PODER SEM LIMITES: Super-atletas e seus feitos milagrosos no universo dos mangás esportivos

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No Japão, histórias com temática esportiva representam uma fatia significativa das publicações regulares. Algumas se tornam fenômenos de mercado e ajudam a alavancar o interesse de crianças e adolescentes por modalidades menos populares nos clubes escolares. Por aqui, o efeito está muito longe de ser o mesmo. Além de pouco material estrangeiro ser traduzido, a produção nacional de quadrinhos sobre esportes é quase insignificante. E o pouco que existe não chega a empolgar o público leitor. Há exceções, claro, mas o leitor regular de quadrinhos no Brasil não parece mesmo ser do tipo que tem grande interesse em esportes. Então, quadrinhos sobre esportes atraem ainda menos interesse. E isso parece ser ainda mais verdadeiro quando se trata do mercado brasileiro de mangás.

captain-tsubasa-road-to-2002-445010Se tem algo que considero estranho em mangás sobre esportes é que tudo fica parecendo história de artes marciais. A modalidade não importa. Futebol, tênis, vôlei, basquete, go, tudo ganha contornos de duelos em que técnicas secretas, que consomem enormes quantidades de energia espiritual, são a diferença entre a vitória e a vergonha e em que adolescentes no colegial dominam habilidades raramente vistas (impossíveis, na verdade) mesmo entre os melhores profissionais. Com certeza, o que mais me desagrada nos mangás sobre esportes é esse exagero. O mundo esportivo é, por si só, cheio de histórias carregadas de emoção, drama, frustração, superação, fracasso e sucesso. Tudo isso poderia facilmente se transformar em grandes obras de narrativa gráfica, desde que fosse colocado nas mãos de escritores e desenhistas competentes. E sabemos que eles existem. Mas o mais comum nos mangás esportivos é vermos super-atletas que são verdadeiros semi-deuses, para quem a ordem natural das coisas, particularmente as leis da física que regem a relação entre tempo e espaço, e os limites do corpo humano são apenas um pequeno percalço a ser vencido pela simples elevação da vontade.
Um dos fatores mais importantes nas narrativas heróicas é a ascensão, o modo como o herói enfrenta desafios cada vez mais difíceis até estar pronto para o momento definitivo. Vencido o último desafio, ele sai de cena e se torna uma lenda, porque não há mais nada que ele possa fazer para continuar crescendo. Ou um novo desafio ainda pior aparece e o herói precisa atingir a divindade para triunfar. E, se a história se prolongar indefinidamente, cedo ou tarde o herói será onipotente. Ou um imbecil, porque não vence os perigos de maneira mais eficiente, apesar de toda a experiência acumulada. (Geralmente coloco Peter Parker nessa categoria).

Kuroko No Basket

A Panini acaba de lançar o primeiro volume de Kuroko no Basket: O Basquete de Kuroko (Kuroko no Basuke, ainda em publicação pela Jump). Não é o primeiro mangá sobre basquete a vir para o Brasil (a Conrad publicou a série Slam Dunk — completa, por incrível que pareça — entre 2005 e 2008 e vendeu relativamente bem) e, dada a boa aceitação da série em outros países do Ocidente, é provável que tenha resultados razoáveis por aqui também.
knbA história gira em torno do time de basquete do colégio Seirin e seu esforço para superar outras escolas nos torneios escolares do Japão. Os maiores obstáculos são os jogadores da “geração dos milagres”, que formaram um time imbatível no ginásio mas agora estão espalhados por várias escolas secundárias, se enfrentando nos jogos colegiais. Kuroko Tetsuya é um desses jogadores, especialista em passes e desarmes desconcertantes, que se junta a Kagami Taiga, que volta dos EUA para ser o melhor do Japão.
Kuroko_uses_Ignite_Pass_KaiKnB exagera muito no clima de artes marciais. Pense em Dragon Ball Z, mas coloque uma bola de basquete cortando o ar em alta velocidade no lugar das rajadas de energia e você terá uma boa idéia de como a maioria das partidas é resolvida na história. De fato, houve vários momentos em que imaginei ver um supersayajin aparecendo no meio do jogo.O problema de KnB é que as personagens principais já começam sua jornada num nível muito acima do que poderia ser considerado humanamente normal. Isso exige que o escritor e desenhista Fujimaki Tadatoshi transforme o que deveria ser um torneio de basquete intercolegial no Japão em uma verdadeira teomaquia, uma guerra de deuses adolescentes (muitos têm a mesma cara, o que dificulta um pouco na hora de acompanhar a série) que usam o basquete como argumento num intenso debate sobre o que consideram verdadeiro.
É claro que o mangá pode ser divertido (desde que você não entenda de basquete nem de mitos), até porque o roteiro é uma verdadeira aula de como construir a tensão para o capítulo seguinte, alternar entre o presente e flashbacks com naturalidade, quebrar o clima pesado com piadas adequadamente inseridas (pena que o senso de humor japonês seja tão estranho), mas a escalada de poder é algo que realmente incomoda. (Mas é claro que essa é só a minha opinião. Você tem todo o direito de ler e tirar suas próprias conclusões).

 

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Sobre Quotista

Filipe Makoto Yamakami é historiador, professor, músico amador, twitólatra, monicólatra, etc. E realmente precisa de um emprego que lhe permita pagar as contas. @makotoyamakami
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6 respostas para PODER SEM LIMITES: Super-atletas e seus feitos milagrosos no universo dos mangás esportivos

  1. Andre Eugenio disse:

    Isso me fez lembrar aquele sobre futebol, teve até um anime. Super Campeões. O jogo de futebol parecia algo tão absurdo nesse desenho rssss

    • Quotista disse:

      Super Campeões (título horrível) era muito legal na parte da pesquisa de uniformes, estádios, cidades… mas o modo como a história era contada deixava bem óbvio que o autor não conhecia as regras do jogo direito.

  2. milton disse:

    “O mundo esportivo é, por si só, cheio de histórias carregadas de emoção, drama, frustração, superação, fracasso e sucesso. Tudo isso poderia facilmente se transformar em grandes obras de narrativa gráfica, desde que fosse colocado nas mãos de escritores e desenhistas competentes. ”

    mas esse tratamento surreal em mangás esportivos para adolescentes não faz nem os escritores nem os desenhistas menos competentes, é só uma característica do gênero.

    • Quotista disse:

      Parte do meu problema é exatamente isso: a natureza do gênero. Existem histórias boas a contar, mas tudo é transformado em DBZ. Alguns até se dedicam a fazer uma boa pesquisa para referência de cena, mas descaracterizam totalmente o esporte.

      • Egon disse:

        Eu gosto muito de mangás sobre esportes, apesar da escala de poder atrapalhar muito na maioria das vezes.
        Além do fato de que os adolescentes de Kuroko no Basket terem habilidades atléticas absurdas, me incomoda o fato deK uroko no Basket ser um Slam Dunk de proporções épicas e exageradas.

        Um bom mangá de esportes que vale a pena ser lido é “Real”, um drama esportivo sobre basquete em cadeira de rodas.

      • Quotista disse:

        Vou guardar o nome para caçar mais informações depois. Obrigado pela dica!

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