Os heróis Marvel contra o bullying: o que nós temos a ver com isso?

No mês de outubro a Marvel lançou mão de uma estratégia curiosa. Uma série de capas variantes, uma campanha contra o bullying, que você verá ao longo do texto. Mas mais importante que essas capas é o problema.

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Há algumas pessoas que tiveram o privilégio de estudar em verdadeiros paraísos idílicos onde o companheirismo e a solidariedade reinavam entre alunos. Não foi o meu caso e, aposto, também não foi o seu.

Muito antes de ler Hobbes eu comprovei a existência do estado de natureza: a guerra de todos contra todos, a zoeira sem limites, ou, para usar um termo da moda, o bullying generalizado.

Peter Parker sofrendo o bullying de Flash Thompson no colegial

Peter Parker sofrendo o bullying de Flash Thompson no colegial

O problema tomou outras dimensões com a tragédia ocorrida na escola de Columbine, onde dois jovens vítimas de bullying assassinaram 12 alunos e uma professora. Aqui no Brasil também tivemos um episódio parecido no incidente que ficou conhecido como “Massacre do Realengo”, onde um jovem que sofreu bullying invadiu uma escola deixando mortos e feridos.

Isso é tão grave e ao mesmo tempo tão evidente nos Estados Unidos que uma história escrita por Warren Ellis para o selo Vertigo, chamada Shoot! (Atire!), em que John Constantine investiga um caso de assassinato em uma escola, foi censurada pela DC por ter similaridades absurdas com o caso de Columbine. O mais bizarro é que a história foi escrita antes do ocorrido e estava marcada para ser publicada pouco depois. Ela foi publicada pela Panini aqui no Brasil em uma coletânea – muito boa por sinal.

Procure nas bancas da vida. Vale a pena.

Procure nas bancas da vida. Vale a pena.

Há quem defenda que para ser um nerd “de verdade” a pessoa tem que ter sofrido bullyng. Acredite, eu já li e ouvi quem defenda essa opinião absurda, talvez como uma reação xenófoba à proliferação de bazingueiros, termo cunhado em oposição àqueles que seriam os true nerds. Mas eu não sou sádico para defender esse absurdo. Afinal, se gostar de super-heróis, quadrinhos, Star Wars, Star Trek e afins não é mais motivo para ser zoado, tanto melhor.

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Mas afinal, o que é o bullyng? Uma definição é que o bullying compreende todas as atitudes agressivas, intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudante contra outro(s), causando dor e angústia, sendo executadas dentro de uma relação desigual de poder. Essa “relação desigual de poder” pode ser conseqüente da diferença de idade, tamanho, desenvolvimento físico ou emocional, ou do maior apoio dos demais estudantes.

Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência.

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O que não torna o problema menos urgente no Brasil. Aqui com um agravante. O raciocínio de que a vítima é culpada pelo que ocorre não acontece só na colocação machista e estúpida que culpa a mulher pelo estupro. Isso acontece também com as vítimas de bullying que, diria-se, não revidam e, se não revidam, então merecem a zoeira.

Em geral [a vítima de bullying] não dispõe de recursos, status ou habilidade para reagir ou cessar o bullying. Geralmente, é pouco sociável, inseguro e desesperançado quanto à possibilidade de adequação ao grupo. Sua baixa auto-estima é agravada por críticas dos adultos sobre a sua vida ou comportamento, dificultando a possibilidade de ajuda. Tem poucos amigos, é passivo, retraído, infeliz e sofre com a vergonha, medo, depressão e ansiedade. Sua auto-estima pode estar tão comprometida que acredita ser merecedor dos maus-tratos sofridos.

Novamente, qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência.

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Mas aqui provavelmente haverá um espírito de porco (pobre animal que não merecia sofrer essa referência, mesma injustiça sofrida pela deliciosa coxinha, que virou a alcunha light de fascista) que dirá que na sua época isso era normal e provavelmente que era até saudável, uma brincadeira inocente. Provavelmente essa criatura não era vítima, mas autor.

O autor de bullying é tipicamente popular; tende a envolver-se em uma variedade de comportamentos anti-sociais; pode mostrar-se agressivo inclusive com os adultos; é impulsivo; vê sua agressividade como qualidade; tem opiniões positivas sobre si mesmo; é geralmente mais forte que seu alvo; sente prazer e satisfação em dominar, controlar e causar danos e sofrimentos a outros. Além disso, pode existir um “componente benefício” em sua conduta, como ganhos sociais e materiais. São menos satisfeitos com a escola e a família, mais propensos ao absenteísmo e à evasão escolar e têm uma tendência maior para apresentarem comportamentos de risco (consumir tabaco, álcool ou outras drogas, portar armas, brigar, etc). 

Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência.

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Mas o que seria do praticante do bullying sem a turma que, embora muitas vezes não concorde com o que ocorre não obstante colabora e também zoa para não ser zoada.

[O praticante do bullying] pode manter um pequeno grupo em torno de si, que atua como auxiliar em suas agressões ou é indicado para agredir o alvo. Dessa forma, o autor dilui a responsabilidade por todos ou a transfere para os seus liderados. Esses alunos, identificados como assistentes ou seguidores, raramente tomam a iniciativa da agressão, são inseguros ou ansiosos e se subordinam à liderança do autor para se proteger ou pelo prazer de pertencer ao grupo dominante.

O problema está longe de ser resolvido e a iniciativa da Marvel em lançar capas contra a prática do bullying é mais que louvável, ainda mais agora que passamos por um momento de popularização de seus heróis e da cultura nerd em geral.

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Afinal se alguém deixar de sofrer bullying ou parar de fazer isso com os outros por ver que seus heróis favoritos desaprovam tal comportamento a iniciativa da Marvel já terá se mostrado válida.

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E o que você tem a ver com isso? Ajudaria muito se você simplesmente não fizesse isso com ninguém, por mais inocente que lhe pareça a brincadeira. Mas você também pode ser mais que isso, pode ser um verdadeiro herói e não deixar que essas coisas aconteçam. E parece que precisamos cada vez mais de heróis.

Nota: os trechos em itálico foram retirados desse excelente artigo científico sobre a prática do bullying.

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Sobre Nerdbully

Mestre do Zen Nerdismo.
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4 respostas para Os heróis Marvel contra o bullying: o que nós temos a ver com isso?

  1. Nuno Amado disse:

    Bom artigo. E não preciso de dizer mais nada.
    😉

  2. Mameha disse:

    Poxa, mas que legal. ❤ Sensacional, sem mais. Só sensacional. 🙂

  3. Thiago Batman disse:

    Fantástica postagem, acho que isso me deu uma grande ideia.

  4. Koppe disse:

    Esse tipo de coisa não acontece só com estudantes, mas pode se estender na vida adulta também, entre colegas de trabalho. Aí ganha o nome de assédio moral.

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