ALÉM DO LIMOEIRO: O novo multiverso mauriciano

“Mas a vida me ensinou que, às vezes, é preciso abrir mão do que é mais seguro e se arriscar. Dar um salto no escuro.” Essa parece ser uma daquelas coisas óbvias, mas tão óbvias, que acabam esquecidas e precisamos ouvir de novo de vez em quando. Também é a chave para entender Astronauta: Magnetar, a história de estréia do novíssimo selo Graphic MSP. E não digo isso só em relação ao excelente roteiro de Danilo Beyruth, criador do Necronauta e do Bando de Dois — se você é um daqueles que diz que vê os quadrinhos não como simples diversão, mas como um exercício de expressão criativa, e não conhece esses dois títulos, arrependa-se de sua ignorância e arrogância ou saia imediatamente deste blog.

Não é segredo que Mauricio de Sousa tem extremo zelo com seus filhos (porque é assim que ele chama suas personagens). O início solitário era algo comum e inevitável em seu tempo. Depois, mesmo com o trabalho de colaboradores, manteve o monopólio dos roteiros até onde foi possível. Quando aceitou que outras pessoas passassem a escrever histórias, manteve o hábito de supervisionar todos os roteiros produzidos. Faz isso até hoje. E, mesmo assim, existem personagens das quais ele dificilmente abre mão, motivo pelo qual temos visto tão poucas histórias do Horácio nos últimos anos.
Esse ciúme em relação ao Horácio deve-se a algo que qualquer leitor mais antigo sabe: é uma espécie de alter-ego do quadrinhista. Os amigos mais antigos dizem que, lendo o Horácio, é possível saber como anda o ânimo do autor, suas inquietações, suas esperanças… Mas o tiranossauro vegetariano já dividiu a função de transportar para o papel as constatações e reflexões de Mauricio de Sousa com outra personagem: o Astronauta.
“Durante muitos anos, o Astronauta foi um dos meus porta-vozes para falar de coisas que eu sentia a respeito desse mundo em que vivemos e de sua vizinhança.” (Mauricio de Sousa, na apresentação de Astronauta: Magnetar). De maneira leve e, muitas vezes, até ingênua, as histórias falavam sobre grandes questões existenciais, valores, decisões, conseqüências… E solidão, provavelmente o tema mais recorrente de todos. Além disso, o Astronauta se destaca no universo mauriciano por ter um passado. Sabemos que passou a infância e boa parte da juventude no interior, que tem um irmão e um sobrinho, que perdeu o grande amor da vida por nunca estar por perto… Pouca coisa, verdade, mas suficiente para dar um leve ar de realidade e humanidade.
Tendo em vista todos esses aspectos na concepção da personagem, Astronauta: Magnetar é, certamente, a mais mauriciana entre todas as histórias recentes do Astronauta. Está tudo ali, nas palavras, na arte e no planejamento visual de Danilo Beyruth e nas cores deslumbrantes de Cris Peter.
O selo Graphic MSP é um sonho antigo de muitos leitores que, como eu, cresceram lendo a Turma da Mônica e nunca a abandonaram, mesmo dividindo o tempo e a estante (e as caixas, e as gavetas, e o guarda-roupa…) com outros títulos. Como seria ver todo aquele universo em novas roupagens, novas histórias, contadas por outros autores que, ao seu modo, nos transportariam para novas dimensões, transformando o que até agora era um universo num novo multiverso? — que, para nossa felicidade (ou pelo menos a minha), jamais sofrerá com as sei-lá-quantas Crises. Mas havia o dilema da paternidade: como entregar os filhos a outra pessoa depois de lutar tanto para criá-los? Como saber se eles estão prontos para serem lançados no mundo?
Parte desse dilema foi enfrentado e (muito bem) resolvido com a trilogia MSP50, em que 150 artistas (o próprio Beyruth entre eles) foram convidados para fazer releituras do universo mauriciano como homenagem pelos 50 anos de carreira do quadrinhista. A cada volume, aquele desejo de ver mais. E acredito que esse mesmo desejo passou pelo coração do mestre, superando as dúvidas da cabeça. Com os três MSP50, Mauricio de Sousa parece ter finalmente encontrado a certeza de que sua obra é tão importante para outros artistas quanto para ele mesmo. E o primeiro resultado desse salto, já não tão no escuro, é Astronauta: Magnetar.
Lançado em São Paulo neste último fim-de-semana (previsão de chegada às livrarias e lojas especializadas do resto do país na próxima semana — ou algo assim, porque nem Dédalo conseguiria projetar um labirinto tão complicado quanto o esquema de distribuição da Panini), no badalado feirão FestComix (tão badalado que em certo momento a fila teve que ser fechada, o que me impediu de conseguir um autógrafo — cometi o erro de sair para almoçar e tentar voltar depois), Astronauta: Magnetar está destinado a ser um campeão de vendas. (Se não foi o título mais vendido no feirão, certamente só perdeu por causa das toneladas de mangás que a molecadinha compra só porque é mangá).
Haverá as críticas de sempre: Mauricio de Sousa se vendeu para o mercado; esse não é o Astronauta de verdade; como é que o Mauricio deixou fazerem uma história pornográfica (porque tenho certeza de que muita gente já pensou isso quando viu “Mauricio de Sousa para adultos” sem nem saber do que se trata); e outras coisas assim. E o Nerdbully faz sempre questão de lembrar que “volume de vendas nunca foi sinônimo de qualidade”. Nesse caso, minha resposta é simples: se não quiserem gastar 20 reais, peguem emprestado, leiam e, se não mudarem de idéia, todos os meses tem gibis novos da Turma da Mônica clássica nas bancas. (Não sei de onde as pessoas tiram a idéia estapafúrdia de que a Turma da Mônica Jovem e as graphic novels vieram para substituir a Turma da Mônica que todos conhecem…). É uma grande jogada comercial? Sim! Mas, se o volume de vendas não significa que um gibi seja bom, ser comercial também não significa que seja ruim.
Também não será difícil encontrar quem diga que a história que Danilo Beyruth contou em 70 páginas poderia ter sido contada em 4 ou 5 páginas num gibi regular da Turma da Mônica. Essa é uma crítica muito mais inteligente, de quem leu a graphic novel e conhece o universo mauriciano. Nesse caso, minha resposta é ainda mais simples: eu jamais diria que uma história é verdadeiramente mauriciana se não tivesse a impressão de que poderia encontrá-la num gibi tradicional! E, aos que dirão que Astronauta: Magnetar é só uma história para crianças, com uma leve aparência de maturidade, digo apenas: é por isso que é legal!
P.S.: Como diz meu perfil, sou monicólatra de crachá e carteirinha. E não dou a mínima se você se incomoda com isso.
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Sobre Quotista

