Onde queremos chegar? Capitão América, raça, nação e as disputas por passado e futuro

Onde queremos chegar? Uma reflexão a partir da série Falcão e o Soldado Invernal.

Dúvida essencial, seja em começo de ano, namoro, mordida ou garrafa, especialmente importante em começo de gestão presidencial. Vislumbrar um destino final é pauta inevitável neste intervalo entre o Natal e o Carnaval. 

Deficiente de talento, fico livre para usar o dom de gente prendada como pré-texto. No caso é a postagem do Ricardo Coimbra (que você está errado na vida se já não segue no Instagram): 

Preciso nas caracterizações, fulminante na análise, o desfecho é abrasador, que arremessa qualquer leitor para dentro da sua casinha, em posição fetal, indagando sobre cada decisão tomada desde a 7a série. 

Parafraseando, se cada modelo estético traz um esboço de futuro, é de se indagar que mundo é imaginado pelos que militam, influenciam ou acampam por aqui. Vez que não há arte sem projeto, nem projeto sem adeptos, esta é ocasião para refletir sobre quem compõe a tribo das HQs, animes, filmes e tal. 

O tema é urgente uma vez que o nerdismo se revelou mais duradouro que a onda emo e agrega usuários reconhecíveis na rua graças ao uso de trajes e peças que só os versados nos caminhos de Simon, Schuster, Kane, Marston e Kirby sabem reconhecer. Entre os adereços, chama atenção o uso de camisetas do Capitão América aqui na terra da madeira de cor de brasa. 

“Evitando o mal cheiro”

Desta feita, dos diferentes rumos que a tira acima e pauta eleita poderiam levar, vale revisitar assunto mencionado em podcast sobre a fase 4 do MCU. Especificamente, sobre a série “Falcão e o Soldado Invernal” (2021), abaixo.

Para relembrar, a temática dominante da série orbitava em torno do legado do Capitão América, simbolizado pelo escudo, disputado por John Walker e Sam Wilson, e cuja representatividade é questionada de forma incisiva por Isaiah Bradley (Carl Lumbly). Vale a pena rever um trecho:

Auto-evidentes para qualquer um que já tenha sentado numa cadeira universitária, o trecho é repleto de mensagens implícitas. Exceto para vocês, que são tudo lindo e acompanham nosso site há mais de uma década, vale traduzir as palavras de Isaiah: 

  • gente branca, como Bucky Barnes, pode decidir o que e quem é;
  • por ser preto, Isaiah foi preso e usado como cobaia;
  • depois de enfrentar os piores desafios, por ser preto, tudo que Isaiah fez ou realizou foi abandonado e esquecido. 

O elemento racial, mais nítido do que em qualquer outra obra do MCU, foi alçado como motivo de caracterização do personagem heróico. Menos do que qualquer conflito ou antagonismo entre personagens, o enredo da série deu lugar ao embate de diferentes versões sobre conceitos como ordem, terrorismo, nação, identidade, comunidade, memória e, claro, futuro, que compunham os diálogos entre os personagens. Onde a série queria chegar? 

“Onde se quer chegar” é uma dúvida que convida ao menos outras duas: “onde estão” e “de onde vieram”. No caso dos Estados Unidos, lar do Capitão América, “onde estão” seria o ano de 2021, ou seja, pouco depois da morte de George Floyd e o fortalecimento, entre outros, do movimento Black Lives Matter. Assim como Steve Rogers socava Adolf Hitler meses antes do ataque japonês à Pearl Harbor em março de 1941, seria o convite ao debate na série a expressão de um desejo do público?

