O relevante Demolidor de Chip Zdarsky!

Daredevil Zdarsky coversA fase do Demolidor escrita pelo roteirista Chip Zdasrky, está chegando ao fim lá nos EUA, e é debate sobre lei, justiça e direitos humanos para bandidos do começo ao fim!

Desde 2019 o roteirista Chip Zdasrky escreve o título mensal do Demolidor para a Marvel. O mundo mudou bastante desde 2019 (os últimos dois anos parecem uma década), e ele consegiu inserir debates importantes nas escolhas e nos diálogos dos personagens, o que dá muita relevância à sua passagem.

A edição 36, que encerra o run, será publicada em janeiro de 2022 e terá mais páginas. Por aqui a Panini já publicou 4 volumes (edição 01 à 20) e o volume 5 (até a edição 25 + o anual) está prometido para outubro de 2021. A série e o autor foram indicados para o prêmio Eisner em 2020 e 2021.

Os temas principais abordados por Zdarsky nas páginas de Demolidor não são novidades para o personagem – o conflito entre a fé católica num Deus justo e a injustiça no mundo, a distância entre as leis humanas e a justiça, e a violência como solução para a injustiça. Os personagens que ajudam Matt Murdoch a contar essa história também são os de sempre – Elektra, Wilson Fisk, Mary Typhoid, Mercenário, Justiceiro, Foggy Nelson etc.

Mas Zdarsky usa temas e personagens recorrentes para aprofundar o debate sobre crime e  encarceramento, violência policial, influência do poder econômico sobre o poder político, concentração de renda e o papel do Estado – assuntos que foram e continuam tensionados por causa do governo Trump, do assassinato de George Floyd e da pandemia de Covid-19. Vejam alguns exemplos dessas reflexões (com spoilers):

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Depois de desistir de ser o Demolidor por ter matado um assaltante (acidentalmente), na edição número 8, Matt vai jantar na casa de uma família criminosa (a família Libris). À mesa, de forma arrogante, ele enumera todos os crimes de Izzy Libris, a matriarca, e seus parentes. A resposta de Izzy é um tapa na cara de Matt, mostrando que é a criminalidade que mantém o preço dos aluguéis no bairro da Cozinha do Inferno acessíveis aos trabalhadores, que a justiça é um privilégio dos ricos e que a violência visceral das ruas, que chega à opinião pública através da mídia, é demonizada (ação de homens maus e degenerados), enquanto que a violência econômica é rotulada como empreendedorismo ousado, e a violência política como estratégia eleitoral (ação de homens corajosos e exemplares).

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A edição seguinte (9) começa com um diálogo entre Matt e Reed Richards sobre a existência de Deus. O Senhor Fantástico adota o argumento agnóstico da impossibilidade de afirmar a existência de um Criador (argumento que Reed prefere classificar como científico). Mas na sua fala ele deixa claro que ainda que exista esse Criador, é absurda a ideia de que um livro contenha a verdade sobre Ele e que aqueles que seguem essa “revelação” e suas leis sejam os únicos corretos. Na sequência, Matt volta à igreja em busca de um sinal de o que Deus quer que ele faça. O sinal aparece na forma de um menino que sumiu e precisa ser encontrado. Matt usa a violência, como sempre, para solucionar o caso e termina nos braços de Mindy Libris (que ao ficar com Matt está cometendo adultério). A busca do Demolidor por seu Deus católico e pela promessa de justiça que esse Deus simboliza, ao mesmo tempo que a violência e o adultério vão contra as leis desse mesmo Deus, são a essência do personagem.

