Na esquina da ficção com a Faria Lima: um V nas manifestações em SP!

Via canais subterrâneos recebemos registros históricos!

Reproduzimos aqui um trecho dos diários secretos de um Guy Fawkes (também conhecido como V) sobre a 5a manifestação ocorrida em São Paulo da noite de 17 de junho de 2013.

(A veracidade do trecho é tão maior quanto aquela dita em qualquer quadrinho, filme, livro ou peça de teatro, mentiras que dizem verdades. Se você é do tipo que acredita nessas coisas, este texto é pra você!)

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“Um dia fui eu mesmo, mas isso foi há muito tempo. Em 1606 virei outros. Hoje 5 de     novembro virou 17 de junho.

Hoje me mascaro como qualquer outro, sem máscaras. Com mais um colega saio às cinco da tarde. No saguão, uma dúvida: como iremos até o Largo da Batata (que anseio por vitória este nome sugere, não?).

Nossas intenções são diferentes, mas coincidentes. Ele só quer participar. Eu pretendo ver com meus próprios olhos o que os jornais oscilam em definir. Eu quero o ponto de vista de quem está nas ruas.

A notícia naquela hora é a paralização do trânsito. Minha sugestão é de ir a pé. “E subir morros com os olhos ardendo por causa de bombas de gás?” O último dia 13 ensinou, melhor ter cautela. Acato a observação, mesmo já tendo vivido algo pior. Esperamos.

No ínterim alguns juntam-se a nós. Eles são jovens, curiosos, entusiasmados. Eu, já não tão jovem, noto quando as palavras deles são autênticas, quando são de outras pessoas. Depois de hoje a noite eles terão ideias próprias, pensei.

Comigo, a velha adaga, o celular, cachecol, itens para sobreviver ao pior conflito urbano. Meus acompanhantes, só com a roupa do corpo. Dois deles já tinham sido revistados na estação Barra Funda.

Numa carona gentil chegamos até a rua Deputado Lacerda. De lá, a pé em direção ao Largo da Batata. No caminho vi duplas, trios, grupos crescentes que desciam as ruas no mesmo sentido. O fluxo de pessoas aumentava na medida que nos aproximávamos da praça do metrô Faria Lima.

Chamou minha atenção, ausência da cerveja. Ela, tão comum nas aglomerações, jogos, carnavais, trânsito, réveillons… Na noite toda vi apenas um camelô com a geladeira de isopor, repleta de garrafas de água e refrigerante e apenas no Largo da Batata. Sobriedade? Que atípico.  

Na multidão que se concentrava no Largo, por volta das 19h, não vi bandeiras de partidos, não vi lideranças, nenhum palanque, nenhum líder. Que ingenuidade um governo achar que basta convidar líderes do “movimento” para negociar qualquer coisa. Que presunção asquerosa é qualquer partido achar que representa alguém de convicções próprias. Seria isso a democracia? Que ideia estranha.

Mas havia cartazes, centenas deles. “Menos corrupção, mais cidadania”, “$3,20 foi a gota d’água”, “Vem pra rua”, “sem violência”, e ora vejam, “V de Vinagre” com o “V” desenhado em verde e amarelo. Se não me ofende, a ideia diverte. Todos estavam voltados para a Av. Faria Lima. Era nessa direção que iríamos.lgbt

Mais tarde vi senhoras, veteranas de asfalto, com cartazes onde se lia “Somos mães na manifestação”. Era evidente: a multidão não era apenas a juventude desvairada que se faz enxergar de cima de um helicóptero. Jovens eram maioria, certamente, em torno de 3/4 de todos. Mas havia outros. Senhores, velhos, austeros, de longas barbas e cabelos brancos. Outros saídos do trabalho, com as gravatas guardadas no bolso. Além deles, dezenas de fotógrafos, alguns cinegrafistas, arriscando-se em troncos finos demais pra sustentar uma família de esquilos. Incitar a violência é o mesmo que incitar a notícia? Algo a se ponderar.  

Entre o Largo e a Av. Rebouças havia alguns policiais. Em frente ao prédio do CREA estavam por volta de 10. Perfilados, notei que não usavam armas nos coldres, apenas cacetetes. Tinham uma postura contida mas vigilante.

A tensão de que estourasse um conflito armado entre manifestantes e a polícia se dissipava a partir daquele lugar. Até o cruzamento com a JK, ponto final do meu grupo, não vi mais nenhum policial. Eles, tão órfãos quanto todos.

A caminhada foi a passos curtos mas cadenciada. Gritos, palavras de ordem, “sem violência”.  O mais constante era sempre “O Brasil acordou, o Brasil acordou”, como o canto de torcida pelo time favorito. Às vezes gritava-se contra o prefeito Haddad, outras contra Alckmin, eventualmente contra Dilma. Neymar tampouco foi poupado. Este caos de gritos e intenções… alguém veria beleza nisso, não? Eu? Prefiro continuar observando.

Um dos gritos se fez notar: “Que coincidência; sem polícia não acontece violência”. Confundir correlação com causa, ora, que erro infantil. Muitas histórias já me ensinaram isso. Há um longo caminho para estes aqui. Mas diante da tranquilidade cedi. O debate que fique na academia, ali não era hora.

