Mangás: o grito moderno de uma antiga tradição

de5wz7Furando o esquema tático Clube do Bolinha, apresentamos enfim uma Red Shirts mulher do sexo feminino de cromossomo XX!

E como se não bastasse, pra falar de algo do qual também não manjamos nada (exceto o Quotista): mangá!

 

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Por Karen Moriya*

Samurais. Gueixas. Monte Fuji. Apenas alguns símbolos fixados na mente dos ocidentais que remetem automaticamente ao Japão. Mas essas são imagens tão reducionistas como aquelas projetadas ao Brasil – Amazônia, carnaval, samba e as belas mulheres, claro! O país do sol nascente é muito mais que os tradicionais lugares comuns dos cartões postais.

Assim como o carnaval não explica o Brasil, o samurai não resume o Japão. MAS, tanto um como o outro abrem as portas para entender uma realidade maior, mais profunda. E no caso do Japão, poucas coisas são tão repletas de significados quanto o mangá.

Só a ponta do iceberg

Isso é só a ponta do iceberg

Vamos partir do que é considerado por alguns especialistas no assunto, como Sonia Bibe, o que seriam as primeiras sementes destes quadrinhos: os pergaminhos do artista e sacerdote Toba Sōjō (século XI-XII), chamados Chojugiga. Ele gostava de desenhar, com tom bastante satírico, sacerdotes em forma de animais e concursos de flatulências (o coloquial “peido”; nem eu consigo imaginar como funciona a coisa, mas é isso mesmo) além de outras pinto… digo, pontualmente gráficas. Note-se que já rolava um tom de escracho envolvendo os mangás.

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Clássica gravura de Toba

 

Da direita para a esquerda o leitor acompanhava a movimentação do cenário, enquanto os pergaminhos eram abertos – é esse o jeitão característico de ler os mangás até os dias de hoje. Mas também eram criados pergaminhos com outras temáticas, envolvendo batalhas, demônios e todo tipo de seres espectrais, algo que se tornou bastante popular à época.

Chojugiga

Chojugiga

 

Mas foi somente no século XIX que o termo manga foi criado por Katsushika Hokusai, um artista xilogravurista (gravuras em forma de painéis) que ficaria bastante famoso por sua obra As 36 vistas do Monte Fuji (aquela na qual aparece o vulcão atrás de vários cenários, como ondas ou campinas)

Como essa

Como essa

Entre 1814 e 1849, o artista criou uma série de obras que ficaram conhecidas como Hokusai Manga, que abordava os diversos aspectos relacionados ao processo de modernização e abertura pela qual o Japão começava a passar.

As gravuras de Hokusai em madeira, as ukiyo-ê, transpareciam temas próprios de sua época, como a vida urbana, as classes sociais e pessoas comuns, tudo retratado de forma caricatural. Outros artistas deste gênero se entregavam a retratar a arte erótica, chamada Shunga, que mistura sexo com humor. Porém, quando o cristianismo voltou a exercer sua influência no século XX dentro do Japão, sua circulação foi proibida.

Outra referência que compõe a origem dos mangás, são os kibyoshi, ou “livros de capa amarela”, que se tornaram muito populares, produzidos em larga escala, tipo de história, com imagens e diálogos, que ironizavam as autoridades.

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Hokusai Manga

Importante entender que diferente da produção de quadrinhos ocidentais, nos japoneses, eram esculpidas as palavras (pouco utilizadas) no mesmo bloco de madeira da ilustração, o que facilitava a produção, já que o texto era incorporado às imagens e impressos juntos.

Mas quando Hokusai criou o termo manga, o que ele quis dizer exatamente? Conforme explica Paul Gravett, em Mangá: como o Japão reinventou os quadrinhos:

“Significava rascunhos mais livres, inconscientes, nos quais ele podia brincar com o exagero, a essência da caricatura. Hokusai nunca incluiu a narrativa em seus rascunhos mas, se estivesse vivo hoje, poderia reconhecer no mangá moderno um pouco do gosto pelas expressões grotescas, pela comédia física e pelo desenho sem inibições.” p. 25.

Claro, é imprescindível reconhecer a importância da influência dos quadrinhos e tiras europeus e norte americanos nos quadrinhos japoneses. Revistas como Punch, L´Assiette au Beurre, Le Rire e Puck, que chegavam ao Japão no final do século XIX, rapidamente se tornaram populares naquele país.

Certamente, os primeiros quadrinistas japoneses do mangá moderno, como Rakuten Kitazawa (1876-1955) e Ryuichi Yokoyama (1909-2001), ficaram impressionados com o conteúdo textual e visual desse material, impulsionando o início da produção do mangá em formato de revistas, com produção em massa.

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Um autêntico Rakuten Kitazawa

Aqueles foram os primeiros passos para os mangás de larga escala e grande circulação. Mas essa história fica para a próxima!

*Mestre e Doutoranda em História pela PUC-SP com pesquisa sobre sensibilidades, embates e rupturas nas histórias em quadrinhos japonesas voltadas para o público adolescente feminino na década de 1970.

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2 respostas para Mangás: o grito moderno de uma antiga tradição

  1. Muito legal o tema do seu doutorado 🙂

    Gostei do texto também, ele está associado ao seu Doutorado?

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