Quem a Capitã Marvel representa?

A Marvel no cinema redefinida por Carol Danvers.

 

 

 

 

Por Renato Ferreira Machado* 

O Universo Cinematográfico Marvel tem seu início na última cena de Capitã Marvel. Quando Nick Fury muda o nome de seu projeto de defesa da Terra contra ameaças alienígenas de “Protetores” para “Vingadores” percebemos que a Marvel está colocando esta produção e sua protagonista como referencial para tudo que ocorreu em seus filmes desde a estreia do Homem de Ferro em 2008. E nos damos conta disso frente à foto que se encontra sobre a mesa de Fury: nela se vê a protagonista, trajada com o uniforme de piloto da força aérea, subindo em seu caça. Escrito na fuselagem se lê o nome “Carol ‘Avenger’ Danvers”. A mulher que Nick Fury observa nesta foto mudou sua vida radicalmente e o fez perceber a existência de um universo bem mais amplo, complexo e ameaçador do que qualquer coisa que ele tenha conhecido até então. Toda experiência de Fury como militar e agente de espionagem é redimensionada frente ao que aquela mulher lhe revela. Ele chega ao final da trama consciente de que nada mais será como antes e as consequências de suas atitudes foram acompanhadas por nós ao longo dos dez anos que separam o primeiro filme do Homem de Ferro e aquilo que presenciamos em Guerra Infinita, quando Fury envia um pedido de ajuda à mesma mulher, enquanto é desintegrado pela ação de Thanos.

É interessante pensar nesta trajetória. Em 2008, quando o filme do Homem de Ferro foi lançado, abriram-se as portas de um universo interligado e a expectativa de assistirmos nas telas de cinema algo muito próximo ao que já se acompanhava nos quadrinhos. Neste sentido, o Homem de Ferro é apresentado como o precursor da narrativa que inicia o MCU. E o Homem de Ferro é Tony Stark: milionário, cientista, irônico, sedutor… homem. Quem ele representa? Na sequência são apresentados outros super-heróis da Marvel: o Hulk, que é um cientista amargurado por se transformar em um monstro contra sua vontade. Thor, que é um deus-príncipe rebelde, em eterna disputa com seu irmão, que sofre um castigo de seu pai para aprender a ser humilde. O Capitão América, jovem idealista que aceita sacrificar tudo para defender seu país na guerra. E assim poderíamos enumerar todos os filmes da Marvel, todos protagonizados por homens. Quem eles representam?

Obviamente não estamos invalidando essas produções pelo fato de ter protagonistas masculinos: estes filmes continuam sendo importantes, entre outras coisas por transportarem para as telas, de forma coerente e inteligente, o universo criado por Stan Lee na década de 1960. Mas insistimos: a representatividade tem um grande peso no valor de produções como estas. Desde sempre leitores de HQs de Super-Heróis se espelham em seus personagens preferidos em diferentes escalas, seja através de Cosplaying, seja como inspiração moral. E na medida em que personagens muitas vezes conhecidos apenas por determinados grupos de pessoas se tornam altamente populares através de Blockbusters como os da Marvel Studios, o jogo de representação se amplia. Então, voltamos à nossa questão: quem os protagonistas masculinos da Marvel representam, do outro lado da quarta parede?

Na descrição que fizemos acima, propositalmente não abordamos super-poderes, histórias de origem ou coisas parecidas, mas buscamos caracterizar cada personagem com aquilo que, em sua constituição, possui como característica da masculinidade construída na cultura ocidental. São muitas facetas do masculino e isso, em si, não é problema. O problema começa quando aceitamos estas características como “universais” ou até “naturais”, ou seja, como representação de algo que serviria para homens e mulheres. Capitã Marvel joga esse paradigma por terra.

