O 1963 sem fim de Alan Moore

3cAs ideias geniais e a rabugisse do mago inglês em uma paródia não concluída.

Em 1993 Alan Moore estava voltando ao mainstream com trabalhos para a IMAGE Comics depois de romper com a DC por divergências relacionadas ao controle criativo de seus trabalhos mais autorais como Watchmen. Ele foi atraído pela possibilidade de trazer leitores para uma editora que prometia ser um contraponto à Marvel e DC e que dava a seus autores os direitos sobre suas criações. Neste cenário mais amigável o primeiro trabalho do inglês foi uma série para o selo de Rob Liefeld (Awesome Comics), que parodiava os quadrinhos de Stan Lee e Jack Kirby no nascimento da Marvel. O projeto ficou conhecido como 1963 e ficou sem uma conclusão. O mago inglês usou seu direito sobre a obra para impedir a republicação e o uso dos personagens em outras histórias, mas isso não tira a genialidade do projeto.

Foram 6 edições que contaram com a arte de grandes nomes como Steve Bissette e Rick Veitch (ambos de Monstro do Pântano), Dave Gibbons (Watchmen) e Jim Valentino (Guardiões da Galáxia), além de um projeto de separação de cores bastante icônico, feito pelo veterano Murphy Anderson. Cada edição fazia referência a um título da Marvel como Quarteto Fantástico (Mystery Incorporated), Homem-Aranha (No One Escapes … The Fury), Capitão América e Homem de Ferro (Tales of the Uncanny), Hulk e Doutor Estranho (Tales from Beyond), Thor (Horus, Lord of Light) e Vingadores (The Tomorrow Syndicate). E ainda contavam com seções de cartas imitando o estilo dos Bullpen Buletins de Stan Lee, com alguns fãs como um jovem Neil Gaiman assinando a correspondência.

Na primeira edição – Mystery Incorporated – a família de heróis enfrenta um invasor misterioso que sequestra o Kid Dynamo (paródia do Tocha Humana). O Crystal Man, a Neon Queen e o The Planet (Senhor Fantástico, Mulher Invisível e o Coisa), o seguem e desaparecem no final da história. A arte de Rick Veitch imita o estilo de Kirby nos mínimos detalhes, da divisão de quadros ao ritmo da narrativa.

A segunda – No One Escapes … The Fury – mostra um herói acrobata fantasiado combatendo um criminoso futurista e um dinossauro. A arte de Bissette imita o traço de Kirby especialmente nas onomatopeias e na possibilidade de desenhar um monstro impressionante.

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A terceira edição –Tales of the Uncanny – trás duas histórias. O Ultimate Special Agent (U.S.A.) salvando o presidente dos Estados Unidos de um atentado (exatamente como o que matou Kennedy), e o Hypernaut (Homem de Ferro), que enfrenta um inimigo da 4ª Dimensão (que só pode ser percebido na nossa realidade como “fatias” tridimensionais e que vê os heróis da mesma forma que nós vemos as páginas de uma história em quadrinhos).

Na quarta – Tales from Beyond – mais duas histórias. N-Man (um Hulk/Frankenstein) enfrenta um cientista russo, e Johnny Beyond (um Doutor Estranho beatnik) viaja no tempo e encontra seu “eu” de 1992.

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Na quinta edição – Horus, Lord of Light – Moore substitui o deus do trovão da Marvel pelo deus egípcio. Na sexta, os heróis se unem e formam o – The Tomorrow Syndicate – para procurar a família desaparecida na primeira edição. No final o sequestrador misterioso se revela e estabelece um gancho com o universo de Liefeld. A última página promete o encontro entre o Tomorrow Syndicate e o Youngblood, o W.I.L.D.C.A.T.S., Savage Dragon, Supremo, Spawn, e outros. O plano era fazer uma edição anual com essa história, mas o barbudo interrompeu o projeto.

