E se uma vítima da Ditadura voltasse dos mortos e descobrisse que o país decidiu esquecer o que aconteceu?
É dessa premissa que parte Pulsar, HQ criada por Arthur Garcia e João Pacheco, publicada originalmente pela Editora Escala nos anos 1990. Em 1972, os militares decidem eliminar os super-heróis brasileiros, considerados subversivos. Entre as vítimas está Carlos Camargo, o Pulsar: capturado, torturado e dado como morto. Em 1994, ele reaparece desmemoriado, deslocado em um país que já deixou a Ditadura para trás — ao menos oficialmente.
A aventura de super-heróis logo se transforma em uma investigação sobre repressão, memória e esquecimento. E aqui está um dos méritos da HQ: ela não precisa reproduzir documentalmente a Ditadura para falar sobre seus efeitos. Publicada menos de dez anos após o fim do regime, Pulsar também olha para o Brasil dos anos 1990, quando o passado recente ainda era tratado, muitas vezes, como assunto encerrado.
Em Os Arquivos de Judas, o Estado cria um projeto para catalogar os super-heróis. O registro, porém, deixa de ser mera documentação e vira instrumento de perseguição. Classificados como subversivos, os heróis passam a ser alvos de um sistema que transforma informação em condenação. A ficha que deveria descrever o indivíduo ajuda a decidir seu destino.
A repressão também depende da delação. Pulsar é traído por Calibre, um super-herói que era seu amigo. O Estado não age sozinho: conta com informações fornecidas por pessoas próximas às vítimas. E o título do arco não é gratuito. Judas é o traidor. Para seguir em frente, Pulsar terá de encarar aquele que o entregou.
É aqui que a história toca em uma ferida brasileira: o perdão.
A Lei da Anistia, de 1979, foi um marco da transição política, mas sua interpretação dominante também alcançou agentes do Estado acusados de crimes cometidos durante a repressão. Em 2010, o Supremo Tribunal Federal manteve esse entendimento ao julgar a ADPF 153, apesar das críticas de organizações que defendiam a investigação e a responsabilização desses agentes.
Em Pulsar, a reconciliação segue outro caminho: ele perdoa Calibre depois de descobrir e confrontar quem o traiu, embora essa parte da história só tenha sido publicada na Edição Definitiva, em 2018, num contexto em que as disputas sobre a memória da Ditadura, a responsabilização dos agentes da repressão e os limites da anistia já haviam ganhado novos contornos.
Perdão não é fingir que nada aconteceu. E existe uma diferença fundamental entre o perdão concedido por uma vítima e uma decisão estatal que impede ou limita a responsabilização por crimes. Um é uma escolha pessoal; a outra envolve justiça, memória e poder.
Pulsar retorna de um passado que o país considera superado. Não viveu a abertura política nem a redemocratização. Por isso, não aceita como natural que o tempo, por si só, resolva tudo. Seu anacronismo é justamente sua força crítica: ele obriga o presente a responder pelo que preferia deixar para trás.
Há ainda uma ironia histórica. A primeira aventura saiu em 1994, antes da Lei nº 9.140, de 1995, que reconheceu oficialmente como mortas pessoas desaparecidas por razões políticas e criou uma comissão especial para tratar desses casos. Enquanto o Estado começava a reconhecer, ainda de forma limitada, a situação de vítimas da repressão, Pulsar já transformava desaparecimento, traição e negação em elementos de uma aventura de super-heróis.
Em 2018, Pulsar – Edição Definitiva, pela Revolução Editorial, recuperou a saga, com nova colorização, capítulos redesenhados e material inédito, preenchendo lacunas da publicação original.
Pulsar, é claro, não oferece uma solução para os impasses da transição democrática. Faz algo talvez mais incômodo: lembra que reconciliação não é sinônimo de esquecimento e que não há perdão verdadeiro imposto de cima para baixo.








