Quadrinhos, que língua é essa?

Conheça um pouco mais sobre a contribuição de Scott McCloud e Neil Cohn para pensar quadrinhos.

Scott McCloud, no livro Desvendando os Quadrinhos, tenta definir o que é uma história em quadrinhos. Ele parte do termo Arte Sequencial e vai expandindo essa explicação para dar conta da especificidade dessa linguagem. No fim a definição fica enorme: imagens pictóricas e outras, justapostas em sequência deliberada destinada a transmitir informações e/ou produzir uma resposta no espectador. Mas ainda assim parece que isso ainda não diz tudo o que pode a nona arte.

Ainda na tentativa de encontrar definições, McCloud nos apresenta uma pirâmide, onde ele encaixa diferentes estilos de traço. Na base da pirâmide, da esquerda para a direita, ele coloca imagens hiper-realistas (fotográficas) que vão se simplificando e se estilizando até chegar a uma representação gráfica mínima que comunica o essencial (como o rosto de um emoji). No topo da pirâmide estão as formas geométricas básicas (círculo, quadrado e triângulo) que representam as imagens abstratas, e dentro dessa estrutura ele posiciona diversos artistas de acordo com as características de seus traços mais realistas, mais abstratos ou mais caricatos.

No final da base da pirâmide, no canto direito existe uma linha divisória que mostra uma separação. Da forma mais essencial ele passa para a palavra que nomeia aquele objeto, do rosto do emoji para a palavra ROSTO, que em sua forma escrita é também um desenho no papel. Mas existe uma diferença essencial as duas pontas desse salto. De um lado temos um elemento gráfico simplificado que imita/representa algo que reconhecemos com a visão, e de outro uma soma de elementos gráficos (letras) que representam o som da palavra que convencionamos para designar algo que reconhecemos pela visão. Então o que todas essas diferenças e separações significam quando lemos um comics?

Outro pesquisador, Neil Cohn, que também é cientista e autor de quadrinhos, em sua monografia intitulada Comics, Linguistics, and Visual Language: The past and future of a field, cita alguns autores que percebem essa mídia como uma língua distinta de todas as outras. Em uma entrevista para Ben Schwartz (The Jack Kirby Collector), o monstro dos comics, Jack Kirby, diz que escrevia as histórias com imagens.

No livro Manga! Manga! The World of Japanese Comics, de Frederik L. Schodt, o grande Osamu Tezuka declara que considera que o que ele faz não é desenhar, e sim escrever uma história usando um tipo muito específico de símbolo. Chris Ware, autor de Jimmy Corrigan, afirmou na revista número 13 da editora McSweeny’s, que os quadrinhos não são um gênero, mas uma linguagem em desenvolvimento. O criador do Recruta Zero, Mort Walker, criou em 1980 o The Lexicon of Comicana, para nomear e organizar símbolos gráficos usados por cartunistas do mundo todo, numa tentativa de estabelecer um dicionário para a língua específica da arte sequencial.

Cohn compara um conto escrito em inglês à uma história em quadrinhos para mostrar que as imagens sequenciais funcionam como uma língua, que apesar de ter aspectos regionais como objetos e comportamentos característicos de uma determinada cultura e desconhecidos de outras, é essencialmente universal. Essa universalidade resulta de uma linguagem que tem como base as formas apreendidas pela nossa visão, em oposição a linguagens que derivam de nossa comunicação oral (como a linguagem de sinais e a língua escrita).

Com a globalização, a internet, o cinema e as séries, pessoas de todo o mundo compartilham as mesmas referências. Apesar das diferenças de ritmo narrativo entre o mangá e os quadrinhos de super heróis norte americanos, por exemplo, a maior parte das imagens que os desenhistas usam hoje para contar uma história é reconhecível pela grande maioria das pessoas que consomem esse tipo de mídia.

Para Cohn, a partir de estudos de neurociência que investigam a forma como o cérebro compreende narrativas visuais, do exercício de extrair uma estrutura linguística a partir repertório gráfico usado para desenhar/contar histórias, e das diferenças que aparecem em narrativas criadas em diferentes contextos culturais, é possível investigar a linguagem dos quadrinhos sob um ponto de vista mais rico e complexo. A tentativa de Scott McCloud de definir o que é uma história em quadrinhos deixa claro que é impossível fazê-lo de forma concisa. O enunciado de McCloud determina coisas específicas como imagens justapostas e sequência deliberada, dividindo em partes coisas que são assimiladas pelo leitor como uma coisa  só. Cohn abre as portas para um estudo da linguagem mais aberto, deixando claro que histórias em quadrinhos são um idioma diferente de todas as línguas existentes, capaz de versatilidade e profundidade únicas.

 

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Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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