Na janelas dos prédios, curiosos. Os manifestantes, sempre que notavam, os chamavam para as ruas. Num dos prédios residenciais uma moradora agitava um lençol branco. A passeata a aplaudia em reconhecimento.

Tropeçávamos uns nos outros. Era difícil manter meu grupo coeso, por volta de 7 pessoas. Eu buscava a retaguarda, uma visão ampla. As moças do grupo são belíssimas (um velho Hemingway me pagaria um bom trago só por apresentá-las). Fonte de alegria em qualquer situação, beldades, ali, na multidão, causava apreensão. Erro em ansiar pelo zelo da beleza, tão sublime? Lembro de regar meu jardim de flores mais tarde.   

Um cheiro de vinagre, difuso, incomodava. Certamente seremos uma multidão mais evoluída no dia em que um protesto cheirar bem. Quem sabe um dia, não hoje. O odor vinha de algum manifestante preparado para o pior. Moda do civismo paulistano, diz-se que o tempero é recurso eficaz contra bombas de gás. Não basta ter ideologia: militância moderna tem sinestesia. Preferia que tivessem erudição.  

Mais à frente alguns garotos distribuíam um pequeno bilhete. O título dizia “MANIFESTANTE: SAIBA COMO AGIR EM CASO DE OPRESSÃO POLICIAL”. Havia longas instruções. Eram de como proceder diante de spray de pimenta, balas de borracha, gás lacrimogênio. As letras eram mínimas. Menores do que uma bula de remédio, mas detalhadas. Guardei as instruções no bolso. Menos do que ajudar numa situação extrema, aquilo vai ocupar um bom lugar da minha galeria sombria.

Na semana passada muitos jornais reportaram delinquência, vandalismo. O mais próximo que vi foram dois momentos: um grupo desenhou o símbolo “A” de anarquismo nas portas de vidro de um banco. Logo atrás, um grupo de 3 pessoas, um homem e duas mulheres, com panos, limparam o local. Quando voltei horas depois notei que não deixaram nenhum rastro do desenho. Teria achado ato mais belo se o banco não cobrasse taxas obscenas.

Em outro momento, próximo à margem direita da passeata, um manifestante batia o punho contra paredes de metal, o que fazia enorme estrondo. Do meio da passeata, dezenas de manifestantes ralhavam. “Ô animal! Para porra!” – gritavam. Ali quase perdi minha imparcialidade. Ele foi criticado por uma turba por se portar mal! Não há Michelet que me convença que a Revolução Francesa foi melhor.

Na medida em que chegávamos ao cruzamento da rua Horácio Lafer, o tom dos gritos e das palavras de ordem baixava. Havia alguma coisa acontecendo à frente. Na multidão era difícil enxergar, mas não era violência. Supunha que alguém que tropeçou e recebia a ajuda de outros. Não era.

Como todos olhei para o lado. Havia um alto prédio, de fachada larga, formada por um painel de espelhos. Os ângulos, inclinados, projetavam a rua, à frente e atrás, como um caleidoscópio. Os espelhos refletiam os manifestantes que, vidrados, olhavam a própria imagem no maior silêncio que a situação permitia.

hl

Era isso. Aquele foi o momento mais solene da passeata. Nós enxergamos a nós mesmos. Vimos uma multidão. Olhamos o que estávamos fazendo. Percebemos que éramos muitos. Notamos que íamos na mesma direção. Um uníssono involuntário. Não um livro, não um time de futebol, não um presidente, não um líder, nem mesmo uma causa. Nós. A multidão. Repletos apenas de diferenças, ressentidos nas próprias razões, mas juntos. Uma centelha de unidade a ser diluída num discurso oportunista, notícia mal-formulada, livro mal-escrito. Mas eu vi acontecer.

Em seguida o silêncio foi substituído por um bater de palmas, uma auto-celebração. Classifique como quiser. Metros à frente, o Hino Nacional era entoado. O vigor do coro aumentava ao cantar “verás que um filho teu não foge à luta”. O hino parecia dar unidade ao que não tinha, conter algo que estava destinado a transbordar. A passeata continuou.

Aproximávamos-nos do cruzamento com a Av. Juscelino Kubitschek. Meus jovens amigos recebiam informações pelo celular. Manifestações semelhantes no Rio de Janeiro e Brasília. Falavam em números, 5 mil, 20 mil, 60 mil manifestantes. Talvez mais.

Aliás, a presença dos celulares era ubíqua. Que época magnífica. Nas pequenas telas azuis tudo era registrado, tudo era visto, nada podia ser escondido. Mas como a adaga, armas têm dois gumes.

Por volta das 20h30, da JK em diante notamos uma divisão: parte dos manifestantes seguia em frente na Faria Lima. Outro grupo virou à direita na JK. Estes marcharam na direção do palácio do governo. Só soube horas depois. Explosões, hoje, só de emoções.

Para nós era hora de voltar. Eu, ouvinte que se quer mascarar, vi o que ninguém pode mostrar. A visão do que deve ser visto sozinho, aquilo que todos precisam lembrar.

No começo eram gritos excitados. Crianças entusiasmadas com vozes emprestadas. De velhos cansados e seus brados forçados, meditadas, acharam um valor evocado.

Sem pólvora ou conspiração, de uma passagem mesquinha, em meio a multidão, acharam uma única voz, uma única razão. 

Remember, remember….”

GuyFawkes-f

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Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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