Robert Crumb e o MPL: porque fazer notícia é como fazer salsichas

Santa ignorância Batman!

Santa ignorância, Batman!

São incontáveis as vezes que jornalistas cometeram gafes sobre quadrinhos. A imprensa naturalmente tende a não se preocupar em entender o contexto de produção ou mesmo quem está produzindo o conteúdo. O interessante é bombardear e alardear. Se puder gerar polêmica, vale mais! E a bola da vez foi Robert Crumb.

A reflexão que faço surgiu a partir de uma notícia que chamou bastante atenção na semana passada. Circulou em alguns veículos que o Movimento Passe Livre (MPL) teria pedido para Robert Crumb para usar uma imagem que ele fez originalmente para uma série de protestos contra a guerra do Vietnã. A Folha publicou, o R7 publicou, a Abril publicou e até a BrasilPost publicou.

Este é o gif bonito. Procure vídeos de como as salsichas são feitas...

Este é o gif bonito. Procure vídeos de como as salsichas são feitas…

O que foi relatado nas notícias é que o MPL teria visto uma imagem que o responsável pela obra do Crumb no Brasil, Rogério Campos, compartilhou e teriam pedido ao editor a autorização para o uso. Isso foi o que foi veiculado, e ainda sem a consulta completa ao pessoal do MPL. Mas não foi bem isso o que aconteceu.

Imagem que teria motivado toda a movimentação

Imagem que teria motivado toda a movimentação

Logo neste primeiro ponto, já haveria um erro. No medo de escrever sem fundamentação, encontrei o e-mail de Rogério Campos, que fica disponível no site da editora Veneta, e entrei em contato. Ele logo me respondeu explicando que ele já conhecia dois membros do MPL e, em conversa com eles, após a postagem da imagem de Crumb, chegaram à conclusão de que seria uma imagem interessante para o movimento. Assim, Rogério entra em contato com Crumb e explica o contexto do MPL.

Desenho "extra" que foi cedido

Desenho “extra” que foi cedido ao MPL

Fiz o mesmo com o pessoal do Arte contra a Tarifa, que ajuda com a produção e preparação de material artístico para os atos do MPL, que me informaram que de fato, foi uma atitude muito mais do editor, que em conversa com alguns membros do movimento, entendeu ser legal fazer essa ponte com  Crumb, que resultou na cessão dos dois desenhos.

O que quero trazer com isso? Afinal o Quadrinheiros não é um blog sobre quadrinhos? Então por que eu estou falando de jornalismo? Simples, meu dileto leitor imaginário! O que muitas vezes faz com que tenhamos confusões no mundo dos quadrinhos, é a falta de repertório e de coragem em tratar a questão de uma maneira decente. Quadrinhos, charges e tiras não são um formato pronto em si, mas sim uma linguagem própria que demanda de um crítico, comentarista ou mesmo fã, uma série de informações mais complexas do que muitas vezes se faz.

A despreocupação com a fonte, com o contexto ou mesmo o fato de tratar como subproduto, é algo terrível. Veja que diversas vezes nas matérias citadas só apontaram Crumb como um cara interessado no ativismo social, nem sendo citada, por exemplo, sua participação ativa no movimento Beat, de contracultura ou ainda de que foi parceiro de produção de Charles Bukowski – aspectos relevantes para entender sua obra bem como a cessão das imagens ao MPL. As matérias o trataram como se ele fosse meramente escatológico ou um cara afastado da realidade, o que não é correto.

Retrato do Bukowski feito pelo Crumb

Retrato do Bukowski feito por Crumb

Um autor e ativista da década de 70 que tem um peso como o Crumb resolve se envolver com o pessoal que luta pelo passe livre no Brasil. Isso sim seria relevante, porém nas matérias citadas o que aparece é só a sexualização e a escatologia, fora um pretenso medo pela violência retratada nas imagens.

O poeta John Godfrey Saxe cunhou uma frase bem interessante: “Leis, como salsichas, deixam de merecer respeito na mesma proporção que aprendemos como eles são feitos”. Infelizmente parece que é assim que o jornalismo sobre quadrinhos é feito pelos grandes veículos de comunicação no Brasil.

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