BAIXINHA, GORDUCHA, DENTUÇA E FELIZ: A última linha de resistência da infância

m50-1Infância é uma invenção recente. Se considerarmos apenas a civilização ocidental (não por acaso, a nossa, ainda que eu tenha olhos puxados e algum trânsito nas tradições orientais), a idéia de criança como um ser humano com necessidades e interesses peculiares só veio a ser discutida, de fato, no século XIX. Antes disso, ela foi tratada como propriedade, que podia até ser vendida para pagamento de uma dívida, algo muito comum no Mundo Antigo, ou, mais comum ainda, como um adulto em treinamento, que deveria se tornar um membro produtivo da comunidade tão logo tivesse forças para isso. Dada a simplicidade das tarefas produtivas até o século XIX, a única educação que se fazia necessária era técnica e prática.

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Não que o afeto familiar fosse algo inexistente — por exemplo, a rejeição à idéia de que um pai pudesse cometer qualquer tipo de abuso contra seus filhos sempre esteve presente (embora a própria noção de abuso seja uma construção sujeita a mudanças constantes) — ou que não se compreendesse a criança como algo diferente do adulto. É um simples reflexo do pragmatismo que caracteriza a maioria das pessoas comuns. Temos filhos para perpetuar a linhagem e, para isso, precisamos ensiná-los a sobreviver, da mesma maneira que nós aprendemos com nossos pais e nossos pais aprenderam com os pais deles, etc.
m50-3Existe, é claro, o espaço para o lúdico, mas isso serve ao propósito de preparar meninos e meninas para os papéis que exercerão na vida adulta: eles, provedores e protetores; elas, esposas e mães. Os jogos dos meninos são, portanto, competitivos, agressivos e segregadores — e, eventualmente, mortais, o que é lamentável, mas, ao mesmo tempo, uma simples antecipação do destino certo de um adulto incapaz. Já os jogos das meninas estão voltados para a sedução, a maternidade e a organização das rotinas domésticas — com competitividade e crueldade próprias. Quando “brincam” juntos, meninos destróem os brinquedos das meninas, deixando bem claro quem é, desde cedo, o elemento dominador da relação que virá a se consolidar entre eles.
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m50-6O desenvolvimento do conceito de infância está diretamente associado ao processo de ascensão burguesa e da difusão do escolasticismo, ambos fenômenos do final do período medieval, já exalando fortes odores de modernidade. Simplificando bastante a história, a burguesia enriqueceu o suficiente para se fazer socialmente notada, enquanto o escolasticismo marcou o início do processo de resgate da ciência como reveladora das verdades físicas ou metafísicas. Juntando as duas coisas, a burguesia percebeu que o acesso ao conhecimento seria um importante instrumento de ascensão política e, portanto, social, uma vez que a substituição da simples confiança pela meritocracia no preenchimento das funções do Estado era inevitável, ainda que viesse a demorar alguns séculos.
m50-14Apostou-se, portanto, na maior capacidade dos jovens de aprender, o que alavancou o pensamento de que a criança deveria passar por um processo formal de educação. A difusão do liberalismo no século XVIII consolidou essa idéia e acrescentou a tese de que uma formação intelectual-científica sólida deveria estar disponível a todos cidadãos em formação. Ou seja, embora a criança continuasse sendo vista em função de seu papel como pré-adulto, já estava bem claro que sua inserção no mundo adulto não podia ser feita pela simples reprodução desse mundo em escala reduzida.
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m50-7No século XIX, o surgimento e a consolidação de ciências como Sociologia, Psicologia e Pedagogia trouxeram, entre outras inovações, os primeiros estudos da infância como algo muito mais complexo do que o simples — e necessário — ensaio para a maturidade. A criança tornou-se o espelho da saúde familiar. Uma família estruturada necessariamente teria filhos saudáveis (normal), educados (normal) e (novidade) felizes. No século XX, a criança não só passou a ter direito à felicidade em plena infância, como também passou a vislumbrar a possibilidade de definir seu destino como adulto (ainda que muitos de nós tivéssemos que arcar com o peso de carregar os sonhos frustrados e as esperanças de ascensão sócio-econômica de nossos pais). Criança não trabalha. Criança estuda e, principalmente, brinca.
(Resumo tão simplório que eu, professor de História, provavelmente me daria uma nota muito ruim por ter escrito tudo isso).
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m50-11Pensemos na Mônica. Ela completa, hoje, 50 anos. Você já sabe que ela foi inspirada na filha homônima de Mauricio de Sousa, que seu desenho mudou muito ao longo dos anos, que milhares de crianças aprenderam a ler com ela, que surgiu como coadjuvante nas tiras de jornal do Cebolinha e que se tornou tão popular que, além de dona da rua, é a dona da turma. De uma menina com força e geniosidade assustadoras, ela evoluiu para uma menina (muito ao seu modo) meiga, sensível e delicada. Mais importante de tudo, é o modelo de uma criança feliz.
