Terrorismo e a complexidade humana em ‘Isso é informação’ de Alan Moore e Melinda Gebbie

Uma história sobre conflitos políticos e a complexidade humana.

Isso é informação faz parte de uma antologia colorida de 192 páginas chamada 9-11 Artists Respond Volume One publicada em janeiro de 2002, esta antologia foi uma parceria entre as editoras Image, Chaos! e Dark Horse comics, reunindo grandes artistas de quadrinhos. O projeto conseguiu levantar fundos para as vítimas do ataque do “11 de Setembro” às Torres Gêmeas em 2001. 

Foi nesse contexto conturbado que Alan Moore desenvolveu sua história juntamente com Melinda Gebbie. A HQ basicamente traz uma reflexão acerca da “informação” como fio condutor para tratar de aspectos sociais e históricos da humanidade. Logo na primeira página da curta HQ vemos uma definição interessante acerca da informação como ferramenta essencial para a construção da realidade humana, pois Moore escreve: “Matéria é energia, energia é informação. Tudo é informação”.  Nas páginas seguintes vemos eventos que ilustram como a informação está presente nos cenários políticos e sociais de diversas épocas, e como muitas vezes o padrão informacional se repete desde eventos como as cruzadas até aos ataques terroristas do início do século XXI. 

A estrutura narrativa de Isso é informação não é algo convencional, como se costuma ler nas histórias em quadrinhos tradicionais,  funcionando mais como um fluxo de consciência, a narrativa é uma reflexão acerca de um ponto central (a informação) dentro de um contexto onde os quadros ilustram essa reflexão e fazem alusões a determinadas passagens da história humana. Mas é evidente que, pelo contexto da antologia, Alan Moore tentou traçar uma dicotomia entre a tamanha complexidade que a informação alcançou no século XXI e a fatídica tragédia do 11 de Setembro, principalmente com as possíveis consequências disso. 

Alan Moore ainda utiliza o curto espaço de seis páginas que tem à disposição para falar dos perigos de se ter um raciocínio polarizado sobre os fatos (ainda mais em um contexto político como a Guerra ao Terror), para isto ele faz uma alusão ao extremismo político gerado pelo terrorismo e à moralidade das histórias em quadrinhos de cunho mais infantil. Abaixo deixo um trecho dessa passagem para melhor compreensão:

Outro ponto interessante e fundamental da história é a relação que o autor traça entre o ciclo humano de destruição e reconstrução com a carta do tarô chamada “A Torre”, um símbolo de transformação e de quebra de realidade. 

Alan Moore trabalha a Torre simbolizando a construção ou a materialização de um projeto, ideia ou expectativa, e o relâmpago atingindo-a como um princípio destrutivo ou um elemento que coloca em xeque nossas percepções acerca do que construímos até então, ao mesmo tempo em que o relâmpago também representa o divino que se manifesta realizando o processo de equilíbrio natural na realidade, ou como um acontecimento que não temos controle pode influenciar nosso futuro.

Sobretudo, o fim de Isso é informação traz um ar de esperança, aquela velha luz no fim do túnel, representando a força estimulante que nos impulsiona a nos reerguer diante da tragédia e reconstruir um futuro melhor a partir dos erros do passado, uma característica peculiar em muitas obras de Alan Moore, que, na minha opinião, está mais para um pacifista esperançoso que busca entender as relações do mundo para melhor viver nele do que um profeta do fim dos tempos. É interessante observar em obras como Monstro do Pântano, Watchmen, Promethea, V de Vingança, Tom Strong, entre outras, como Moore sempre ressalta um espírito esperançoso, muitas vezes refletido pelos próprios protagonistas, muito desse espírito é fruto de sua firme crença em valores como a justiça, solidariedade e a busca pela verdade. A seguinte frase abaixo que se encontra na última página representa isso bem: 

“Qualquer vida humana é mais complexa, mais cheia de energia, que a mais alta de nossas torres. E qualquer morte simplifica tudo isso de maneira horrível. tontos e confusos, como estamos agora em meio às ruínas de nossas torres, abre-se uma oportunidade para aprendermos alguma coisa.”

Se você quiser ler Isso é informação e outras histórias curtas de Alan Moore fora das grandes editoras de quadrinhos, tão boas quanto essa, saiba que a editora Mythos lançou um compilado de dez pequenas histórias do Bruxo de Northampton. O encadernado chama-se “Histórias Brilhantes – 10 HQs de Alan Moore” e se encontra à venda na Amazon. 

Para complementar, deixo também como complementação, dois textos escritos pelo Nerdbully em que ele aborda duas histórias em quadrinhos da Marvel lançadas após o 11 de setembro. Este link referente ao Capitão América  e este referente ao Homem Aranha.

Sobre Goes Murdock

Teve suas faculdades psíquicas ampliadas ao entrar em contato com as Luzes Captológicas. Nos bares de São Paulo, entre um vinho e outro, não se cansa de dizer aos amigos o poder transformador dos quadrinhos. Ler e escrever é uma necessidade diária assim como comer, e mesmo rodeado de cardápios culturais sente fome de conhecimento.
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