Doctor Who em busca do tempo perdido X Lost e a historiografia norte americana

Neil Gaiman escreveu um episódio da 6a temporada (2011-2012) de Doctor Who pra BBC chamado The Doctor’s Wife, e ganhou o prêmio Hugo de ficção por isso. Agora as noticias dizem que ele está escrevendo mais um episódio de Doctor Who pra 7a temporada. Além de ser um escritor premiadíssimo de ficção, ele é um fan incondicional dessa série que tem o mesmo argumento base desde 1963 sem interrupções até 1989, e que renasceu (ou se regenerou?) em 2005 e segue até hoje, com livros e histórias em quadrinhos derivados.

Gaiman, assim como muitos bons escritores de quadrinhos usa a História como um baú de ideias, fazendo referencias aqui e ali, colocando seus personagens em momentos chave (como visto aqui) ou traçando paralelos entre tempos históricos diferentes. Alguns autores, de vez em quando até profetizam e fazem História como no caso de Alan Moore e a máscara de Guy Fawkes que virou símbolo do movimento Occupy pelo mundo, ou de forma mais crua como as charges do jornal francês que fazem piada com a figura do profeta do islã, e que acirraram os animos dos fundamentalistas.

Mas usar a História como pano de fundo de uma narrativa não tem nada de especial. A diferença, no caso de Doctor Who (que é um senhor do tempo e portanto senhor da História), é que a premissa faz com que a narrativa fique aberta. O ator que interpreta o personagem é sempre diferente, portanto o importante não é a pessoa, mas o conceito que ela representa. Os detalhes labirínticos e terríveis da constante viagem ao passado e ao futuro remetem a Kafka e Poe, as pontas soltas todas muito bem amarradas (mesmo que muito tempo depois),  e os desfechos eletrizantes bebem na fonte de Agatha Christie e Conan Doyle.

O conceito de narrativa aberta vem da analise que Walter Benjamin fez do livro “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust. Para Benjamin a obra de Proust configura um mergulho nas profundezas da memória e da semelhança e por isso tem um caráter universal. A história contada como memória de um acontecimento é infinita porque ela é uma chave pra tudo que veio antes e depois. A abertura na obra de Proust está na narrativa como busca de analogias entre passado e presente, que revê o passado pelos olhos do presente (sem tentar ser uma narrativa fiel do passado), e por isso desdobra a histórias em infinitas interpretações. Assista o episódio “Blink” de Doctor Who (10° episódio da 3 temporada, 2007) e veja isso na prática.

Em oposição a isso narrativas como LOST que tem um final obrigatório (imposto pelo formato já consagrado das séries de TV norte americanas), tentam trilhar essa caminho sem sucesso. No inicio os personagens principais eram os sobreviventes, depois o personagem principal é um cara que mora na ilha e aperta um botão, depois os Outros, depois o Dharma, depois os habitantes originais da ilha, depois os deuses que manipulam tudo isso, numa espiral crescendo mais e mais, ampliando o olhar do espectador que vai se aprofundando no passado dos personagens em flashbacks, ou causando espanto e revirando a história com os flashforwards. Vão expandindo o horizonte e mudando o foco, mas o final é frustrante (apesar da história ser cíclica), termina inevitavelmente com a morte (literalmente).

A construção da narrativa em LOST utiliza todos esses elementos de desconstrução, resignificação, universalidade, mudança de tempo narrativo, que são característicos de uma obra aberta,  mas no final não passa de um romance, que tem um herói (Jack que abre os olhos no primeiro episódio, e os fecha no último), que trilha seu caminho em busca de redenção. O fim da série decepcionou os fans, mas era inevitável, já que para ter fim a narrativa que se pretendia aberta, se fechou abruptamente.

Talvez este seja mais um exemplo da maneira como os Estados Unidos conta a sua própria História. Vemos um reflexo disso na forma como são narradas as histórias no cinema de ação e nos quadrinhos de super heróis produzidas ali. A jornada do herói solitário, desorientado, que busca um sentido para sua própria existência (como na Teoria do Romance de Gyorgy Luckács).O leitor/espectador/estado unidense/homem pós moderno, se identifica com o herói e sua busca porque também se sente solitário e desorientado.

Não é por acaso que escritores ingleses revolucionaram a narrativa dos quadrinhos norte americanos nos anos 80. A cultura européia (incluindo a anglo saxã) tem uma concepção muito diferente de indivíduo e de imperialismo quando comparada aos Estados Unidos.

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Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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3 respostas para Doctor Who em busca do tempo perdido X Lost e a historiografia norte americana

  1. Luiz André disse:

    Seu texto esboça certas diferenças entre contar histórias observadad nas culturas inglesa e estadunidense. Se para uma, não há a necessidade premente de se fechar uma história com chave de ouro, levando o herói à glória após ter cumprido sua missão de vida, na outra, isto é indispensável, seja porque o público precise de um fechamento, seja porque uma final aberto e ambíguo seja tão frustrante que coloque toda a obra em declínio. Lembro de ler diversos comentários depois do final de Lost e pude discernir entre duas formas de se avaliar a série: para as pessoas mais vividas e experientes, o final pode não ter sido plenamente satisfatório, contudo ofereceu aos seus espectadores a oportunidade que poucos programas trazem que é a de emular a inconstância e complexidade da vida humana com seus altos e baixos, com a intensidade de uma experiência marcante que foi o tempo passado naquela ilha; para as pessoas mais jovens que assistiam mais pelos mistérios do que pelos personagens, não existe clemência ao que ocorreu durante a sexta temporada, apenas defeitos e uma série de perguntas não-respondidas ou mal respondidas. É uma pena que certas obras não respeitem seu próprio tempo de planejamento para se acabar quando ainda é relevante, fato que dificilmente acontece nas produções britânicas que, mesmo não terminando com um final digno, ainda se mostram vigorosas após passar pelo teste do tempo.

  2. Pingback: Ideia boa / execução de merda – 7° episódio da S02 de Viciados em Quadrinhos | Quadrinheiros

  3. Os episódios escritos pelo Gaiman em Doctor Who são muito bons!
    O série permite múltiplas reflexões sobre a memória, cheguei a escrever sobre isso relacionando com a dialética hegeliana e o pensamento de Bergson.
    Nesse episódio especificamente, Gaiman usa muito bem a metáfora da armadilha para Time Lords, é o fato do personagem não lidar bem com seu papel na Guerra do Tempo, o leva a cair na armadilha, é como se ficarmos presos ao passado, não podemos superá-lo e algo nos faz mergulhar nessa memória para transcendê-la, como no contato do Doctor com a “alma” da Tardis. Do ponto de vista do indivíduo isso é uma reflexão interessante, porém, com a História também, afinal, o fato de não elaborarmos os traumas históricos nos leva a cair neles novamente. Alguns cineastas alemães, como o Alexander Kluge, trabalham essa temática com o exemplo do nazismo, onde ao invés de encará-lo e elaborá-lo, fingimos que não aconteceu em suas intrínsecas motivações, podemos repeti-lo exatamente pela falta de consciência histórica.
    A maneira como o Gaiman o faz em apenas um episódio é incrível, isso que é interessante neste episódio, a própria busca pelo perdão do personagem que pode ser interpretado do ponto de vista do indivíduo como da própria história humana.
    Bela análise!

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