Negacionismo kryptoniano e a diáspora de cérebros

O real tem algo de muito familiar.

Não dá mais pra ignorar, nos enfiamos numa versão realista de Caverna do Dragão. Para o xóvem que não conhece a referência, é o lugar que parece muito divertido no tabuleiro, seus pais têm saudade, mas onde morre gente de verdade, todo mundo promete uma saída, mas você está preso e sem perspectiva de sair tão cedo.

Não há semana que passe sem notícia que revolte o mais rochoso coração. É um mix de dinheiro na cueca, evangelismo homicida, cancelamento, antivacismo seletivo ou temas variantes. Juntos, dão cara (e chorume) para um século que começou de verdade. E na única praça pública viável, o bioma online, aparecem algumas tendências que só crise, guerra ou privação fortalecem. Tendências como negacionismo e esperança de um futuro melhor.

Aqui faltam meios para medir o tamanho dos estragos do negacionismo. Como avaliar o efeito de quem se empenha em colocar em dúvida a realidade objetiva de dados e fatos? Há aqueles que negam que o Pantanal está em chamas; ou então, que dizem “não existe racismo no Brasil” mesmo que o país tenha sido o segundo maior destino de escravos africanos da era Moderna ou, simplesmente, negam que a Terra é redonda, como se fatos fossem opiniões. Não são. E não há um “estragômetro” da mentalidade coletiva. Mas, há, sim, meios de enxergar os efeitos de negar a realidade, graças aos gibis.

Era difícil antes dos últimos anos, mas cada vez mais se entende Jor-El, o pai do Superman.

Relembrando: Jor-El, formidável cientista de Krypton, detectou a iminência do colapso da estrela mais próxima. Segundo os cálculos dele, o destino do planeta era fatal. Afrontados com os alertas de Jor-El, o conselho científico de Krypton concluiu que se tratava de exagero. Determinaram que Jor-El se calasse, evitando o pânico da população. “Bom, então f*&¨%-se”, pensou Jor-El na sua língua nativa. Restou-lhe disparar Kal-El, seu filho recém-nascido, em direção à Terra, onde cresceu para se tornar Superman.

Assim como os kryptonianos, o brasileiro tem certa aversão a lidar com mudanças de crenças, apesar de todas as evidências à disposição. A meia informação ou a confirmação da própria opinião têm mais lastro que qualquer nova evidência que leve a um obstáculo mental. Trata-se de hábito nacional inculcado na infância em nome do conformismo e pertencimento de grupo.

É parecido com o modelo mental que define o time que se torce. Você pode ver muitos jogos, enxergar o talento de mil outros times, pode até mudar de religião, de nome, de sexo, mas não vai mudar de time até o último suspiro de vida. O curioso é que as universidades, espaços que deveriam desafiar esse modelo, se tornam um tipo de estufa desse vício.

Poucas instituições talvez tenham se instalado de forma tão confortável no Brasil como as universidades. Sua criação coincidiu com a chegada da família real portuguesa, em 1808, ano da inauguração da Escola de Medicina da Bahia. Foram ampliadas na década de 1930 pelo anseio de uma massa crítica que conduzisse o Brasil à modernização. Foram impulsionadas pelas agências estaduais de fomento à pesquisa nos anos 60. E de lá à cá as universidades repetem, sem reconhecer, os crivos da sociedade estamental brasileira: senhores e vassalos. Vale provocar: não se trata de oposição de entes antagônicos, mas uma composição aceita e preservada por ambas as partes.

E antes de me tacar pedra, não, não é a mesma coisa que mentor e discípulo e sim, claro que existem exceções.

O caso das Ciências Humanas é exemplar. No Brasil, 22% do total de pesquisadores no censo de 2016 do IBGE são das Ciências Humanas, primeira colocada disparada em relação às diversas áreas. Entre os grupos de pesquisa, o campo da Educação é aquele que detém o maior número, com estonteantes 3.595 grupos dedicados à área. Já os grupos dedicados à divulgação científica eram miúdos 25 em 2016.

Inevitável na carreira acadêmica, não há noviço que em algum momento não tenha passado pelo escrutínio de banca examinadora que o fez se sentir um Jor-El do sertão. Verdade seja dita, muitas vezes a bibliografia do candidato é uma tremenda canoa furada.

Porém, em se tratando de um pesquisador sério, comprometido com a expansão do conhecimento da área dele, quantos novos dados, quantas evidências de cada projeto que jamais serão conhecidos? E por que? Muitas vezes apenas porque deixaram de se alinhar com a inclinação pessoal do ex-futuro orientador.

“Spock, suas citações não estão no formato ABNT e você não citou o Foucault nenhuma vez.”

Assim como em Krypton, vale mais a autoridade de quem aprendeu a proteger os estatutos, e não a quebra de paradigmas. Quem perde é aquela população que não teve chance, nunca chegou perto, ou simplesmente não quer ter contato com a produção acadêmica. Como mostram os dados da CNPq, ambiente excludente e que não se empenha em esclarecer questões, mas defender pontos de vista ou correntes teóricas. Mais importante é “derrotar” os interlocutores, dentro e fora do tatame acadêmico.