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Na edição 12, o prefeito de Nova York, Wilson Fisk, vai a um jantar na casa dos super ricos irmãos Stromwyn. À mesa, o antigo Rei do Crime se sente deslocado no meio de comentários sobre como os bilionários controlam países inteiros. Perguntado sobre sua pretensão de legalizar a maconha na cidade de Nova York, o prefeito Fisk é avisado por um dos convidados que o lucro gerado pelo sistema prisional (privado) e pelas leis da guerra às drogas (que alimentam o sistema prisional), é um empecilho para tal proposta. Os convidados tratam Fisk como uma atração de circo, perguntando sobre seu passado criminoso, cutucando seus pontos fracos e se divertindo com isso.

Essa violência econômica, que é maior quanto maior é a distância entre ricos e pobres, fica bem clara em outras passagens do arco de Zdarsky. Na edição 17, Matt confronta os irmãos Stromwyn (que compraram todo o bairro da Cozinha do Inferno), numa tentativa desesperada de recuperar o controle sobre sua vida e a vida daqueles que são importantes pra ele. Os bilionários tratam Matt e o assunto como algo insignificante.

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Na edição 14, o policial Cole North (que aparece já na primeira edição do arco e é essencial para a trama), toma um café com Matt Murdoch. North veio transferido da polícia de Chicago para Nova York, e como não tem nenhum tipo de admiração por vigilantes mascarados, persegue o Demolidor e ganha a simpatia do prefeito Fisk que o coloca para perseguir outros, como o Homem Aranha, etc. Dentro da polícia de NY, North combate a violência policial e os policiais corruptos do departamento, o que o leva a uma posição de pária. Na conversa com Matt os dois debatem o limite da lei e da justiça. 

North baleou um jovem de 16 anos em Chicago que sacou seu telefone para filmar a abordagem policial. Ele argumenta que foi afastado e pediu transferência, e que essa “punição” mostra que a lei tem que ser cumprida. Matt argumenta que a lei tem diferentes pesos dependendo de quem você é na sociedade, e que se North não fosse um policial, estaria preso pelo que fez. A distância entre lei e justiça aqui é o conflito que move os dois personagens, que nesse momento da narrativa forja uma parceria entre eles. Ainda que a questão racial não seja abordada de forma direta, o debate sobre o tratamento diferente que a cor da pele de vítimas e criminosos gera está presente nesse diálogo.

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E por fim as edições 17, 18 e 19 que mostram pessoas comuns usando o simbolo do Demolidor para salvar seu bairro. Matt e Fisk lutam do mesmo lado contra as forças controladas pelos irmãos Stromwyn para salvar a Cozinha do Inferno.

Na sequência a história tem uma solução Deus Ex Machina bem clássica dos quadrinhos de super-heróis, com mudanças mágicas no passado que têm consequências no presente (um irmão que aparece do nada na edição anual – One more day – do Demolidor). Depois disso Matt Murdoch se entrega para a polícia, deixando Elektra em seu lugar como Demolidora, se declara culpado e vai para a prisão.

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Então ele reflete sobre o sistema prisional e como aqueles homens que estão ali são frágeis e fragilizados. Ele ouve, com sua super audição, as histórias e os choros dos presos e entende que a violência que eles buscam e espalham é uma tentativa de não se sentirem tão impotentes.  No meio de tudo isso a saga King in Black (que se espalha por vários títulos da Marvel), ainda que não altere quase nada, mostra a força dos personagens e tira o Demolidor da prisão. O retorno dele às ruas de seu bairro, junto com Elektra e o casamento de Wilson Fisk com Mary Typhoid prometem ser o desfecho desse longo arco.

Chip Zdasrky consegue, usando essencialmente os elementos clássicos do personagem, dialogar com o público que foi introduzido ao Demolidor na série da Netflix, agradar fãs antigos de Matt Murdoch (recriando o confronto entre Elektra e o Mercenário, por exemplo), debater temas sociais importantes e ainda modificar a vida de alguns personagens (como Fisk e Typhoid). Nesses tempos em que críticas violentas e cancelamentos diante de qualquer menção a “direitos humanos para bandidos” é a norma das redes sociais, o que Zdasrky fez no Demolidor é um feito e tanto!

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Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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