Finalismos: A Piada Mortal em questão

Recentemente Grant Morrison falou ao podcast de Kevin Smith, Fatman on Batman. O episódio #44 trouxe à tona uma discussão que está fervilhando pelos sete mares da internet.

Afinal, o que acontece no final de “A Piada Mortal”? Morrison respondeu. E eu discordo. 

A cara que os fãs fizeram com a informação!

Todo leitor de quadrinhos que se preze já leu e se envolveu com obra prima de Alan Moore e Brian Bolland, por isso vou sem medo de spoiler mesmo. A última página deixa ambíguo o que de fato ocorre entre os dois personagens, pois tira do foco a cena para mostrar apenas os sons e o chão. O que acontece ali é incerto. 

KJAM

Antes de seguir com a polêmica, queria lembrar ao dileto leitor um pouco da relevância da revista. Ela é nada menos que a história definitiva do Batman e o Coringa. Além de, mais uma vez, romper os paradigmas e limites dos quadrinhos Alan Moore definiu uma versão da origem do Coringa associada a outro vilão, o “Capuz Vermelho”, uma camada de complexidade ainda maior ao nêmesis do Batman.

As viradas de roteiro, assinatura do mago inglês, são incríveis, e tão impactantes que mereceram as minúcias da análise de um desenhista bem ilustre. Na edição que tenho, ele toma o tempo no texto para apontar em quais páginas estão tais viradas e como elas são impressionantes.

Após cair no tanque de ácido, o capuz vermelho vira o Coringa!

Esse desenhista reconhece o traço o Brian Bolland como sua principal referência. Essa ode ao Piada Mortal vem de ninguém menos que Tim Sale, desenhista e co-roteirista de uma outra história espetacular do Batman, “O longo dia das Bruxas” (cuidado que no Brasil tem uma outra edição sobre Halloween que não tem nada a ver com essa).

Na chamada edição definitiva, inseriram uma entrevista com o mestre Chris Nolan e David Goyer, realizada seis semanas antes do início da parte de fotografia das filmagens do Batman The Dark Knight. Eles ressaltam a importância do Longo Dia das Bruxas na formação e na caracterização do pantone e do estilo sob o qual erigiram o Batman nesse filme, além, é claro, de ser a fonte da frase “Eu acredito em Harvey Dent” que pulsou no filme inteiro.

Ou seja, o eco dos trabalhos de Alan Moore chegam até os filmes do Nolan, os quais podemos até ter críticas, mas que eles viraram referência e agradam 99% das pessoas no mundo, seja nerd ou não, é um fato (e nossas ferramentas de aferição são precisas).

Capa da edição definitiva! Vale a leitura, em especial se você curte máfia italiana!

Passada a rasgação de seda vamos ao cerne da questão:

Grant Morrison levanta a hipótese de que o Batman teria matado o Coringa.

Dê uma escutada

Deixei a frase aí mesmo solta para dar tempo de quem ainda não sabia disso poder se recompor. Morrison vai justificar essa proposição com uma simples idéia: Essa seria a última piada entre os dois, e portanto, a morte do Coringa. O termo Killing Joke em inglês pode ser entendido também como a piada final de uma sessão de Stand Up, ou seja, o que fecha a participação do comediante naquele espetáculo.

Existe ainda uma série de fatores que poderíamos usar como por exemplo: o barulho ser de ambulância, não o de polícia, o Coringa parando de rir antes do Batman, os pés do Coringa estão levantados numa posição como de um enforcado e etc. Podemos ainda levantar outras hipóteses, e é justamente o meu interesse aqui, discordar.

você deve estar querendo fazer isso comigo, mas vamos lá…

Sim! Momento de choque! Reverencio e muito a capacidade do atual badalado dos quadrinhos. Mas, mesmo que Alan Moore seja um crítico ferrenho e que nos apresente plot twists incríveis, não seria provável que ele rompesse com um fator tão básico do Batman, o de não matar. Além do mais foi Frank Miller quem rompeu com essa essência em ” O Cavaleiro das Trevas”.

Por mais rebelde que o mago seja, ele não romperia com esse preceito do morcego assim, talvez ele teria enfatizado e deixado mais as claras. Mas vamos esperar pois em breve alguém vai conseguir perguntar isso para o nosso barbudo inglês e ele vai sanar nossas inquietações … ou piorá-las.

Ao meu ver é mais fácil que Moore tenha feito os dois se beijarem, criando esse paradoxo da existência mútua, reafirmando esse pacto de disputa, selando-o do modo mais grego possível. Uma piada final que encerra o ato, e mata ali a possibilidade de eles findarem a contenda.

Esse paradoxo nada mais é do que a necessidade de um estar vivo e atuando para que o outro exista, rompendo a barreira de maniqueísmo, uma vez que o “ser” de ambos só faz sentido na luta entre os dois lados. Claro que isso geraria um baita escândalo, principalmente por tocar na questão da sexualidade do Batman, mas eu imagino Alan Moore dando risada na cara da nerdaiada irritada com essa ofensa.

Estou tão baqueado com as possibilidades que não consigo acreditar em mais uma possibilidade que seja. Prefiro talvez um ceticismo burro, olhar as imagens e rir da piada, nada mais. Se você quiser conhecer mais sobre a obra, dissecamos essa clássico no vídeo abaixo:

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9 respostas para Finalismos: A Piada Mortal em questão

  1. enfim o coringa defuntou meu caro aceite um dia os vilões morrem.

  2. Pingback: The Fucking Joke: Grant Morrison, Nietzsche e a arte da interpretação | Quadrinheiros

  3. Luiz André disse:

    A verdadeira “Killing Joke” desta história foi Grant Morrison colocar na cabeça dos leitores esta ideia de que Batman mata o Coringa ao final. Imagino que ele esteja rindo litros e litros de sangue por causa disto.

  4. Por mais plausível que possa ser a hipótese do Sidekick, o Batman ter matado o Coringa é extremamente provável. Perdoem-me se quebra a “essência” do personagem, mas eu gostaria muito que essa “morte” fosse verdade. Acho que a certeza do que acontece nessa história talvez nunca apareça… e, por um lado, seria até bom viver na “dúvida” para que essa incrível história nunca fosse esquecida e permanecesse nas “discussões nerds” rs. Mas isso é só o que eu acho, não me julguem excessivamente 😉

    • Sidekick disse:

      a idéia é justamente gerar discussões Luciana!
      Concordo plenamente com sua penúltima frase. Por isso, como digo ao final do texto, eu não consigo mais tomar posição de uma única opção.Talvez todos estejamos certos…

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