A protagonista é apresentada no início da história como alguém que pensa ser o que lhe fizeram acreditar que era: Vers, soldado Kree engajada na eterna batalha contra os Skrulls. Algo, porém, lhe abala, lhe tira as certezas: imagens, vozes, fantasmas de um passado que parece ser dela, mas não poderia ser. A não ser que ela não fosse quem ela acreditava. Que ela não fosse quem lhe disseram que era. Duas imagens povoam suas lembranças: o avanço ameaçador de um Skrull sobre ela e sobre alguém por quem ela sentia nutrir um forte afeto e uma sequência de quedas e reerguimentos de uma menina, em várias fases da vida, em várias situações diferentes. Invariavelmente, sempre há um menino ou homem junto a esta menina para recriminá-la, culpando-a por suas próprias feridas e insistindo que ela estava em um lugar impróprio para ela. Invariavelmente, ela se reergue, sem ajuda, pronta para fazer tudo de novo. Ao chegar à Terra e começar suas tentativas de contato com os Krees, ao mesmo tempo em que passa a perseguir os Skrulls que acabaram vindo com ela, Vers vai esbarrar com Nick Fury, um experiente agente da SHIELD que pensava já ter visto de tudo na vida.

A aliança que vai se formando entre os dois vai ampliar a visão de Fury a respeito do universo onde vive e aprofundar a visão de Vers sobre seu universo interior. E na medida em que a trama se desenrola, aumenta a suspeita de Vers sobre aquilo que pensava saber sobre ela mesma. Peça por peça, monta-se um quebra-cabeças onde aliados revelam ser inimigos e inimigos, ao terem oportunidade de explicar as razões de seus atos, tornam-se novos aliados. E há um momento, para o qual todos convergem e que se torna uma das sequências mais emocionantes de todo o filme. Quando Vers e Fury, procurando pistas sobre um evento ocorrido na Terra que seria a chave para compreender a movimentação Kree-Skrull nas proximidades de nosso planeta, chegam à casa da piloto Maria Rambeau e de sua filha Monica. Neste lugar, Vers é reconhecida como Carol Danvers, a colega e amiga que havia desaparecido há muitos anos. É a pequena Monica Rambeau, a Tenente Encrenca, que vai devolver esta identidade para Carol: ao mostrar fotos dela e de sua mãe em diversas situações, ao longo de diferentes épocas, a menina vai apresentando Carol a ela mesma. Ela fala sobre aquilo que ela gostava e sobre o que não gostava, sobre a constante presença dela naquela casa, sobre seu prato preferido, sobre seus sonhos. Sonhos interrompidos e, até aquele momento, perdidos. E aqui precisamos perguntar novamente: quem Carol Danvers representa?

Ousamos pensar que ela não apenas representa as mulheres de nosso tempo, mas que talvez, principalmente represente as mulheres que tiveram seus sonhos e projetos de vida interrompidos e subtraídos pela violência. As mulheres que em diversas culturas ainda tem suas vidas determinadas pelos homens. As mulheres que precisam se impor duplamente em ambientes que tacitamente se tornam exclusivamente masculinos, mesmo que não exista nenhuma regra determinando isso. As mulheres que encontram na sororidade um espaço seguro para serem como elas quiserem e prosseguirem com seus sonhos, apesar de toda as barreiras impostas ao seu gênero. Carol Danvers, em nossa opinião, representa principalmente toda as mulheres vítimas de feminicídio. Aquelas que vivem na lembrança e no afeto de suas amigas e familiares, mas que nunca mais retornarão. Capitã Marvel é sobre tudo isso. E por isso é tão importante!

Capitã Marvel, assim como todos os filmes de super-heróis, é uma representação transcendente de características e aspirações de seu público. A representatividade feminina sobre a qual o filme se articula, porém, vai muito além de revelar o ponto de vista das mulheres sobre a história: ele revela também a realidade misógina, preconceituosa e violenta com a qual mulheres precisam lidar, desde o nascimento até a morte. Por isso, se o primeiro protagonista do MCU foi um homem usando uma armadura, sabemos agora que ele apenas foi integrado a um projeto que lhe deu um sentido maior para a vida por causa de uma mulher que, tomando a própria história e memória nas mãos, revelou a existência de um universo de milagres, de maravilhas… O Universo Marvel.

Renato Ferreira Machado é Doutor em Teologia e dedica-se à análise do campo simbólico religioso presentes nas seguintes produções artístico-culturais: histórias em quadrinhos de super-heróis, seriados de aventura, fantasia, terror e assemelhados e produções cinematográficas dos mesmos gêneros e cenas musicais underground, como o Punk e Pós-Punk Britânico, Punk e New Wave de Nova Yorque e música de protesto latino-americana. 

 

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