Essa tal diversidade

Enquanto alguns heróis saem da cabine telefônica…

O grande assunto entre os quadrinhófilos no momento é a oficialização (seja lá o que isso signifique em termos editoriais, principalmente no setor mainstream dos quadrinhos americanos) da homo-sexualidade (dane-se o acordo ortográfico!!!) de Alan Scott, que, a essa altura, até quem começou a ler gibis ontem já sabe que é o primeiro Lanterna Verde. E devo dizer que isso me perturba.

Antes que minha declaração levante os defensores dos direitos humanos, dos direitos dos homo-sexuais, dos direitos de quem quer que seja contra mim, quero deixar claro que isso me perturba tanto quanto Maurício de Sousa (meu herói) dizer que está criando um núcleo de personagens negros para aumentar a diversidade da turminha; ou o que chamo de Cânone dos Power Rangers, que é a obrigatoriedade de montar elencos multi-étnicos em todas as séries (aliás, será que existe um ranger gay? — personagem, não ator, porque esse já tem, embora assumido tardiamente); ou a necessidade patológica que Kitty Pryde tem de falar dos judeus mortos no Holocausto; e por aí vai. Personagens que representam a diversidade (em seu sentido inevitavelmente amplo, como acontece com toda a palavra da moda) devem ser criadas porque são boas personagens, não porque simplesmente representam a diversidade.
Isto posto, dedico-me a falar sobre o que realmente me interessa: a diversidade de linhas temporais.
Sim, estou atrasado. O reboot da DC foi um dos temas mais comentados do ano passado (chegamos a gravar um podcast sobre isso e nem sabemos se vamos mesmo publicar) e voltou à tona agora que o lançamento na Terra Brasilis se aproxima. E, honestamente, não faço questão de ler (faz tempo que parei com quadrinhos mainstream). Não é uma questão de apêgo ao que já conheço, aquela nostalgia característica dos leitores velhos que insistem em dizer que “as histórias antigas eram melhores”. É só falta de interesse mesmo. Ainda leio histórias isoladas, aquelas que não preciso ter lido dezenas de outras histórias (muitas delas ruins) para entender o que acontece. É o mesmo motivo que me manteve como fiel leitor da Turma da Mônica e me levou a começar uma grande coleção de Tex e outros bonellianos.
Meu problema é simples: continuidade sucks. Me irrita ver Peter Parker falando de tio Ben, a infância roubada de Bruce Wayne ou a origem resumida de sei-lá-quem a cada cinco edições (às vezes menos) só porque existem leitores novos que ainda não conhecem nada disso. Em tempos de Google, isso é mesmo necessário?!
Mas o que é realmente irritante (e reduz a já diminuta vontade de ler o reboot — não baixo quadrinhos porque gosto de sentir a revista nas mãos) é a bagunça que fica quando tentam resolver os problemas gerados pelo binômio continuidade antiga/leitores recentes criando uma nova linha temporal. Pior do que isso, uma nova linha temporal em que parte da antiga continua valendo! Como assim, a linha temporal do Batman pré-reboot ainda vale e a dos outros não?! E o tal multiverso?! Uma hora existe, outra hora não existe, outra hora existe, mas com um número menor de universos…
Lembro com certa saudade dos primeiros passos dos universos Ultimate e Mangaverse da Marvel. Re-criações interessantes de personagens consagrados. Alguns ficaram muito ruins, principalmente na versão mangá, mas eram histórias novas, com algumas características das linhas tradicionais e sem a necessidade de ter que explicar as novidades em composição com o establishment. Abandonei o universo Ultimate por causa da pressa com que se criou versões de todos os heróis e vilões, sem dar o tempo necessário para maturação do universo. Sou chato com linhas temporais: não gosto de loopings, não gosto de falsos paralelismos, não gosto de acelerações.
O que chamou minha atenção na notícia sobre Alan Scott não foi ele ter saído do armário (armário em que me parece ter sido colocado à força, diga-se de passagem), mas ele ser o Lanterna Verde da Terra-2. Eu até gosto da idéia de multiverso, mesmo que gerasse um bocado de confusão, e acho que Crise nas Infinitas Terras foi uma solução desastrosa para o problema das múltiplas linhas temporais. Vamos pensar um pouco: se queremos acabar com a confusão de trocentas linhas temporais simultâneas, o melhor caminho definitavamente não pode ser criar uma continuidade singular a partir de todas elas.
Boas histórias têm fim.
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Sobre Quotista

Filipe Makoto Yamakami é historiador, professor, músico amador, twitólatra, monicólatra, etc. E realmente precisa de um emprego que lhe permita pagar as contas. @makotoyamakami
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2 respostas para Essa tal diversidade

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