O que aconteceu com Gus Morais e suas metáforas visuais?

Detalhe de ilustração de Gus Morais

Onde foram parar os quadrinhos de Gus Morais?

Por Maurício Kanno*

Nos tempos de hoje, em que o digital prevalece cada vez mais, é pertinente pensar em um autor de quadrinhos que se focou desde o início em publicar quadrinhos online. Ainda que tenha também lançado mais de um livro impresso posteriormente, reaproveitando e adaptando suas prévias produções online.

Outro ponto importante pelo qual vale falar de Gus Morais em tempos digitais é que ele acabou selecionado pela Folha de S.Paulo para publicar quadrinhos justamente sobre esse tema do digital, da internet, numa seção chamada “Bytes de Memória”, de 2012 a 2014. Apesar dos anos decorridos, ainda servem muito pra falar de nossa realidade.

Infelizmente, boa parte do material online do autor não está mais disponível; por um vírus que não conseguiu remover, segundo o autor acaba de me contar, seu site pessoal sumiu; e Gus Morais não publica mais quadrinhos, tendo decidido dedicar-se à família e à sua carreira como ilustrador profissional.

Mesmo com esse hiato, seus quadrinhos seguem relevantes. A seguir, alguns exemplos comentados.

Em portfólio ainda disponível, selecionando suas publicações na Folha, podemos ver sua crítica bem-humorada ao Facebook, imaginando um sonho do CEO Mark Zuckerberg em sofrimento, interagindo com logos personificados da rede social.

Outro quadrinho dessa seleção aborda uma crítica que virou clichê, ou seja, o quanto usamos os celulares e acabamos dando pouca atenção às pessoas em volta presencialmente. Porém ainda me pareceu válido o destaque pelo modo singelo como Gus, com seu estilo característico, representou a situação, em que as pessoas com quem se fala online aparecem literalmente ao nosso lado, porém de cor azul, como se fossem talvez fantasmas.

Diretamente no site da Folha, podemos encontrar um quadrinho crítico ao modo como as pessoas se comportam para debates importantes, como para as eleições. A estratégia utilizada foi: enquanto o texto do narrador em amarelo com estilo rebuscado e bonito, como se fosse uma fita comemorativa, louvasse de modo otimista a expectativa de melhores debates, sempre com pontos de exclamação; os desenhos e diálogos ao longo dos quadros mostravam sempre o oposto, apenas grosserias e incapacidade de dialogar efetivamente, sem embasamentos. Comportamento que certamente infelizmente permaneceu nas últimas eleições e deve seguir nessa tendência.

O quadrinho Anatomia da Curtida segue o padrão irônico de Gus, ao menos no início da apresentação do narrador. “Começou bem! (…) Já recebeu 80 curtidas!” Porém, ao longo da narrativa, deixa claro como nenhuma das curtidas teve significado efetivo – problematizando no geral o ato de se curtir algo numa rede social. Neste caso, nenhuma curtida teria indicado de fato uma qualidade da fotografia publicada, já que a personagem era uma aspirante a fotógrafa. Gus retratou ao longo dos quadros o que se passaria no pensamento das pessoas, de acordo com cada perfil delas que categorizou, como familiares, incentivo (“Nem vi! Mas siga seus sonhos!”), preguiça, mal-intencionadas (“Gatinha essa Lina.”), favor e Maria-vai-com-as-outras, além de quem teria gostado é do gatinho retratado, não da imagem em si; ou mesmo um fotógrafo que clicou por engano. A expressão dos personagens-tipo figurantes reforça o texto, assim como a legião de silhuetas com gesto de curtida à volta deles.

Outro quadrinho de Gus vale pelo aspecto imaginativo como representou no desenho a situação banal, mas de fato impactante no cotidiano pras pessoas, de ficarem sem carga de bateria no celular.  O trabalho do artista representa uma garota transportada para um deserto assim que fica sem bateria no aparelho; porém avista um oásis depois, o que representa a tomada.

Saindo um pouco das publicações na Folha, o quadrinho Egocorp demonstra impacto como um soco no estômago, pelo modo fantasioso-metafórico-distópico como o artista explorou relações de trabalho. Nesse mundo, em que as pessoas não têm formas orgânicas, sempre com formas geométricas cúbicas, como em um popular game da última década, todos os empregados literalmente perdem e entregam a cabeça para o chefe. Lá no fundo do escritório, descobrimos que o chefe está montando uma grande pintura-escultura representando seu próprio rosto, utilizando como peças as cabeças de todos os funcionários.

Essa história foi uma das selecionadas para o livro de estreia de Gus Morais, “Privilégios e Outras Histórias”, cuja capa destaca justamente, corajosamente… o próprio pai do autor. Imagino que seja difícil para qualquer pessoa abrir para o mundo assuntos pessoais tão delicados, ainda em tempos de redes sociais. Mas Gus o fez como sempre de maneira criativa, botando na capa do livro seu pai bigodudo comendo pizzas sem parar e tomando Coca-Cola, mergulhado num mundo de corações gigantes (o órgão, não o bonitinho simbólico do amor). Até que faleceria de ataque cardíaco, deixando o artista arrependido de não ter se dedicado mais a viver com o pai enquanto vivo, ou tê-lo talvez persuadido a cuidar melhor da alimentação.

Fica este panorama da obra de Gus, que considero no geral autêntica, singela, irônica e crítica, valendo-se frequentemente da personificação e materialização de ideias abstratas pelo desenho com belas metáforas visuais.

*Jornalista, mestre em Estética e História da Arte pela USP, com pesquisa sobre quadrinhos. Publicou um romance e foi organizador de outros três livros coletivos, sendo o último “Dragões: Além do Bem e do Mal” (2019).

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