ADMIRÁVEIS MUNDOS NOVOS

O primeiro gibi de super-heróis que comprei na vida foi um especial dos X-Men, o clássico “Dias de um futuro esquecido”. Li um artigo no jornal sobre o lançamento e resolvi que precisava ler aquilo. O que mais chamou minha atenção foi a idéia de que super-heróis também morrem. Até então, tudo o que eu sabia sobre quadrinhos de heróis é que muitos desenhos animados tinham sido criados a partir deles. Nada mais. Em minha ingenuidade pré-adolescente (mais infantil do que pré-adolescente, a bem da verdade), imaginava que quadrinhos de super-heróis fossem coisas parecidas com o que eu via nos Superamigos. (Tá, era totalmente infantil). “Dias de um futuro esquecido” me apresentou heróis como eu jamais imaginara que seriam possíveis. E eu adorei aquilo!

Acredito que é por isso que gosto tanto de histórias do tipo Elseworlds (ou What if…, ou qualquer outro nome que as editoras usem). Gosto de ver personagens que já conheço em abordagens diferentes, não como fruto de uma mudança de orientação editorial, mas como uma história fechada mesmo, que me dispensa de conhecer trocentos anos que vieram antes ou de imaginar o impacto sobre uma continuidade que muda o tempo todo! (Acho que devíamos chamar de descontinuidade). “Dias de um futuro esquecido” não era exatamente um elseworld, mas era assim que me parecia, mesmo que até então só conhecesse os X-Men de ouvir minha vizinha falar — tenho a impressão de que ela queria me fazer passar vontade, porque sempre falou muito bem dos gibis, mas nunca me emprestou nenhum! Hoje, quase não acompanho mais o mainstream dos quadrinhos americanos, mas continuo lendo (e muitas vezes comprando) boa parte do que sai sobre realidades alternativas. (Gosto da idéia de realidade dentro da realidade, universo dentro do universo, sonho dentro do sonho — in Nolan we trust! —, coisas do gênero).
Desde então, vi muita coisa nessa linha. Coisas boas, coisas ruins, coisas que teriam que melhorar muito para serem ruins… A maior parte das histórias de linha alternativa que li são da DC, tanto que uso elseworlds para me referir ao gênero — e também porque acho o Vigia da Marvel fraco demais como  conceito e como personagem. Talvez seja a experiência com o multiverso, mas o fato é que a DC lida melhor com histórias paralelas.
Ainda não sei se a Marvel idolatra sua continuidade ou se é refém dela — muito provavelmente, ambos. De qualquer modo, um dos fatores que impede a Marvel de fazer histórias de realidades alternativas realmente boas é a obrigatoriedade da continuidade ser restaurada no final. E complica mais ainda o fato de que essas realidades alternativas costumam deixar legados para a continuidade regular. Pensem em quanta bobagem tivemos que agüentar depois que “Era de Apocalipse” acabou! (Pior do que os resquícios da “Era de Apocalipse” na continuidade regular, só os prequels e adendos — pena, porque eu curti bastante a saga).

A coisa mais próxima que a Marvel fez de um elseworld decente foi “1602,” escrito pelo grande Neil Gaiman. Transportando o universo Marvel para o fim do período elisabetano, Gaiman faz recriações bastante plausíveis, explicando a origem de cada herói como algo que transita entre a magia e a ciência. Sem nenhuma ligação com as publicações regulares, “1602” poderia constituir um universo à parte. Não sei se foi uma determinação editorial (quero crer que Gaiman teria planejado algo muito melhor e que foi rejeitado por algum sem-noção que calhou de ser o chefe no momento), mas lá está a tradicional volta à normalidade.
Resumindo, a chamada Casa das Idéias parece incapaz de conceber uma história desvinculada de sua continuidade regular sem usar a figura do Vigia, que é muito tosco. (Tenho o defeito de ser repetitivo quando se trata de reforçar meu descontentamento com qualquer coisa que seja).
A Panini acaba de lançar o encadernado “A Era X”. (Os X-Men devem ser disparados os campeões de histórias envolvendo realidades paralelas e anomalias temporais na Marvel). Não é uma história desvinculada da continuidade regular, mas é independente o bastante para que eu, que não li praticamente nada do que saiu dos X-Men nos últimos 5 anos, consiga entender sem me sentir deslocado. É bem verdade que não reconheço um bom número de personagens, mas não fez grande diferença, já que os papéis mais importantes cabem aos mutantes de sempre.
Num mundo em que ser portador do fator X é considerado crime punido com a morte, Magneto assume a liderança de uma comunidade mutante que não teve Charles Xavier para orientá-la. Os cerca de 200 mutantes que restam no mundo lutam todos os dias para proteger sua fortaleza, tentando adiar o extermínio que parece inevitável. Clichê, mas divertido o bastante.
E, como é a Marvel, sempre voltamos ao status quo. Ou quase, porque certamente haverá o legado, afinal, se a DC volta e meia faz um reboot, a Marvel costuma repaginar seu universo usando anomalias espaço-temporais que restam de algum evento cosmicamente desajustado. Ou os skrulls, o que é ainda mais tosco do que dizer que realidades alternativas de fato só existem nas histórias do Vigia.
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Sobre Quotista

Filipe Makoto Yamakami é historiador, professor, músico amador, twitólatra, monicólatra, etc. E realmente precisa de um emprego que lhe permita pagar as contas. @makotoyamakami
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3 respostas para ADMIRÁVEIS MUNDOS NOVOS

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