As justificativas para o fim abrupto são vagas. Moore afirma que todos estavam ocupados com outros projetos e que queria outro desenhista para o desfecho. Bissette diz que gostaria de retomar a história, com muitas ideias, mas que Morre não quer voltar e que, pelos termos do contrato, se todos os co-autores não autorizarem, nada pode ser feito. Moore e Bissette não se falam mais e trocam farpas em entrevistas. Depois de 1963, Moore escreveu o Supremo para a Awesome Comics, fez um arco para os W.I.L.D.C.A.T.S. e finalmente criou o selo ABC para a Wildstorm.

1963 é uma das primeiras imitações do estilo Lee/Kirby feitas pela própria industria. A paródia foi tão elaborada que imitou elementos típicos dos quadrinhos dos anos 1960 como a separação de cores usando telas de retícula, com o encaixe das camadas de cores um pouco fora de registro no papel amarelado. O tom debochado de Stan Lee que na seção de cartas faz comentários machistas sobre o papel secundário da Neon Queen no Mystery Incorporated, e os maneirismos como apresentar a equipe com comentários como: escrito pelo afável Alan Moore, o lápis lendário do retumbante Rick Veitch. A sensação é de ler um quadrinho do nascimento da Marvel de um universo paralelo. Moore e seus colaboradores capturam perfeitamente o espírito da editora e da época em seu mínimos detalhes.

Um comentário típico de Alan Morre sobre o criador da Marvel é que ele nunca fez nada por ninguém além de si mesmo. E quanto mais sabemos sobre a história da Marvel, mais esse comentário soa correto. Mas e o próprio Moore? Será que ele incorporou tanto Stan Lee em 1963 que passou a agir como uma caricatura dele? Ou no fundo o inglês é tão autocentrado quanto todos os autores que ele critica? Quanto mais conhecemos os bastidores da produção de quadrinhos mainstream, mais fica claro que os egos inflados estão por toda parte.

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Quando o talento se junta com o ego o desfecho em geral não é dos mais felizes, pelo menos não para o público. A boa notícia é que, devido ao acordo contratual entre os parceiros, Steve Bissette tem direitos sobre alguns dos personagens da linha 1963 e está planejando em algum ponto retomar as histórias. A nós, reles mortais, resta apenas acompanhar, curtir, lamentar, torcer, etc.

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Sobre Picareta Psíquico

Uma ideia na cabeça e uma história em quadrinhos na mão.
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3 respostas para O 1963 sem fim de Alan Moore

  1. Antonio Stotz disse:

    caraca não sabia dessa briga entre o Moore o Bissette. Qual o motivo?

    • Oi Antonio. O Bissette deu uma entrevista pro Comics Journal falando da carreira dele de modo geral, dos problemas de contrato, do não reconhecimento do desenhista, etc. Ele mandou a entrevista para todas as pessoas que ele citou (antes que a entrevista fosse publicada), para saber se alguém estava desconfortável com alguma declaração dele, etc. O Alan Moore não respondeu nada. Depois disso o Neil Gaiman disse pro Bissette que o Moore estava puto com ele. O Bissette ligou pro Moore e o barbudo disse que a relação deles estava encerrada. Na cabeça do Moore o contrato para fazer o 1963 foi vantajoso para todos os participantes (que ele – Alan Moore – convidou pessoalmente). O próprio Bissette reconhece que o dinheiro que ele recebeu pelo projeto foi o que o ajudou a ter uma independencia da industria dos quadrinhos. Então para o Moore não havia o que reclamar ou lamentar a respeito. Depois disso o Bissette escreveu e desenhou uma continuação para o 1963 (também pela possibilidade de mais grana, obviamente), mas o Moore e o Rick Veitch barraram a publicação desse material. Então o afastamento dos dois piorou.
      E essa foi mais uma fofoca de bastidor do Maravilhoso Mundo dos Quadrinhos! (hahaha!!!)

      • Antonio Stotz disse:

        Pode crer. Daqui a pouco tá parecendo “Barrados na Loja de Quadrinhos”, Enfim, o Moore briga com todo mundo! Mas é gênio, então deixa o cara lá em Northampton…

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