Citação freestyle: cinco passagens de Joseph Campbell para comentar a cultura nerd 

Uma receita para um bom texto de alguém tão bem vestido.

Aí vai um segredo: a boa escrita, o bom texto, só vale a pena ser colocado no papel se for pra alcançar uma só pessoa. Ou um mesmo tipo de leitor, com critérios bem delimitados. Qualquer investida além dessa revela uma de duas coisas: a) uma tentativa de agradar a todos ou b) uma embuçada imitação de gente mais talentosa. As duas são vias com o mesmo destino: o limbo do esquecimento. 

Afinal, esta também é uma “casa dos segredos”.

Isto dito, que não haja dúvidas, bons textos, aqui, normalmente tinham uma única pessoa em mente, mesmo que ela jamais chegue a ler qualquer linha publicada. Hoje é a vez daqueles que a cada semana tropicam e sucumbem nas mesmas armadilhas e dúvidas que qualquer iniciante se depara quando começa a jornada da construção do conhecimento. Ou seja, este é um texto quebra-galho para a alunada com quem compartilho as oficiais 40h semanais além das oficiosas horas extras e que volta e meia se desesperam com o anteparo intransponível (sic) de usar as citações diretas. 

Repetido à exaustão, citação não é ilustração (nem mesmo as do Adorno), mas a forma autêntica do significado que o autor empregado quis abordar. Algo como uma síntese do pensamento do sujeito, um suco do cérebro do autor. Citada e abandonada, porém, a referência sucumbe ao formalismo, uma tentativa trapaceira de parecer erudito. Dizia Arnaldo, a regra é clara: toda citação deve ser comentada e se cair na área é pênalti. 

Para exemplificar, num exercício de citação freestyle, trago a citação seguida de um comentário associado a algum produto da nerdsfera. Como o domingo é curto para parir um bom texto, apelo ao Joseph Campbell, patriarca conceitual da iniciativa Quadrinheira, e autor de centenas de citações facilmente inseridas e permutáveis em qualquer gênero literário, da crônica à dancinha de tik tok.

Pra quem quiser dar um ctrl c – ctrl v direto, tá aqui a fonte das referências: 

CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 1990. 

Exemplo 1 

No caso de “Homem-Aranha: Sem volta para Casa” (Dir. John Watts, 2021), conforme diz Campbell: 

Dizem que o que todos procuramos é um sentido para a vida. Não penso que seja assim. Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior de nosso ser e de nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos. É disso que se trata, afinal, e é o que essas pistas nos ajudam a procurar, dentro de nós mesmos. […] Mitos são pistas para as potencialidades espirituais da vida humana.” (CAMPBELL, 1990, p. 17)

Ou seja, por um lado, o sucesso de “Homem-Aranha: Sem volta para Casa” obviamente pode ser explicado pela combinação da fina calibragem do marketing da indústria cultural e da transmidiática presença de atores que transitaram em múltiplas plataformas de streaming, a exemplo de Zendaya, protagonista da série Euphoria, e espalhadas ao longo de duas décadas desde o lançamento de Homem-Aranha (dir. Sam Raimi, 2001). Mas é, também, resultado de uma ansiedade existencial, uma tentativa de resposta inquietações ancestrais características da juventude, abordada no multiverso cinematográfico por diferentes versões de Peter Parker, explorada pela mitologia examinada por Campbell e sintetizada sob a mesma pergunta: afinal, quem sou eu?

Exemplo 2

A narrativa de “O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder” (Patrick McKay, 2022) pode ser vista na perspectiva de Campbell quando diz que: 

“[…] Os mitos antigos foram concebidos para harmonizar a mente e o corpo. A mente pode divagar por caminhos estranhos, querendo coisas que o corpo não quer. Os mitos e ritos eram meios de colocar a mente em acordo com o corpo, e o rumo da vida em acordo com o rumo apontado pela natureza. […] Os estágios do desenvolvimento humano são hoje os mesmos que eram nos tempos antigos. Quando criança, você é educado num mundo de disciplina, de obediência, e é dependente dos outros. Tudo isso tem de ser superado quando você atinge a maturidade, de modo que possa viver, não em dependência, mas com uma autoridade auto responsável. Se você não for capaz de cruzar essa barreira, poderá se tornar um neurótico. Depois de ter conquistado, produzido o seu mundo, vem a crise de ser dispensado, a crise do desengajamento.  (CAMPBELL, 1990, p. 83)

Portanto, seria possível interpretar a busca de Galadriel pelos vestígios dos seguidores de Morgoth na Terra-Média como uma narrativa mitológica da jornada infantil em busca por autonomia e emancipação. A inicial ausência de rastros concretos e a recusa em acreditar que o “mal” tenha sido extinto naquelas paragens é a base da decisão de Galadriel em não cruzar os portais de Valinor, metáfora para o lócus de contentamento e satisfação emocional, um ideal de vida adulta que a personagem ainda se vê despreparada para alcançar. Nos termos de Campbell, Galadriel mantém-se, voluntariamente, na condição de neurose. 