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m50-13Em recente conversa sobre o sucesso tão duradouro da personagem, creditei parte dessa longevidade à idéia que os adultos têm de uma infância feliz. Começa pela simples lembrança das horas de diversão que a leitura de gibis proporcionava quando éramos pequenos. São mais do que comuns os casos de adultos que voltam a comprar gibis da Turma da Mônica quando os filhos começam a crescer — estamos chegando à terceira geração de leitores.
m50-15De maneira geralmente inconsciente, atribuímos a felicidade da Mônica à simplicidade de sua infância. Ela tem brinquedos comuns, faz viagens normais (descontadas as aventuras espaciais ou temporais), estuda numa escola como qualquer outra, espera ansiosamente pelo aniversário e pelo Natal, brinca no campinho, tem amigos que partilham seu estilo-de-vida… A infância da Mônica é acessível a todos os seus pequenos leitores.
Na verdade, era.
Não foi só o cenário que mudou. (De fato, hoje é quase inconcebível que uma criança possa andar livremente pelas ruas, mesmo de um bairro tão sossegado como o Limoeiro). Nem só os brinquedos. A mudança mais significativa está na própria concepção de infância: uma volta à criança como um mini-adulto.
Atribuo esse processo a dois fatores principais: a infantilização do adulto e a idealização da competição.
m50-16A sociedade de comunicação de massa se difere de todas as outras pela importância econômica do entretenimento e do lazer. Não que nossos antepassados não soubessem ou não pudessem se divertir. O fato é que nenhuma outra sociedade da história teve a diversão como prioridade tão grande a ponto de se dedicar tanto empenho econômico e intelectual nesse sentido. (Exceto pelo Pão e Circo romano. E todos sabemos o resultado disso). Cada vez mais, ser adulto significa ter acesso a um enorme repertório de prazeres que as crianças anseiam por desfrutar. Para nós, a fantasia da infância apenas atingiu um novo patamar que a torna muito mais presente do que as responsabilidades do mundo adulto. (Você pode tentar negar, mas o simples fato de você ser leitor do nosso blog é uma prova disso).
m50-17Com a nossa percepção de felicidade atrelada ao acesso aos bens e serviços de conforto, lazer e entretenimento, ou seja, mercado, cultivamos uma admiração por aquelas pessoas que se mostram mais capazes de vencer no jogo da vida, que, ao contrário de sua versão em tabuleiro, depende muito menos de sorte e muito mais de nossa capacidade de nos ajustarmos ou adiantarmos à realidade do mercado, também conhecido como mundo adulto. (Pelo menos é isso que querem que você pense). A partir dessa noção, somando o nosso desejo de que nossos filhos sejam bem-sucedidos ao eventual orgulho que temos de nossa própria posição nessa competição, o resultado é a valorização da reprodução do comportamento adulto pela criança. Acreditamos que a criança de comportamento adulto está à frente das outras na corrida pela felicidade. Isso tem impacto direto e visível no vocabulário, no repertório cultural, no vestuário, na sexualidade, etc.
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m50-19Em suma, temos, de um lado, adultos infantilizados e, de outro, crianças adultizadas, o que é o mesmo que uma sociedade quase que integralmente adolescente. (Como professor de adolescentes, acho tudo isso realmente muito assustador, especialmente porque me reconheço dentro desse universo de adultos que insistem em permanecer na infância).
Nesse estranho cenário, Mônica e seus amigos fazem parte de um pequeno grupo de crianças do século XX vivendo no XXI. Ela certamente se atualizou quanto à linguagem ou ao universo de referência e é fato que em muitos momentos se presta a idéias e comportamentos muito precoces para uma menina de eternos 6 ou 7 anos (talvez algum dia resolvam que ela deva ter sempre 8). Em sua essência, contudo, ela permanece uma criança como a que eu ou você, se não fomos, podíamos ter sido.
m50-20Resta saber se Mônica e sua turma continuarão sendo o expoente do ideal romântico de infância ou se serão vistas como símbolos de um passado há muito superado. A julgar pelo número de pessoas que acreditaram que o lançamento da Turma da Mônica Jovem significaria o fim da Turminha clássica, me parece que  o segundo caso está próximo de ser verdade. E, mais uma vez, não sei quanto a vocês, mas eu fico muito preocupado.
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Sobre Quotista

Filipe Makoto Yamakami é historiador, professor, músico amador, twitólatra, monicólatra, etc. E realmente precisa de um emprego que lhe permita pagar as contas. @makotoyamakami
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4 respostas para BAIXINHA, GORDUCHA, DENTUÇA E FELIZ: A última linha de resistência da infância

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