Para responder “de onde vieram”, basta lembrar do célebre discurso de Frederick Douglass, líder abolicionista negro, na ocasião do septuagésimo-sexto ano da independência dos Estados Unidos, quando perguntava: 

Companheiros, perdoem-me, permitam-me perguntar, por que fui chamado para falar aqui hoje? O que eu, ou aqueles que represento, tenho a ver com sua independência nacional? Os grandes princípios de liberdade política e de justiça natural, incorporados naquela Declaração de Independência, são estendidos a nós? e sou, portanto, chamado a trazer nossa humilde oferta ao altar nacional, confessar os benefícios e expressar devota gratidão pelas bênçãos resultantes de sua independência para nós? (Apud https://www.blackpast.org/african-american-history/speeches-african-american-history/1852-frederick-douglass-what-slave-fourth-july/ Acesso em 30/12/2022. Tradução do autor) 

Naquele ano, 1852, Douglass estava há 13 anos antes da “13a Emenda”, ato constitucional que colocou fim à escravidão nos Estados Unidos e que marcava o final da Guerra de Secessão. Para ele, a realidade era nítida: desfrutar de independência, igualdade, liberdade ou buscar a felicidade eram prerrogativas exclusivamente brancas. 

Vale pontuar que, no mesmo ano, o Brasil estava há meros 30 anos separado de Portugal, graças a nada mais do que uma manobra palaciana. Estava também há 3 décadas distante de uma abolição protelada por medo de uma versão da Guerra Civil Americana no Brasil. Abolição, aliás, especialmente concebida para desobrigar o Estado pelo ônus da reparação de milhares de pessoas sequestradas de sua terra natal ao longo de quase 400 anos. 

Ao longo da série (que astutamente tem o título de “Falcão e o Soldado Invernal” atualizado para “Capitão América e o Soldado Invernal no episódio final), os duelos entre o herói e diferentes antagonistas, como Karli Morgenthau (Erin Kellyman), John Walker (Wyatt Russell) e o Barão Zemo (Daniel Brühl), são menos relevantes (e convenhamos, menos memoráveis) do as situações em que cada um apresenta seus dilemas e visões dos fatos. A realidade da série não é mais fantástica do que a nossa. Afinal, não deviam os Estados e governos garantir os direitos básicos de todos, segurança, moradia, lazer, saúde? Catástrofes naturais (ou Thanos, no caso) são justificativas para ignorar os direitos de uns para garantir o de outros? 

São ótimas perguntas. Num período pós-pandemia, tanto mais. E se furtar de uma auto-avaliação é ignorar as virtudes das HQs e adaptações cinematográficas como Capitão América e o Soldado Invernal. Onde se quer chegar, pode indagar o nerd da terra da madeira-fogo, quando pensa em quantas mulheres pretas, como Amanda Waller, já teve como figuras de autoridade profissional ao longo da vida. Onde se quer chegar, pode questionar o nerd, quando pensa em que outros símbolos nacionais ele lembra quando decide usar a camiseta do Capitão América. Onde se quer chegar, indaga o nerd, quando lembra que as cores verde e amarela da bandeira nacional remontam às casas dos Bragança e Habsburgo. Onde se quer chegar, pode se perguntar o nerd, ao localizar a origem da família do lado europeu e não considerar o mesmo esforço para o lado africano. Onde se quer chegar, pode imaginar o nerd, quando se aposentar, quando “se der bem na vida”, se fica no bairro em que nasceu, se muda de cidade, ou país. 

Ao final, a série foi na contramão de quem esperava as tramas resolvidas no braço pelo Capitão América (Anthony Mackie) e o Soldado Invernal (Sebastian Stan). Invés disso, há um convite do Capitão América para o debate: 

Ao recusar a violência catártica como resolução final, para muitos a série pode ter levado à sensação de uma não-finalização. Algo como um pastel de vento para um paladar esganado, condicionado a sabores intensos desde o lançamento de Os Vingadores (2012). Talvez aí resida uma parte das críticas feitas contra a série. Para estes, Capitão América e o Soldado Invernal pode não ter levado aonde se esperava chegar. Só por esta razão, lugares assim devem ser revisitados toda vez em que novos caminhos se abrem diante de cada um. 

Feliz 2023 para você e todos que discordam de nós. Que a gente aprenda uns com os outros.

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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