Exemplo 3

Nesse sentido, o filme “Coringa” (dir. Todd Phillips, 2019) remete à interpretação de Joseph Campbell quando diz que: 

“[…] Nossa vida desperta o nosso caráter. Você descobre mais a respeito de você mesmo à medida que vai em frente. Por isso é bom estar apto a se colocar em situações que despertem o mais elevado e não o mais baixo da sua natureza. ‘Não nos deixeis cair em tentação.’ Ortega y Gasset fala a respeito do ambiente e do herói em suas Meditações sobre o Quixote. Dom Quixote foi o último herói da Idade Média. Saiu pelo mundo à procura de gigantes mas, em vez de gigantes, o ambiente à sua volta lhe ofereceu moinhos de vento. Ortega assinala que a história se passa numa época em que surge uma interpretação mecanicista do mundo, de modo que o meio não fornecia mais respostas espirituais ao herói. O herói se vê então lutando contra um mundo duro, que não corresponde mais às suas necessidades espirituais.” (CAMPBELL, 1990, p 144)

Assim, não seria exagero uma sobreposição conceitual de Dom Quixote e o Coringa interpretado por Joaquim Phoenix na mais recente versão cinematográfica do vilão. Afinal, a narrativa oferece uma perspectiva da degradação existencial de Arthur Fleck como reflexo subjetivo da panóptica deterioração de Gotham City, décadas antes do surgimento de Batman. Diante da evidente hipocrisia social que Fleck é testemunha (o assassinato no trem), o protagonista é condenado a ter qualquer sombra de otimismo e esperança sufocada diante do realismo que apenas ele parece ser capaz de detectar: não há esperança. O que resta é o riso indiferente da loucura. 

Exemplo 4

Ao se pensar no desfecho de “Star Wars – O Último dos Jedi” (dir Rian Johnson, 2017) é inevitável lembrar de Campbell quando afirma que: 

“[…] essa idéia de uma sustentação invisível se relaciona também à sociedade. A sociedade aí estava, antes de você; continua aí, depois que você se vai, e você é um membro dela. Os mitos que o ligam ao seu grupo social, os mitos tribais, afirmam que você é um órgão de um organismo maior. E a própria sociedade, por sua vez, também é um órgão de um organismo ainda maior, que é a paisagem, o mundo no qual a tribo se move. O tema básico do ritual é a vinculação do indivíduo a uma estrutura morfológica maior que a do seu próprio corpo físico. O homem vive de matar e há um senso de culpabilidade decorrente disso. Sepultamentos sugerem que o meu amigo morreu e sobrevive. Os animais que eu matei também devem sobreviver. Os caçadores primitivos normalmente tinham uma espécie de divindade animal – o nome técnico deveria ser o mestre animal, o animal que é o mestre animal. O mestre animal envia os rebanhos para serem mortos. Como você vê, o mito básico da caçada traduz uma espécie de acordo entre o mundo animal e o mundo humano. O animal entrega sua vida voluntariamente, compreendendo que essa vida transcende sua entidade física e retornará ao solo ou à matriz, por meio de algum ritual de restauração.” (CAMPBELL, 1990, p. 86)

Em outras palavras, quando Luke Skywalker deixa de lado sua relutância em ajudar Rey e a Resistência, o agora mestre Jedi, antigo aluno de Yoda e Obi-Wan Kenobi, optou por ser coerente com a verdade revelada da Força: a morte faz parte da vida. Ao se sacrificar, Luke garantiu valiosos minutos para que os últimos resistentes – e também a própria irmã – tivessem condições de escapar. Luke, assim como o mestre animal aludido por Campbell, compreende que sua carne deve retornar ao éter para que outros possam sobreviver. 

Exemplo 5 

Ao fugir do hegemônico referencial religioso de fundo cristão, Pantera Negra (dir. Ryan Coogler, 2018) pode ser observado na direção indicada por Campbell quando afirmou que: 

“[…]  Eis o significado da imagem do Graal, da fonte inexaurível, da causa primeira. Sendo ela a geradora do ser, não se preocupa com o que acontece a partir daí. O que conta é o dar se ao ser; esse é o momento da vida emergindo em você. Isso é o que todos os mitos procuram dizer. No estudo da mitologia comparada, comparamos as imagens de um sistema com as de outro e ambos se iluminam, porque um acentuará e dará uma expressão mais clara ao significado do outro, e assim sucessivamente. Eles se esclarecem uns aos outros. Quando comecei a ensinar mitologia comparada, tive receio de que pudesse destruir as crenças religiosas de meus estudantes, mas o que aconteceu foi justamente o oposto.”  (CAMPBELL, 1990, p. 238)

Ou seja, ao abordar as imersões espirituais de T’Challa no mundo dos mortos de Wakanda, o herói interage com seus antepassados e desvenda mistérios que teriam sido ignorados de outra forma. Na perspectiva de Campbell, invés de contradizer uma cosmogonia judaico-cristã, o diretor Ryan Coogler acaba confirmando um dos aforismas religiosos ali presentes, a de que a vida pós-morte promove a congregação com entes queridos, elemento mais vívido quando reconhecido como traço da religião de matriz africana presente no filme. 

Fim dos exemplos

Claro, não vamos esquecer que toda citação deve ser feita em letra menor do que a do restante do texto, sem espaçamento e jogada pra banda da direita da página, a 4cm do início do parágrafo. 

Afora ser um exercício divertido, a citação freestyle revela, entre outras capacidades, a do Joseph Campbell ser altamente flexível para contextualizar qualquer obra nerd. 

À alunada que sofre com prazo e formato, vale lembrar uma última do Campbell:

“[…] Na infância, vivemos sob a proteção ou a supervisão de alguém, entre os quatorze e os vinte e um anos – e caso você se empenhe na obtenção de um título universitário, isso pode prosseguir talvez até os trinta e cinco. Você não é, em nenhum sentido, auto responsável, um agente livre, mas um dependente submisso, esperando e recebendo punições e recompensas. Evoluir dessa posição de imaturidade psicológica para a coragem da auto responsabilidade e a confiança exige morte e ressurreição. Esse é o motivo básico do périplo universal do herói – ele abandona determinada condição e encontra a fonte da vida, que o conduz a uma condição mais rica e madura.” (CAMPBELL, 1990, pp 137-138)

Dito de outra forma, não há aprendizado sem uma bela dose de desconforto. Os dias que nos quebram são os dias que nos constroem.

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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