Explicando ma através do mangá

Nana de Ai Yazawa

O poder de uma palavra num mangá!

O ma é um fenômeno da cultura nipônica que vem despertando a curiosidade do povo ocidental. Entendido como um estado de percepção e possibilidade, o ma se apresenta de várias formas, no modo, na fala, no agir e se manifesta nas narrativas dos mangás como o silêncio, o vazio, o não dito, aquilo que é omitido.

Na linguagem dos mangás, encontramos a ideia do ma, pois “é uma ideia ‘não conceitual'”, algo que os japoneses sabem o que é, mas não conseguem explicar, embora sempre esteja presente no cotidiano nipônico. Em alguns mangás podemos perceber o ma claramente e em outros de maneira sutil, como o silêncio, uma suave pausa na fala dos japoneses. Nos shôjo mangá notamos o ma mais evidentemente como a assimetria,  ou as linhas suaves e a supressão de algumas delas, nos momentos em que se destacam as cores suaves, em tons pastel ou então nos espaços vazios entre a figura e o plano de fundo.

full moon wo sagashite

Full Moon wo Sagashite de Arina Tanemura

Historicamente, o ocidente conheceu o ma através de uma exposição em Paris, em 1978, “Ma, Espace-Temps du Japon”, organizada pelo arquiteto Isozaki Arata. Essa exposição era composta por todas as áreas das artes, deste as visuais e artesanais até as do corpo, apresentadas de forma que o público circulasse de uma obra a outra e explorasse através do corpo um “espaço-tempo” incitando os sentidos.  Dessa forma, o interesse pelo ma começou a se desenvolver através de pesquisas por parte dos ocidentais, mas para os japoneses, talvez, tenha sido uma redescoberta de algo que até então não se apresentara de maneira visível, de forma sensitiva e perceptiva.

Segundo diz Richard B. Pilgrim, nas artes, como na literatura, teatro, design, arquitetura etc.,  o ma pode afirmar o “[…] poder, o interesse, a profundidade ou profundidade que brilha através dos vãos, rachaduras e intervalos no espaço e no tempo” (PILGRIM, 1986, p. 261). Esses intervalos são os chamados “espaços criativos/substanciais negativos, espaços imaginativos ou espaços emocionais do que espaços positivos, sequencias narrativas, ou formas de ajudar a criar arte, mas que se dissolvem” (PILGRIM, 1986, p. 261).

Observou-se nos mangás que essas características podem aparecer em sequência, uma após outra, ou apenas um quadro, sem imagem ou texto, remetendo a ideia de tempo e espaço da narrativa de um quadro ao outro. Fusanosuke Natsume, pesquisador de mangá, pontua que quando utilizados esses quadros, eles podem dar a ideia de câmera lenta à cena e também transmitir o sentimento do personagem. É uma característica cuja compreensão é subentendida, mas carrega um significado profundo.

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Wolf Girl and Black Prince de Ayuko Hatta

Pode-se encontrar também uma similaridade entre os quadros brancos com as sarjetas ou hiatos, ou ma em japonês, pois eles são espaços entre os quadros responsáveis em proporcionar ao leitor “magia e mistério”, o respiro, a pausa do leitor na narrativa. São fenômenos que se ocultam nos quadros brancos e que, para um olhar desatento, parecem nada dizer dentro da narrativa, mas têm tanta relevância quanto os diálogos. Scott McCloud, pesquisador de quadrinhos, aponta algumas diferenças entre o ocidente e o oriente, acrescentando o mérito que os japoneses dão aos espaços ditos como vazios no ocidente.

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Marmalade Boy de Wataru Yoshizumi

Em comparação, poderia-se dizer que “a arte e a literatura do ocidente não divagam muito, com uma estética bastante orientada pela objetividade. Já o oriente, tem uma tradição de obras de arte cíclicas e labirínticas. Os quadrinhos japoneses parecem herdar essa tradição, enfatizando mais o estar lá do que o chegar lá. […] lá, mais do que em qualquer outro lugar, quadrinho é arte… de intervalos. A ideia de que os elementos omitidos de uma obra são tão partes dela quanto os incluídos […].” (McCLOUD, 1995, p. 81-82) e os japoneses fazem isso muito bem!

Se quiser saber mais, vale visitar alguns links e uma obra:

Ma: entre-espaço da comunicação no Japão um estudo acerca dos diálogos entre Oriente e Ocidente, de Michiko Okano.

Desvendando os Quadrinhos, de Scott McCloud.

Manga wa Naze Omoshiroi no ka: sono hyôgen to bunpô. (Por que mangá é tão interessante: suas expressões e gramática.), de Fusanosuke Natsume, acesso na Casa de Cultura Japonesa, USP (Cidade Universitária), editado pela NHK raiburari, em 1997.

Sobre Mochi

Atingiu o estado de Olhos Grandes nas ilhas do Oriente Silencioso.
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6 respostas para Explicando ma através do mangá

  1. Me pareceu bem intrigante esse conceito de ma. Não tenho certeza se entendi bem. Seria ele um momento de “suspensão da noção de tempo”, por assim dizer? Ou talvez – pelo menos no caso do mangá – seria pra realçar um sentimento de inefabilidade que um personagem sente em determinado momento?

    • Mochi disse:

      Rsrs….ele é complexo mesmo. Sim ele também pode ser a suspensão do tempo, tanto no mangá quanto em outros momentos artísticos como a pausa de uma dança ou as cenas intercaladas num filme. A pesquisadora Michiko Okano, em sua tese de doutorado, analisa tanto a arquitetura japonesa quanto dois diretores de cinema, Ozu e Takeshi Kitano, e o ma. Acredito que valha a pena ler! 😉🌸

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