El sabya!! Professor aqui é, tudo, ruim memo!”, vai dizer você atrás da tela, fulo da vida lembrando do seu professor de Português que se enrolou pra explicar regra de vírgula no meio daquela carniça que era sua sala de aula. Bobagem. O ponto é: se tem professor mal formado ou se tem muitos professores sendo formados, a verdade é que eles ainda são poucos. 

Segundo levantamento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), o número de profissionais com formação superior no Brasil é inferior ao de países como Canadá (“vai, ok”), Estados Unidos (“claro!”), Argentina (“oi?”), Chile (o quê??), e Colômbia (WTF???)

Como explicar isso?

Tirando aquela porção de gente que toca a vida acadêmica de forma, digamos, “várzea”, é razoável pensar que existe uma outra porção que foi um pouco mais ambiciosa que Jor-El. Juntou suas tralhas e optou se mandar em busca de paragens mais amistosas à vida universitária. É o chamado “brain drain”. Como examinou o Prof. Isaac Roitman no Jornal da USP,

Vivemos uma realidade econômica desfavorável. Equivocadamente, em vez de aumentarmos os investimentos em Ciência e Tecnologia, como instrumento para superarmos a crise, os investimentos têm sido cortados. Universidades e centros de pesquisas tentam dar continuidade aos seus projetos. Apesar disso, muitos foram interrompidos. Os jovens pesquisadores desencantados começam a emigrar para países onde a Ciência e Tecnologia são valorizadas. É o que chamamos de “fuga de cérebros”. Essa diáspora de nossos talentos e lideranças é motivo de extrema preocupação, pois comprometerá o desenvolvimento e o futuro do Brasil.

“Futuro”, pelo que se vê a cada semana em primeira página de jornal, não é algo que se queira enxergar além da próxima eleição. Afinal, “futuro” é aquele balneário de águas calmas em que os erros podem ser corrigidos, as ofensas, perdoadas, e o que foi perdido, reencontrado. Como lembrou Roberto Da Matta, “o futuro à Deus pertence” é o ditado que revela a aversão brasileira de programar o que virá amanhã. Afinal, disse o sociólogo, “nosso credo social se funda na imobilidade das camadas sociais, denunciada por Tocqueville como sendo o cerne dos regimes monárquicos. Aqui, não há um futuro como mudança porque a ascensão social é detida até mesmo pelas leis.”

Assim, aos despidos de time de futebol e foguete kryptoniano, resta aquela breve dose de escapismo, o mau hábito de torcer por um mundo melhor. Costume obtido por opção, ensinado e auto-criticado por histórias do Batman, X-Men, Star Trek, Star Wars e tantas outras que jamais tiveram chance de ser ensinadas por aquele seu professor – que a cada dia vive pensando se faz alguma diferença no mundo.

Fontes usadas neste post:

https://jornal.usp.br/artigos/fuga-de-cerebros-uma-calamidade-para-o-brasil/

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/10/14/pf-encontra-dinheiro-na-cueca-de-vice-lider-do-governo-bolsonaro.htm

https://www.cartacapital.com.br/opiniao/a-conversa-com-lilia-schwarcz-nao-se-encerra-sem-mutua-escuta/

https://exame.com/brasil/doria-diz-que-vacina-da-covid-19-sera-obrigatoria-bolsonaro-diz-que-nao/

https://imagem-govest.maps.arcgis.com/apps/opsdashboard/index.html#/5c8b27df84534a058e2b40dde9dd77ac

https://slavevoyages.org/voyage/database#tables

https://eol.jsc.nasa.gov/ESRS/HDEV/

https://super.abril.com.br/mundo-estranho/onde-e-quando-surgiu-a-primeira-universidade-2/

http://www.leginf.usp.br/?historica=decreto-n-o-6-283-de-25-de-janeiro-de-1934#:~:text=Art

https://fapesp.br/92/estatutos-da-fundacao-de-amparo-a-pesquisa-do-estado-de-sao-paulo-e-decreto-no-40132-de-23-de-maio-de-1962

http://lattes.cnpq.br/web/dgp/por-grande-area3

https://data.oecd.org/eduatt/adult-education-level.htm

https://jornal.usp.br/artigos/fuga-de-cerebros-uma-calamidade-para-o-brasil/

https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,o-futuro-a-deus-pertence,70002819304

https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/01/18/fuga-de-cerebros-os-doutores-que-preferiram-deixar-o-brasil-para-continuar-pesquisas-em-outro-pais.ghtml

https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2020/01/18/fuga-de-cerebros-os-doutores-que-preferiram-deixar-o-brasil-para-continuar-pesquisas-em-outro-pais.ghtml

https://www.bol.uol.com.br/noticias/2020/10/11/mostra-aqui-flordelis-exibe-tornozeleira-eletronica-em-culto-no-rj.htm

Sobre Velho Quadrinheiro

Já viu, ouviu e leu muita coisa na vida. Mas não o suficiente. Sabe muito sobre pouca coisa. É disposto a mudar de idéia se o argumento for válido.
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Uma resposta para Negacionismo kryptoniano e a diáspora de cérebros

  1. Quim Thrussel disse:

    Coincidentemente, li o livro Os Últimos Dias de Krypton do Kevin J. Anderson (que já escreveu livros de Star Wars e Duna), ele expande a história de Jor-El, recomendo, o livro saiu aqui pela Casa da Palavra.

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