Filipe Makoto Yamakami é historiador, professor, músico amador, twitólatra, monicólatra, etc. E realmente precisa de um emprego que lhe permita pagar as contas. @makotoyamakami
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8 respostas para ALÉM DO LIMOEIRO: O novo multiverso mauriciano

  1. Rogerio Andrade disse:

    Excelente, Makoto !
    Confesso que depois de me ausentar bastante do grupo dos monicólotras no Orkut, nao tenho acompanhado muito os lançamentos da Turma da Monica – mas quando eu vejo alguma ediçao especial na livraria, como os livros da série MSP50 , compro sem pestanejar. Estou curiosíssimo pra ler esta edição do Astronauta. Ao contrario do que outros podem pensar, eu achei fabulosa a idéia das releituras dos personagens do Mauricio, seja nos mangás, seja na série MSP50. Abraço,

  2. Cecilia Hildebrand disse:

    Adorei!!!! Excelente crítica, ainda não comprei, mas pretendo logo q conseguir ir a civilização novamente!!!!

  3. Fábio disse:

    Tomara que de certo e venham outros personagens e outras novels.

    • Quotista disse:

      Os irmãos Cafaggi assinam a próxima graphic novel da MSP. Até onde sabemos, vai ser com o quarteto principal.

      • Luiz André disse:

        Achei que a próxima edição seria com o Piteco, da era pré-histórica? Talvez esteja no rol dos próximos lançamentos, quem sabe…

      • Quotista disse:

        O pessoal do planejamento editorial já está negociando com outros autores. Ao que parece, os autores já recebem o convite com as personagens definidas pelo editor Sidney Gusman, ou seja, não é o convidado que decide com quem vai trabalhar. Gusman disse numa entrevista que ele tenta casar personagens com autores para que o modo de se contar as histórias seja, ao mesmo tempo, inovador e dentro do espírito mauriciano. Parece que já está quase tudo certo para Piteco e Chico Bento.

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