obra para indicar algo interrompido, ná há o “-*” que é comum para indicar algo sendo interropindo ou abafado, etc).
    Então, G.M. está errado nos níveis 1 e 3? com toda certeza.

  4. Pingback: Quadrinheiros Dissecam E04S01 – A Piada Mortal | Quadrinheiros

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